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terça-feira, 5 de janeiro de 2016

LEMBRANÇAS

                                 
        Em 1967 fui estudar num colégio chamado Taylor-Egidio pertencente aos Batistas Brasileiros. Era um crente convertido no ano e 1966, nos primeiros dias de lutas e aprendizado que jamais chega ao fim.
        Certo dia fui chamado pelo Pastor Esmeraldo, então pastor da Igreja Batista de Jaguaquara, o qual me incumbiu de ir pregar na Igreja Batista de Lafaiete Coutinho que ficava distante, porém muito mais perto de Jequié.
        No sábado arrumei a humilde maleta e lá fui eu. Desci naquela ermidão deixando a estrada que seguia para Jequié, no ponto de desembarque, à beira da estrada para Lafaiete Coutinho cujo nome antigo era Três Morros. Apaixonei-me logo pelo nome.
        Sempre fui considerado apressado. Esperei alguns longos e eternos minutos à beira da estrada de chão batido que conduz à cidade e, depois de aguardar um transporte, que era raríssimo, e quase inexistente, resolvi, na minha costumeira solução de apressado, contar até cem, ao cabo da contagem viesse ou não o transporte eu iniciaria a caminhada a pé.
       Terminei a contagem. O dia declinava aquele sol típico da região e então comecei a caminhada pela estrada indicada rumo a Três Morros. Andei. Fora informado que a estrada se alongava por três léguas. Caminhei, caminhei e caminhei sozinho enquanto o dia declinava na mornidão avizinhada da noite e fui andando de olhos fixos na estrada e na idéia da pregação e da cidade. Adiante, na curva de uma estrada, apareceu uma mulher horrivelmente trajada, cabelos sem pentear e partiu para cima de mim com uma enorme faca, ameaçando me matar.
       Tentei argumentar com a mesma, relutei em como agir, pensei em correr, mas desisti; permaneci estoicamente a defender-me dos golpes enquanto buscava chamar aquela pobre criatura à razão. Era uma louca!
        Desvencilhei-me, não sei como explicar, acho que por livramento do Espírito Santo e reiniciei a marcha batida com a louca lá atrás a perseguir-me, mas distanciando-me. Nada de passar um transporte. Nem carros de bois. Nada.
       Caminhei naquela lonjura que me pareceu umas dez léguas. Daquelas que se diz nos sertões que o “Dinho esticou”. E nada de transporte que eu já imaginava, por pura tolice, não aceitar mais. De repente, de longe, ao aproximar-se da noite, arrastando eu  os sapatos no chão, cansado e estafado, eis que passa um jipão daqueles americanos doados ao Brasil pelo governo norte americano. Neguei-me a embarcar nele. Já avistava as luzes. Andei uma eternidade. Quando entrei nos limites da cidade por volta de dezenove horas, não andava, arrastava-me.
       Pedi informações sobre a pensão aonde seria hospedado. Era de propriedade de duas irmãs bem velhinhas; a única pensão da cidade. Bem humilde. Tomei um banho enquanto elas providenciavam comida que consistiu em feijão dormido e envelhecido (sobra), uma salada de tomates excelentes da região, não tanto maduros conforme pedi, e um baita pedaço de carne de sol assada. Que repasto!
         Em meio à curiosidade das irmãs que eram dois corações maravilhosos, fui para meu humilde quarto. Praticamente desmaiei na cama, de cansaço. Dormi como um justo! Manhã seguinte, vesti minha roupa, terno e gravata, conforme era costume nosso, nas nossas igrejas ,e fui para o templo humilde. Havia pouco mais de seis pessoas. A Igreja era bem pequena e não se desenvolvera muito. Irmãos não conseguiam renovar nem ganhar almas para Cristo. Preguei para aqueles irmãos. A noite de domingo; preguei na mesma Igreja. Fiquei de voltar. Ganhei algumas almas para Cristo.
       Jamais retornei aquele lugar. Mas o nome ficou marcado na minha cabeça. Hoje, passados 49 anos, me assaltam os pensamentos, e me recordo tanto, e tento encontrar, pela internet, em vão.
      Belos dias da juventude.
      Adeus.



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