Cheguei aos 66 anos exatamente hoje dia 18 de junho. Pela manhã fiz um
balanço ponderando minha vida e existência. Comecei desde quando sai dos
cueiros, lá no comecinho. Sobraram-me alegrias em constatar que neste mês o
Estado aposentou-me por invalidez permanente vitimado por umas oito hérnias discais, umas duas
artroses, uma tendinitizinhas e
outros probleminhas sem importância que tentam, mas não conseguem, tirar-me do sério.
Constatei que sempre fui fiel aos amigos, bom pai e filho. Constatei que
não me deixei embrutecer pelas promessas de um mundo duro e cão, nem me deixei
baquear pelas ofertas do mundo. Não tirei da boca do órfão o pão, nem deixei
que a usura e a ambição tomassem conta do meu ser. Não cai nas armadilhas que
me armaram.
Plantei muitos filhos e árvores na vida, não matei a natureza.
Cheguei sem uma boa conta bancária, mas nunca me faltou o essencial na
vida desiludi-me com duas coisas que amei durante a minha vida: O
socialismo e a advocacia com suas relações perigosas. Mas mantive-me fiel
aos meus princípios sagrados e aprendidos do velho pai.
Desiludi-me de coisas que fui deixando pela estrada empoeirada da vida,
mas exultei em constatar que a minha vida foi limpa e irretocável enquanto
constato que o amor de Jesus sempre esteve ao meu lado por todos os meus dias.
Sonhei muito e apaguei meus outros muitos sonhos. Vivi relevâncias e
irrelevâncias. Cai e levantei, tropecei e olhei pra frente.
Fui duro, meigo, carinhoso, radical muitas vezes e intransigente outras
tantas vezes. Tenaz, soube recolher-me entre lágrimas aos meus aposentos,
embarquei em trens que levavam companheiros, amigos e desconhecidos à morada
final. Estou perto dela. Fui sincero, procurei não ferir embora tenha sim,
ferido algumas pessoas, mas não intencionalmente. Fui santo e piedoso e muitas
vezes desejei jamais descer do Tabor; mas também fui demônio a atanazar vidas e
a cometer deslizes. Nada que se possa dizer monstruosas.
Nesse meu retiro estou constatando a minha imperfeição. Vivo recluso por
opção. Não gosto de aglomerações e sou exigentíssimo com amizades e pessoas.
Ricos me desprezam enquanto pobres me aplaudem. Não aprendi a bajular. Na
cidade em que vivo me orgulho de ser popular, posso dizer não ter um único
inimigo, jamais me quedei aos apelos dos ricos e poderosos nem me ombreei a
eles.
Não corri atrás de favores nem aprendi a pedir. Posso dizer que sou não
um injustiçado, mas um indesejável diante de pessoas que pensam ter outras nas
mãos para as suas satisfações.
Calmo a maior parte do tempo, silencioso quando vejo que o silencio é o
melhor remédio, vivo um recluso contemplando do alto da minha existência, a
vaidade humana, a crise dos existencialistas, a debandada da humanidade que me
parece sem rumo.
Não posso dizer que sou um otimista. Ao contrário, sou de um pessimismo
juramentado. Às vezes super bem humorado, outras vezes irascível e geniosamente
iracundo, não me confio nem confio na humanidade nem por um minutinho sequer.
Muitas vezes fui e sou meigo e doce. Mas não é sempre assim. Sou de sorriso
difícil.
Mas acima de tudo aprendi que do mundo nada resta senão para os que se
confiaram em Jesus e não se deixaram pelas feridas e cicatrizes, sangrar na
calçada da vida até o esvaimento total. Minha vida é alimentada todos os dias
pela oração que me ajuda a manter a esperança que não morre numa vida eterna
chamada paraíso, embora quão poucos ali
entrarão diante das negações e das renúncias que a vida cristã nos obriga e,
que portanto poucos querem entrar pela estreita porta e apertado caminho.
Eu sou um gozador da vida e da existência dessa pobre humanidade
desamparada e que se voltou contra o Senhor. Curto e faço gozações e gracejos
indefectíveis contra ladrões e corruptos, além daqueles que materializados se
engorduraram pela ideia de TER em vez de SER.
Rio da velhice, faço piadinhas, atanazo as vidas de mulheres e homens
apontando as vaidades como os cabelos pintados, bigodes e plásticas, mas
conforto-os dizendo que tudo passa e que nada disso tem relevância. O
reumatismo da terceira idade é motivo para risadas.
Eu rio da vida. Quantos, aos 66 anos, podem, de fato dizer essas coisas?
Sou feliz às vezes e infeliz outras vezes. Sou um sobrevivente que tem pressa
de ver o seu Senhor Jesus. Não ore pela minha longevidade. Abomino velhice e
vida longa. 66 anos é viver demais. Já vi tudo. Desejo e quero aspirar
veementemente o outro mundo.
Escolhi o SER.
Max Brandão Cirne (75) 8803-1829