Dia de domingo costumava ir até o Adro do São Gonçalo do Amarante em
visita a alguns amigos. Visitava todas às vezes, o enorme templo na pracinha,
paredes rudes, grossas e seculares, testemunhas vivas de um passado de mando e
desmando da religião, da imposição e da intolerância.
Já defendi a tese sem ouvintes, de que
a cidade de Itiúba não adveio da Fazenda
Salgada pertencente à Dona Bebé, como ensinaram as nossas crianças, mas
nasceu no Adro que era o lugar para onde convergiam as pessoas e as posses.
O Adro era recôndito plantado qual
sentinela lá nas alturas da Serra da Itiúba, acidente geográfico com tal
nome, referida na obra de Euclides da Cunha, em Os Sertões, desconhecido de muitos, daí outra dúvida que
me plantaram no cérebro, mais hodiernamente, quando passaram a afirmar que
Itiúba significa “Abelha Dourada”.
Discordo sem conhecimento de causa, mas fato é que aprendemos que Itiúba
significa “Pedra Montada”, segundo
os eruditos, herança do Tupi-Guarani que deveria ser a língua falada pelo
brasileiro, versão que recebe toda a propensão do escriba.
Lá, passava o dia todinho naquele
clima fenomenal, retornando no lombo dos animais, na “boquinha da noite” como
se dizia naqueles arredores, com o coração impregnado de um desejo que era ir
assistir ao filme no cinema do Betinho.
Era uma festa. Custava a entrada apenas dez tostões. Tinha ainda, toda aquela
operação de convencimento do pai que enviava naquele jogo de empurra, para a
minha mãe, que me mandava de volta ao pai, até que, finalmente, sob resmungos,
mamãe liberava o dinheiro que era a entrada do cinema do Bertinho. Não era
pouca coisa não!
Às vezes descia de casa em desabalada
carreira. Chegava muitas vezes, quando o prefixo que era tocado antes da
exibição, já se iniciara que não me sai da cabeça até hoje, luzes apagadas e a
turba aguardando o início do filme. A molecada assoviando feita louca. Eu nunca
assoviei. Gostava de silêncio e concentração.
Tempos idos e saudosos. Ainda outro dia
o Bertinho mandou-me, de cortesia um CD intitulado ERA UMA VEZ NO CINE ITIÚBA que quase me mata de chorar de
saudades, com os grandes astros, o prefixo do cinema, as trilhas sonoras
inesquecíveis e inapagáveis, coisa para quem tem coração de aço. E eu confesso
com sinceridade, não sei se serei mais capaz de assistir os CDs. Muitos astros
idos e pouquíssimos vivos, que aprendemos a ver nas telas e a vibrar por eles.
Monstros sagrados que se plantaram nos nossos corações e nas reminiscências
inapagáveis de um tempo que teimosamente continua a desparecer na linha tênue
do horizonte mortal.
Era uma vez um cinema que não sai das
recordações que testemunhou parte da história da cidade de Itiúba. O cinema do
Bertinho.
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