Este blog tem como objetivo discutir História, postar artigos, discutir assuntos da atualidade, falar do que ninguém quer ouvir. Então sintam-se a vontade para perguntar, comentar, questionar alguma informação. Este é um espaço livre para quem gosta de fazer História.
Intrigado estava enquanto tentava no seu juízo identificar que animal seria. Arguto, descalça os pés sobre a graminha de presépio ao redor da pedra, tira o chapéu de palha e começa a escalar a pedra até que chegasse ao topo. Levanta a cabeça colada à pedra, já agora perfeito dono da situação, avança a espingarda para a frente, já engatilhada, apóia a enorme coronha no ombro direito, apruma-se deitado em posição de tiro, avista primeiro a copa frondosa da umburana de cheiro, sés lhos vã se abaixando, avista a galharia coberta de flores, divisa o tronco vermelho e verde descascado e para atônito com o que vê, passa a esquerda mão sobe s olhos, prende a respiração, o coração peã primeira vez parece querer arrebentar o tórax, aumentam as batias, agora pareciam maiores como a querer sair pela boca, a vista escurece, a espingarda lhe pesa uma tonelada, não suporta o peso, encosta-a com muito esforço sobre a pedra, imobilizado está, imobilizado fica, braços tremem, mãos suam copiosamente, senteaproximar-se da vertigem, dá um rápido passamento, escorrem suores,a cabeça coça, o sangue fervilha, a boca esgana para um choro impossível de ser contido pelo velho caçador.
As onças perigosas que caçou pareciam agora brinquedos de crianças, sente que a urina lhe escorre pela calça e a cena dantesca crava no cérebroe lhe impregna até a alma. Num espaço curto, porém que lhe parecera um século os fatos se desencontram no consciente e, onde jamais conhecera o medo sente que adormecera sobre a pedra, não de sono, mas de horror. Desmaiara mesmo de verdade. Recobra os sentidos, dobra o corpo para trás, os olhos agora não se dirigiam para a cena monstruosa, mas para o pé da pedra a procura de uma vassourinha,desespera-se por não encontrá-la naquele ermo, pois era preciso desencantar o bicho. Olha novamente para a pedra aonde deixava escapar um sussurro.
Lá estava um macho e uma fêmea. Não um casal comum e normal. De quatro pés parecendo uma cadela apoiada sobre as patas estava um misto de animal e humano. Sobre a cadela ajoelhada estava um dantesco animal, costas peludas, o rosto coberto de pêlos terríveis sustentado por um pescoço descomunal em grossura, pelas costas, fios e pêlos de bode escorriam até encontrar as nádegas do animal. As pernas menos cabeludas deixavam ver perfeitamente pés humanos no terminal do corpo.O animal cruzava com a fêmea coberto de pêlos, mas nas nádegas não tinha pêlos. As coxas do animal fêmea deixavam transparecer ser mais uma mulher. Mas era impossível, pois grunhia e sacuda a cabeça, as peludas mãos com imensas e unhas seguravam-napelos quadris enquanto enorme falo entrava e saia em movimentos rudes e rápidos, deixando o macho a balançar medonhamente a cabeça para os céus por entre o encopado da umburana de cheiro, rosnando ameaçadoramente.
Januário agora estava mais calmo dirige a espingarda na direção do bicho, fecha o olho direito na pontaria insegura, grita pelo nome de Jesus, o bicho estanca os movimentos, a fêmea vira a cabeça, mas sem deixarem a posição, enquanto um tiro ecoa na ermidão da noite que se anunciara. Um baque surdo e um grunhido de cachorro ferido, depois um urro como que vindo das profundezas da terra. Sem tempo para recarregar, ainda procura no fundo da capanga atulhada de rolinhas e juritis, procura lá no fundo, tateando, opolvorinho, com dificuldade encontra-o, as mãos estão agora empapadas de sangue, deixa cair o polvorinho sobre a pedra, este rolaao pé do monólito bloco, dá um salto, apanha-o, despeja uma grane quantidade imensurável, não sabe quantificar e, no desespero coloca a bucha, apanha a vareta, soca a pólvora que não dá para colocar nova bucha, deixa lá mesmo a vareta da espingarda dentro do cano, puxa o cão, trepa rapidamente na pedra, os animais começam a se afastar de costas, medonhos, terrificantes, apavorados, ameaçadores olhando para o alto da pedra. Agora Januário já está em pé sobre a pedra. Sua estatura gigante se avoluma conta a penumbra enquanto a figura se desenha contra o negror da noite. Chama por Jesus Cristo, mira rapidamente e um novo e medonho urro ecoa nas serras enquanto o animal se debate, a fêmea procura fugir, plantas ao derredor ficam amassadas pela luta parecendo fatalmente atravessados com a vareta de socar a espingarda, urros apavorantes cortam o mundo e o animal se afasta rapidamente do local deixando as folhas farfalhantes e ramos quebrados ao impacto dos corpos em agonia.
Desce rapidamente da pedra e empreende a descida da ladeira da Serra o Cruzeiro em desabalada careira, até alcançar a ponta da rua completamente esbaforido e apavorado além de trânsido de medo, mas procura acalmar-se um pouco mais até alcançar a sua casa. Sabia que ninguém acreditaria nele quando contasse às pessoas, por isso mesmo conta apenas à mulher enquanto lavava os pés num gamelão de baraúna feito pelo Zé Reis, pois caçador que se preza na toma banho diariamente. A mulher pasma, não queria acreditar no marido.
Naquela noite os dois contritos rezaram o Ofício das Almas e um coroinha foi chamado para ler, na sua casa com alguns vizinhos, as Horas Marianas. Um breviário foi retirado do velho baú depositado lá por muitos anos e sem serventia que justificasse sua reativação e uso em outra ocasião que não aquela.
Ofícios e ladainhas ecoaram na casa de Januário quando um visitante chegou comunicando que Esaú havia caído numa moita de sisal furando o olho esquerdo. Isaltina estava toda furada de espinhos inflamados, pois na agonia de ver seu pai caído na moita, todo espetado, foi em seu socorro, ferindo-se, embora mais levemente.
Daquele dia em diante Esaú toda vez que passava por Januário falava umas palavras sem compreensão. Januário cismou que era Esaú e sua filha Isaltina. Esta, por sua vez, lhe fez vários convites para dormirem juntos ao que o velho caçador sempre se recusava. Esaú ficou cego e Isaltina ficou marcada na altura do joelho para sempre e, quando estava com os seus amantes lhe perguntavam o que lhe causara aquele corte de tão feia cicatriz, Isaltina fazia de contas que não ouvia, fazia muxoxos e mudava de conversa.
Januário desistiu de caçar. Aposentou a espingarda lazarina. As onças não mais existiam e só se aventurava caçar pelas redondezas do pasto do Valadares, às pequenas e saborosas rolinhas. Nos meses de março e abril não mais saía, nem até mesmo no fundo do quintal da casa.
Esaú e Isaltina cumpriam a sina triste e amaldiçoada de, a cada ano, a cada quaresma ou época perto da quaresma, agonizarem no seu pecado, transformando os dois em animais amaldiçoados. E para desencantá-los seria preciso que o caçador tivesse encontrado uma folha de azedinha ou de vassourinha, apanhá-la e colocá-la na boca do cano a espingarda. O olho esquerdo de Esaú, agora cego para sempre com o tiro dado com a vareta lhe vazara a córnea, mas não o matou nem quebrou o encanto mandingueiro. Continuava encantado.
Mas nas noites de lua cheia todos os anos, principalmente nas quaresmas, lá estava na frente da casa do Januário um enorme cachorro, a rodear e a grunhir até o dia clarear. Januário já velho e alquebrado pelos anos, quase sem visão, aposentou sua espingarda para sempre. A luz rubra do candeeiro atestava dento de casa o pavor que sentia Januário que rezava nessas noites o Ofício e suas ladainhas.
Januário não era mais caçador de onças, porquanto elas não mais existiam, pelo menos em abundância como n’outros tempos em que as bichanas não deixavam garrote nem bezerros pastarem mansamente sem um ataque. Lá estava ele figura imponente na Serra do Encantado comendo uma farofinha que a mulher lhe preparava para o repasto do marido que se levantava todos os dias às quatro horas da manhã, colocava a grande sacola nos ombros, facão dezoito polegadas na cintura e a espingarda lazarina que já havia matado mais de quinze onças.
Sentado sob um pobre rancho de espera lá estava aquele homenzarrão a lamentar com o seu irmão Marinho os dias difíceis sem onças e sem outras caças. Suas armadilhas como o mundéu, só pegavam, agora, gambás, guaxinins e sariguês num repetição enervante,pois que, de nada lhes valia e semserventia, por não terem valor comercial, Seus couros não eram comercializadossuas carnes não se aproveitavam para a venda. Lembrava quando ia vender carne de onça vermelhona a escorrer sangue empapando as pedras do açougue enquanto o povo curioso ia comprar muito mais por curiosidade do que pelo sabor. Falava ele suas lamentações atribuindo o desaparecimento dos belos animais à imprudência dos caçadores e aos circos de feira que aprisionavam filhotes e fêmeas grávidas, de modo que ele muito bem sabia que essas coisas não podia mesmo dar certo.
Vindos de uma família de caçadores, Januário e Marinho eram espécimes em extinção. Cheios de raça e fibra, eram além do mais, apalavrados, mesmo sendo pobres. Variavam a caça com a plantação de mandioca e outros. Januário comprazia-se em contar casos da pintada que deixou a mão direita na arataca indo embora, permitindo calcular que a bichana pesava entre oitenta e cem quilos bem distribuídos, tendo ele guardado a pata por muitos anos , exibindo-a aos amigos e visitantes curiosos que iam até a casa humilde do caçador. Pitando seu cigarrinho de fumo-de-corda que babava olhar perdido na caatinga braba, fitando o passado invisível, o irmão Marinho apenas ouvia a voz do Januário como num lamento. Certamente os dois sabiam que o tempo não retrocederia no espaço nem as onças voltariam mais a comer bezerros e nem os fazendeiros os convidaria como valentes honrados e cavalheiros das caatingas a desafiar, sem medo as temíveis onças. Não as suçuaranas que são mansas e não atacam as pessoas, a menos que sejam encurraladas na toca acuadas por ferozes cães onceiros.
Nunca se esqueciam de presentear a dona do mato na sua sabedoria simplória, dizendo que se a caapora não fosse adulada correria dalí com a caça. Lá estava o mundéu armado com isca de gambá, mais exatamente o patuá, a esperança não de onças, mas de gatos pintados ou mouriscos que servia para uma boa canja a noite, preparado pela mulher além de ter o couro valioso que seria vendido na feira do sábado.
Sítios outrora ricos de animas, agora era a desesperança, pelo sumiço. Sua esperança era ainda a de apanhar uma baita onçona daquelas no mês de março pois passariam uma semana sem armar nada em respeito à semana santa e as chagas de Jesus Cristo, celebrando na passagem da quaresma. Após muitas reflexões resolveram como sempre faziam, separar-se até o outro dia quando se encontrariam a noitinha já em casa.
Pegou Januário um atalho por uma pequena vereda onde tentaria alcançar o caldeirão da laje do Cruzeiro esperando encontrar no bebedouro algumas juritis e codornas contando com o sol a pino que é quando os animais vão beber.. Sege pelas veredas só por ele conhecidas, dando tiros, pequenos tiros, não mais tiros estrondosos daqueles que só serviam para abater pequenos animais como as codornas e nhambus. Na aguada d cadeirão de pedra encontra muitas rolinhas fogo-pagô, branquinhas, caldo-de-feijão, azul, vermelha e muitos juritis e cardeais e outros passarinhos que na serviam para pagar um tiro. Nessas ocasiões escondia-se por detrás e entre as pedras circunvizinhas impiedosamente começava a badogar os passarinhos que sequiosos pousavam para matar a sede. As balas de barro caíam sobre os pássaros fazendo um verdadeiro estrago. Sua estratégia consistia em não permitir que o animais bebessem da água de fora que, ao tombarem sobre a laje quente do caldeirão e as penas voarem, espantavam as demais voando para a galharia ao derredor, mas fazendo o instinto de preservação da vida e a sede, com que retornassem para beber água do caldeirão. Novas badogadas, novas revoadas até que satisfeito ia recolher os muitos mortos, operação rápida uma vez que a grane quantidade fazia os demais ariscos e arreios, demorando-se muito em intervalos para retornarem a aguada.
Rápido, muito rápido sai de detrás das pedras, recolhia aos mortos, alguns ao pé do lajedo debatendo-se mal feridos, mas sem salvação nem escapatória, sempre deixando estes por último uma vez que bebedouro e animais abatidos deste modo atraem, também, o terrível cascavel de sete ventas para o repasto. Quando tal acontecia ele simplesmente se limitava a acocorar-se sobre a laje do caldeira eobservava atentamente os animais se debatendo na agonia da morte, ensangüentadas, à procura da vida que se esvaía.
De repente os olhosdo caçador divisaram um enorme jaracuçu encovado ao pé da laje,enrodilhado à espera de algum incauto. Um tiro da lazarina ecoou na ermidão da serra. O jaracuçu enorme desenrodilhou-se quase todo ao impacto do chumbo quente e fico a revirar sobre o corpo, morrendo sem escapatória. Januário apanhou um pedaço de madeira cortado com o dezoito polegadas, enfiou-o por baixo da barriga quase dividida, suspendendo-o no ar procurando medi o tamanho e em seguida se dirige para uma pequena lapa no lajedo aí depositando o imenso bicho que haveria de apodrecer sem perigos das suas espinhas estrepar alguém que por acaso caminhasse descalço por aqueles sítio. Retoma, apanha nove rolinhas e dois juritis que mal feridas acabaram de morrer embaixo do lajedo em sua extensão. Faz os cálculos. A capanga de caçador já estava pesada. Calcula que já tem aproximadamente quarenta e cinco animais caçados, isto fazendo-o pelo peso do alforje de caçador.
Em passo lento e firme atravessa a roça de feijão de corda do seu compadre Tonho de Maricota, evita pisar nas aboboreiras em flor, as melancieiras estão carregadinhas de flores amarelo ouro e o milho pendoado é um espetáculo com seus espigões cobertos de cabelos dourados brilhando ao sol da tarde. Toma o caminho principal por onde todos transitavam para subir até a Serra do Cruzeiro, desce lentamente e preguiçosamente pensando em quanto apuraria para a feira de sábado após mandar , depois de semi moqueados, um menino vender na estação do trem aos viajantes passageiros. A noitinha já se anunciava, lá de cima via que as primeiras luzes da cidade já se acenderam. Em menos de meia hora estaria em casa e, embora não trouxesse naquele dia um gato do mato, levavaa certeza de uma caçada relativamente boaque servia para fazer dinheiro. De repente seu ouvido de caçador experimentado o faz estancar o passo. Eva a mão em forma de concha a uma das orelhas. Não consegue distinguir o sussurro nem identificar qual animal causava tamanho barulho. Pensou a princípio ser algum porco brabo. Retira do ombro a espingarda lazarina, engatilha-a, vai na direção do barulho e... pé ante pé lá vai Januário olhar fito na moita, barulho aumentando na medida da aproximação. Na sua frente uma pequena pedra de mais ou menos três metros de altura por uns oito de comprimento e mais uns cinco de largura obrigaria a fazer o contorno. O caçador está intrigado. Pensa nos porcos brabos que perdiam a domesticidade após fugirem dos quintais da vizinhança e ganhavam aquelas serras enquanto começa a inzonar quão bom seria se acertasse em algum para vender no açougue, apurando melhor dinheiro. Resolve então que não deveria contornar a pedra cheia de restos de limo preto, preferindo escalá-la e surpreender o bicho lá de cima ao mesmo tempo que fugiria do faro do animal que fatalmente seria a sua escapatória.
Programada para a noite daquela sexta-feira, Pedro Coruja pretendia abalar a cidade através do seu circo, trazendo atrações realmente diferentes do que até então havia apresentado em outras cidades. Aquela temporada de apresentações deixara a companhia circense absolutamente feliz com as perspectivas de em cada cidade repetir os sucessos das outras. Do palhaço Cheiroso às formosas rumbeiras deslumbradas, desde o artista mais humilde ao malabarista todos trabalhavam com frenesi para levar o circo aos píncaros da glória. Os salários estavam em dia, a lona estava novinha, os animais bem alimentados e a artistagem não mais estava obrigada a dormir sob a empanada, sobre as tábuas das gerais. Tudo isto acontecia exatamente pela excelente administração do Pedro Coruja e a sua fama de proprietário capaz.
Razão, pois, encontravam os artistas quando receberam ordens de hospedagens nos hoteis mais disponíveis e melhores da cidade, estando tamanha fartura se repetindo desde outras cidades por onde passaram. Já não eram obrigados a se alimentarem mal nem dormirem sem conforto, bem como fome não passavam.
Na sexta-feira será apresentado um espetáculo em três atos, drama de repercussão, onde a protagonista seria uma mulher da Idade Média que por te sido infiel ao esposo fora condenada pelo rico senhor a morrer pelo punhal vingativo, com a sanção social,.
O palhaço Cheiroso com suas enormes perna de pau, desde a segunda-feira havia anunciado o espetáculo, dando bastante ênfase ao dramalhão, coroando deste modo o valor do mesmo. Além do mais, como incentivo, Pedro Coruja resolvera ao mesmo tempo promover aquilo a que chamava de “a noite dos casais”. Ou seja, quem fosse acompanhado de uma figura feminina qualquer, só pagaria uma entrada, ou o ingresso do cavalheiro.
Por motivos óbvios, a função só começava mesmo lá para as nove horas da noite, muito embora o circo sempre anunciasse que começaria impreterivelmente às oito da noite. Assim, esperavam os responsáveis lotar o circo desde o “poleiro” até os camarotes que afinal não passavam de cadeiras bem dispostas, algumas não suportando o peso dos expectadores, quebrando-se entre uma apresentação ou outra da artistagem e fazendo, nessas ocasiões, que as galerias assobiassem e gritassem em vaias terríveis para sufoco do infeliz que acaso fosse o acidentado.
O relógio já marcava quinze para as nove da noite quando derepente uma mulher trajando um lindo vestido cintilante, cor preta, sapatos à Luiz XV adentrou aos camarotes sendo conduzida por um trapezista, rapagão que possuía, para seu desespero uma parte da cabeça absolutamente lisa de cabelos, tendo sido provavelmente resultado de alguma queda na sua arriscada profissão, obrigando-o porconseguinte, ao uso de um chapéu à cowboy, só o retirando mesmo quando substituía por uma amarfanhada peruca que lhe escondia o terrível defeito.
Este no lugar do lanterninha dos camarotes conduzia respeitosamente a bela mulher, de todos conhecida, na figura da nossa já famosa e conhecida que era dona Carminha. O circo quase veio a baixo no alvoroço da gandaia jovem. Assovios intermináveis, gritos, ofensas e vaias e mais vaias as mais variadas aumentando o dissabor especialmente dos vizinhos de cadeiras de dona Carminha. Na cabeça u fino e reluzente broche de madrepérola encimado por seis cristais reluzentes cravejados de rubis vermelhos que multicoloriam quando ela fazia o menor movimento com a cabeça. Um chale preto sobre os ombros descia até a altura das nádegas, em cascata, bruxuleante e de cores negras. Os sapatos ornados com fivelas minúsculas da cor da mesma combinação geral da roupa, e um farto decote mostrava as lindas costas nuas até abaixo da linha da cintura deixando os fartos e apetitosos seios quase à mostra. Ao sentar-se na cadeira simples, as nádegas da senhora encaixaram-se entre a madeira lateral da cadeira afundando e projetando-se a fartura roliça e bem proporcionada, como se entalada estivesse naquela cadeira de circo.
A professora Vânia ao lado começou a dar mostras de impaciência, pois esperava ao seu lado uma outra senhora da sua tradicional sociedade, começando, para desespero de Carminha, a cochichar com o marido do outro lado de si. Via-se que a professora não estava muito à vontade, mostrava-se inquieta e denunciava a simples presença de Carminha sentada ali, desavergonhadamente, logo perto dela,uma das mais recatadas daquela comunidade.
Por toda a área do camarote via-se perfeitamente o mal estar das demais senhoras, muito embora Carminha ainda não tivesse descambado para a vida de boemia como mais tarde iria fazer e ser encontrada disponível para quem pagasse, em disponibilidade para quem quer que a pretendesse.
A ponta de inveja era sensível uma vez que Carminha vestia-se com aprumo e beleza, gastava roupas caríssimas, vinha de família que lhe fazia todas as vontades e desejos, usava jóias refinadas e, naquelas circunstâncias, não era justo que Carminha tivesse a ojeriza das demais mulheres, inegavelmente no seu porte e vestir-se como ela, poucas ou quase nenhuma sabia. Quando vivia com o marido era verdade que este a presenteava de todas as maneiras cobrindo-a de ouro e de finas roupas. A inveja aliava-se, pois, à maledicência com a agravante de ser ainda uma das mais jovens mulheres.
O relato do Quitinho, seu primeiro amante e, logo depois o rapaz que lhe servira como motorista com ela teria mantido relações sexuais no caminho de Bonfim, fazia com que ela fosse encarada como infiel, e, por isso deveria pagar pelos pecados horríveis os quais consistiam em ter cedido na fraqueza do turbilhão da carne embrasada, especialmente para rapazes tão jovens.
Dispunha assim toda a sociedade aliada ao fato de ter sido infiel mesmo e ter sido esposa de um homem sério e trabalhador, porém acomodado, por todos os títulos. Sendo o seu marido homem benquisto, não era de surpreender aquelas damas demonstrando tanta ira contra ela. Alguém diria que Carminha havia decaído no caminho da avoenga mariposa dos lupanares, outros diziam que ela obedecera aos instintos desenfreados da carne que não liga para a sociedade. Mas quantas ali provavelmente não tiveram a oportunidade de se darem, ou quantas não cederam e, talvez, por sorte, nunca foram pegas ou descobertas? O pecado tornado público é o execrado por todos.
Ela teve a coragem e a ousadia de assumi-se e escolher seu fadário. E isto o fazia por convicção, daí instar às suas companheiras a se igualarem a qualquer mulher, casada ou não.
Iniciada a função lá estava toda a trupe se apresentando para o público. Palhaços, malabaristas, mulher- de -bigode, rumbeiras e todo o elenco. O palhaço Risonho, cara colorida, enorme bocarra, achegou-se ao meio do picadeiro, calças folgadas, sapatos de quase meio metro de comprimento a fazer gracejos. Carminha ria como toda criança no circo já que aliadulto se transmuda em criança!
Após o palhaço entra um casal de adivinhos de circo. O homem vestia impecável smoking aproximou-se de Carminha, tomou sua mão, retirou o anel de brilhantes e perguntou,de costas sentada no meio do picadeiro a adivinha, com uma venda preta sobre os olhos respondeu que era um anel, como vestida estava e em que fila da cadeira. O circo quase vem abaixo. A algazarra ensurdecedora escondia uma voraz crítica. Lá, da geral, alguém gritara: “É da puta do Quitinho”! Mas Carminha estoicamente resistiu. Não abaixou a cabeça, não ruborizou, recolocou o anel no dedo e, com as pernas magnificamente cruzadas permaneceu impassível.
Os trapezistas evoluam nas alturas e Carminha absorta, olhar grudado no trapézio. “Voador –de-ouro” dava saltos e fazia piruetas, saltos mortais no ar, desafiando a gravidade terminando sua apresentação, chegou-se até ela, retirou do bolso uma rosa amassada entregando-adizendo palavras ininteligíveis.
Um a um o elenco se apresentou chegando finalmente a derradeira e última apresentação da noite. Era o drama em três atos em que no primeiro seria retratada a vida normal quecasal da Idade Média , o segundo de como se apaixonara a mulher pelo empregado da casa e o terceiro a ocorrência da tragédia. O marido descobrira a infidelidade da esposa e resolve por fim à vida da infiel. Vende todos os bens, desterra os filhos para a casa da parentela enquanto no desespero da vergonha torna-se maltrapilho. A infiel não se incomodou continuando a vida nababa de devassidão com o seu novo amante até que o desfecho se faz com aquela punhalada em que deixava cair papel crepom picadinho, dando a impressão de sangue de verdade. A impassividade de Carminha era vista de longe por isso que, quando a mulher foi apunhalada na peça ela abaixou a cabeça enquanto dos seus negros olhos duas lágrimas rolaram grossas.
Evacuado o circo, finda a função, Carminha lá permaneceu. Dir-se-ia que ficara petrificada com a cena do assassinato e, ainda mais com a semelhança e identificação da sua própria história. As luzes se apagaram, todos se foram, menos Carminha.
No outro dia, entre sete e oito do dia, toda despenteada, as roupas amassadas, imensas olheiras diziam perfeitamente que Carminha não teve uma noite de bom sono.
Depois se soube.
Carminha no desvario da sua alma e sina havia seduzido o artista do circo que fazia o papel de empregado e conquistador da patroa na cena da peça e história.
Subiram as gerais, juntaram algumas tábuas que serviam de assento para os expectadores e fizeram amor até o dia raiar.
Carminha provava para o artista que a vida realmente imita a arte.
Amanhecera o ia, o sol brilhava por trás do cabeço do monte, não obstante o Buraco da Vitória deixasse uns restinhos de fina neblina embrumando a vegetação, dando um toque bem distante de paisagem européia.
Acorriam os mais católicos para o sopé do Morro do Cruzeiro, daí rumando em penosa e estafante subida até alcançar o cimo, aonde plantadas se encontram duas cruzes, restos e sinas da religiosidade da população, visita obrigatória de crentes e incrédulos, mais pelo fato de representar sua subida, ocasião impar para tomar alguns goles de cachaça safada, daquela que matou o guarda, baldeada pelo “seo” Joelzão[1]numa proporção gigantesca de água e outros químicos miseráveis, aumentando o desvario os bêbados e dos infelizes que se arriscavam a beber aquele purgante branco, puro álcool desdobrado.
Fato é quem cada um do adolescente ao velho, da mulher idosa à mocinha, ali todos se encontravam e se regalavam com uns golinhos da cachaça naquelas alturas se assemelhando a fino manjar rebatendo o calor e o aperto no peito pela subida íngreme de mais e 500 metros de pura ladeira cheia de pedregulhos.
Os pequenos grupos de mundanos não se misturavam com os penitentes de verdade que lá se iam a subir o monte da Santa Cruz, destacando-se os que criam, dos que em nada criam, senão pelo passeio e na crença inabalável nas sacanagens que a subida permitia aos mais safados e expertos.
Levavam ex-votos, fitinhas, palhas de licurizeiros amarradas nas cabeças e nos pulsos e, uma vez em cima, na frente do cruzeiro de tosca madeira, após acender velas variadas aos seus pés, amarravam de fitas e palhas de licuri em volta do madeirame, que simbolizava o sacrifício, para a cristandade e para aqueles pobres tabaréus de Itiúba.
De araque eram os visitantes. O que se pretendia mesmo, era só aproveitar os lapões e grotões de rara beleza que a sacanagem sem nexo e muito sexo, sem moral religiosa, preferia se acoitar nas oportunidades. Esgueirando-se por ente fendas fantásticas os mais jovens conseguiam descer para uma espécie de patamar, verdadeira furna alisada e fria pelo mijo dos mocós[2], pelas excrescências de morcegos, merda de calangos, coroços vomitados e cagados por raposas, guaxinins e sariguês.
O teto miraculosamente desafiador das leis da gravidade apresentava uma superfície quase completamente Isa que se ia estreitando paralela e perpendicular ao piso e teto, caprichosamente segura por cunhas feitas pela natureza num espetáculo de rara beleza, embora fugaz na sua extensão, caprichosamente deixada ali pela natureza inexplicável, possivelmente de um período terciário ou da circunvolução da terra, num processo de resfriamento ou de algum cataclismo eras idas.
Os mais velhos e antigos desde os tempos da Vila do São Gonçalo, não deixavam de se perder em elucubrações sobre homens que ali teriam vivido, de Índios Cariacás que a habitaram, nos famosos “causos” que a fantasia nossa não dispensa. Fato é que, para os contemporâneos, a Loca do Cruzeiro possuía alémda sua beleza, aprazível, recanto para tomar umas caninhas com as meninas, suspender as saias e vestidos selvagemente, à melhor oportunidade, começar uma libidinagenzinha que não raro levava muitos afoitos aos casamentos precoces.
O sol causticante queimava a pele da sertanejada. Era verdade que a Joaninha estava acostumada a namoricos, não sendo raro um dos garotos que já não tivesse tido a oportunidade de abraçar e apertar Joaninha,pois era das moças da região a mais “falada”[3] e “bassoura” das redondezas, sendo muito desejada não apenas por garotos que He bolinava as têtas duras e intumescidas da Joaninha, conhecida de velhos oitões, das festas de casamento uma vez que a meninada sabia que após as festas de largo, era só esperar Joaninha indo pra casa, que a malandraria já sabia que passado o reflexo dos becos e das ruelas, acabadas as lâmpadas da rua e sua luminosidade, algum rapaz a seguiria até encontrar o primeiro lugar mais escuro e, uma vez alcançada, o convite fatal e a sua aceitação eram favas contadas.
Não foram poucas as vezes em que Joaninha se envolvera com a rapaziada, tendo vezes em que ela era ao mesmo tempo acariciada e abraçada de mi maneiras. Nessas ocasiões juntavam-se vários garotos e faziam tudo quanto era desgraça com a pobre da Joaninha que, estoicamente suportava aquela cambada de safados que lhes enfiavam dedos, apalpavam-lhe o monte de Vênus, introduzam dedos até os grandes lábios e até o ânus, local a preferência da cambada que afinal pertence à Nacionalidade Brasileira. Tirando essas libidinagenzinhas, de chupar e mordiscar os peitinhos da Joaninha, só tinha mesmo era “infinca-pé” da cambada nos oitões das casas onde se realizavam alguma festa, no escurinho especialmente se a festa ou festas realizavam-se em algum casebre da zona rural.
Os pais não deixavam as filhas andassem com a Joaninha porque a cambada que dela se servia espalhava maledicentemente nas redondezas, as misérias com a Joaninha feitas, mas o certo é que ninguém havia ainda bebido, de verdade, do poço de prazer da Joaninha. Naquele túnel que ficaria famoso por várias gerações de calças curtas não havia sentido nada, senão meras e inocentes dedadas que a corja tola da rapaziada inocente se aventurava, muitos capões [4] de “gala rala” que se assombrava e até corriam, mas sonhavam em ter uma mulher de verdade ou mesmo terem de enfrentarem o puteiro do Beco-do-quebra-faca nos concorridos finais de semana, afugentados por bêbados e valentões que faziam as histórias da região e fazia moleque covarde mijar nas calças e não mais importunavam as mulheres do puteiro.Na verdade, a meninada acabava mesmo era na masturbação nossa de cada dia.
Verdadeiro flagelo, que no dizer e no pensamento da rapaziada a “bronha” ou a “punheta[5]” representava o desafogo salvador, havendo punheteiros impenitentesdecididamente acostumados à prática até a exaustão.Joaninha se tornara a virgem mais louca deste mundo, desde os seus treze aninhos, muito chegada as carícias e às delícias da moçada, sem, contudo, ter sido possuída por ninguémvez que não se permitia ir até as últimas consequencias.Tinha um limite.
Acostumada a roçar membros nas pernas e coxas, Joaninha cavalgava como poucas, porém nada de “nudo[6] com nudo”, muito menos penetração peniana, fazendo a exigência de ter de ser mito rápido, pois achava arriscado fazer filho e, sem tirar a calcinha, caso contrário teria de casar. Preventiva a moça. Reconhecia na sua promiscuidade que não tinha senão o desejo de sentir-se feliz e aliviada, assim praticando suas aventuras sexuais, igualmente porque estava convencida de que era “gostosa” e não podia deixar seus namorados sem se satisfazerem. O diabo era descobrir quais namorados, isto porque, Joaninha, Godiva dos trópicos necessitava de um batalhão inteiro para satisfazer os seus prazeres deixando os rapazes todos loucos, porém sem permitir que enfiassem nela, senão dedos e mais nada. Na hora da verdade ela afastava o cabra com um safanão, saía loucamente e desabrida carreira, ajeitando califon, calçola mal vestida e puxando o vestido para o lugar correto.
Desde os treze anos a gata desejada e perseguida por efebos e também por cidadãos circunspectos e velhos pais de família, acima de qualquer suspeita, porque queriam por que queriam, enrabar aquela bichinha, sentir a pobrezinha se estrebuchar dando adeus ao cabaço, tão tocado e de tantos bons serviços prestados na região.
Joaninha subira o Cruzeiro
Por trás das pedras alguns rapazes olhavam entre curiosos e voluptuosos, casais escapados da multidão, burlando parentes e responsáveis, buscavam aqueles plagos para os acasalamentos tão condenados pela igreja católica que, no entanto não conseguia refrear nem frear o ímpeto os sexos em brasa embalados pelas doses de cachaça tapa-de-capuco do “seo’ Joel Grande. Muitos acusavam a cachaça dele como se fosse a culpada daquilo tudo, eis que sob os efeitos da cachacinha que “matou o guarda” a cambada descia para o frenesi incontrolável dos corpos em ardências dos sentimentos, especialmente naquela época de tabus e dogmas proibidos, criados por cada família, sendo o ato sexual verdadeira peripécia, sendo seu autor, não raro, observado e ovacionado como se fosse um animal raro, ato heróico que era o sexual.
Joaninha Pelelê, encarnação da mulher que nascera para ser puta na extensão da palavra, por isso desde os seus primeiros anos de moiçola, quando já trouxera da Fazenda Grotão onde nascera e se criara, a marca que a acompanhara até os seus dias de borboleta dos bordeis miseráveis, de Queimadas a Itiúba; de Itiúba a Senhor do Bonfim; de Picos ao Quicé e de Camandaroba ao Cansanção.
Naquela sexta-fera santa um grupo de rapazes olhava o Chico Perninha, malandro, caboclo fogoso e conquistador apalpando por trás do vestido, derreados sobre aquelas pedras a bunda pequena e farta de Joaninha. Mordiscava os lábios carnudos, pintados em tom vermelho super forte, enquanto uma das mãos louca bailava ao redor dos seios intumescidos da mulher de pouco mais de dezenove anos de idade, com toda a voluptuosidade dos corpos em brasa rolando sobre as pedras lisas e frias daquela furna do Cruzeiro.
Olhos fitos, a molecada pregada naquele casal, assistia espetáculo de rara beleza em que os corpos se desnudavam lentamente, milímetro a milímetro, Joaninha se esforçando para não ceder ou pelo menos fazer de contas, embora querendo que tudo acontecesse. Chico malandro sem pressas, pressionando a fêmea, narinas dilatadas, ancas da Joaninha já à mostra, a bundinha virgem ou semi virgem começando a aparecer, as roliças e esguias pernas a deixar uma nesga da calçola (assim se chamava a roupa íntima da mulher), enquanto a polpa carnuda da bunda da Joaninha aparecia escondendo a borda da perna da calçola, afetada a elasticidade nas dobras da pele, Chico safado resfolegando numa linguagem de amante, instando a moça para a cópula, mil promessas de casamento, de comprar aquela casa bonita e botar ela como sua empregada.
Num gesto mais brusco, o homem consegue desafivelar o cinturão grosso de couro cru e os botões da calça (barriguilha) saltam, e o Chico com as narinas dilatadas, roçando contra Joaninha que já estava com o vestido chitado de bolinhas vermelhas e cavalinhos suspenso até a altura dos peitos, avidamente a anágua dura e engomada, de fustão branco com rendinhas cor de rosa estava sendo arrancado pelos pés de Joaninha que vendo e sentindo seu corpo colado ao do Chico, não mais escoiceava nem se debatia ante os arroubos do garanhão fogoso, sendo e estando absolutamente cúmplice, aquela altura, fogosa donzela, fêmea em desalinho para a posse do macho louco e urrante, apagaram-se as conveniências sociais que caíam por terra, dando lugar somente ao desejo ardente e a busca do prazer que era mais importante, embotando qualquer sentimento de rejeição, sem ao menos pensar no que viria depois, saciada da sede de sexo .
Latejante aquele caboclo aprumou o membro, procurou virar a mulher que se abria toda, forçou o busto e dirigiu por entre as pernas da morena Joaninha. Estática sem mais oferecer resistência, cedera. Olhos cerrados, pernas semi dobradas, braços languidamente jogados sobre as pedras que lhes serviam de leito, enquanto o macho cioso ajeitava com a mão o ereto membro dirigindo com o indicador a entrada do túnel de prazer da Joaninha, desvirginando-a.
Olhares de tristeza e decepção perpassaram pela molecada que aprendeu como tratar uma mulher. Naquele dia, frustrados e sem comentários a molecada desprezada pela Joaninha desceria do Alto do Cruzeiro. Joaninha decaíra das alegrias deles.
***
Itiúba, 1971
JOANINHA E A SEXTA-FEIRA SANTA.
Amanhecera o ia, o sol brilhava por trás do cabeço do monte, não obstante o Buraco da Vitória deixasse uns restinhos de fina neblina embrumando a vegetação, dando um toque bem distante de paisagem européia.
Acorriam os mais católicos para o sopé do Morro do Cruzeiro, daí rumando em penosa e estafante subida até alcançar o cimo, aonde plantadas se encontram duas cruzes, restos e sinas da religiosidade da população, visita obrigatória de crentes e incrédulos, mais pelo fato de representar sua subida, ocasião impar para tomar alguns goles de cachaça safada, daquela que matou o guarda, baldeada pelo “seo” Joelzão[7]numa proporção gigantesca de água e outros químicos miseráveis, aumentando o desvario os bêbados e dos infelizes que se arriscavam a beber aquele purgante branco, puro álcool desdobrado.
Fato é quem cada um do adolescente ao velho, da mulher idosa à mocinha, ali todos se encontravam e se regalavam com uns golinhos da cachaça naquelas alturas se assemelhando a fino manjar rebatendo o calor e o aperto no peito pela subida íngreme de mais e 500 metros de pura ladeira cheia de pedregulhos.
Os pequenos grupos de mundanos não se misturavam com os penitentes de verdade que lá se iam a subir o monte da Santa Cruz, destacando-se os que criam, dos que em nada criam, senão pelo passeio e na crença inabalável nas sacanagens que a subida permitia aos mais safados e expertos.
Levavam ex-votos, fitinhas, palhas de licurizeiros amarradas nas cabeças e nos pulsos e, uma vez em cima, na frente do cruzeiro de tosca madeira, após acender velas variadas aos seus pés, amarravam de fitas e palhas de licuri em volta do madeirame, que simbolizava o sacrifício, para a cristandade e para aqueles pobres tabaréus de Itiúba.
De araque eram os visitantes. O que se pretendia mesmo, era só aproveitar os lapões e grotões de rara beleza que a sacanagem sem nexo e muito sexo, sem moral religiosa, preferia se acoitar nas oportunidades. Esgueirando-se por ente fendas fantásticas os mais jovens conseguiam descer para uma espécie de patamar, verdadeira furna alisada e fria pelo mijo dos mocós[8], pelas excrescências de morcegos, merda de calangos, coroços vomitados e cagados por raposas, guaxinins e sariguês.
O teto miraculosamente desafiador das leis da gravidade apresentava uma superfície quase completamente Isa que se ia estreitando paralela e perpendicular ao piso e teto, caprichosamente segura por cunhas feitas pela natureza num espetáculo de rara beleza, embora fugaz na sua extensão, caprichosamente deixada ali pela natureza inexplicável, possivelmente de um período terciário ou da circunvolução da terra, num processo de resfriamento ou de algum cataclismo eras idas.
Os mais velhos e antigos desde os tempos da Vila do São Gonçalo, não deixavam de se perder em elucubrações sobre homens que ali teriam vivido, de Índios Cariacás que a habitaram, nos famosos “causos” que a fantasia nossa não dispensa. Fato é que, para os contemporâneos, a Loca do Cruzeiro possuía alémda sua beleza, aprazível, recanto para tomar umas caninhas com as meninas, suspender as saias e vestidos selvagemente, à melhor oportunidade, começar uma libidinagenzinha que não raro levava muitos afoitos aos casamentos precoces.
O sol causticante queimava a pele da sertanejada. Era verdade que a Joaninha estava acostumada a namoricos, não sendo raro um dos garotos que já não tivesse tido a oportunidade de abraçar e apertar Joaninha,pois era das moças da região a mais “falada”[9] e “bassoura” das redondezas, sendo muito desejada não apenas por garotos que He bolinava as têtas duras e intumescidas da Joaninha, conhecida de velhos oitões, das festas de casamento uma vez que a meninada sabia que após as festas de largo, era só esperar Joaninha indo pra casa, que a malandraria já sabia que passado o reflexo dos becos e das ruelas, acabadas as lâmpadas da rua e sua luminosidade, algum rapaz a seguiria até encontrar o primeiro lugar mais escuro e, uma vez alcançada, o convite fatal e a sua aceitação eram favas contadas.
Não foram poucas as vezes em que Joaninha se envolvera com a rapaziada, tendo vezes em que ela era ao mesmo tempo acariciada e abraçada de mi maneiras. Nessas ocasiões juntavam-se vários garotos e faziam tudo quanto era desgraça com a pobre da Joaninha que, estoicamente suportava aquela cambada de safados que lhes enfiavam dedos, apalpavam-lhe o monte de Vênus, introduzam dedos até os grandes lábios e até o ânus, local a preferência da cambada que afinal pertence à Nacionalidade Brasileira. Tirando essas libidinagenzinhas, de chupar e mordiscar os peitinhos da Joaninha, só tinha mesmo era “infinca-pé” da cambada nos oitões das casas onde se realizavam alguma festa, no escurinho especialmente se a festa ou festas realizavam-se em algum casebre da zona rural.
Os pais não deixavam as filhas andassem com a Joaninha porque a cambada que dela se servia espalhava maledicentemente nas redondezas, as misérias com a Joaninha feitas, mas o certo é que ninguém havia ainda bebido, de verdade, do poço de prazer da Joaninha. Naquele túnel que ficaria famoso por várias gerações de calças curtas não havia sentido nada, senão meras e inocentes dedadas que a corja tola da rapaziada inocente se aventurava, muitos capões [10] de “gala rala” que se assombrava e até corriam, mas sonhavam em ter uma mulher de verdade ou mesmo terem de enfrentarem o puteiro do Beco-do-quebra-faca nos concorridos finais de semana, afugentados por bêbados e valentões que faziam as histórias da região e fazia moleque covarde mijar nas calças e não mais importunavam as mulheres do puteiro.Na verdade, a meninada acabava mesmo era na masturbação nossa de cada dia.
Verdadeiro flagelo, que no dizer e no pensamento da rapaziada a “bronha” ou a “punheta[11]” representava o desafogo salvador, havendo punheteiros impenitentesdecididamente acostumados à prática até a exaustão.Joaninha se tornara a virgem mais louca deste mundo, desde os seus treze aninhos, muito chegada as carícias e às delícias da moçada, sem, contudo, ter sido possuída por ninguémvez que não se permitia ir até as últimas consequencias.Tinha um limite.
Acostumada a roçar membros nas pernas e coxas, Joaninha cavalgava como poucas, porém nada de “nudo[12] com nudo”, muito menos penetração peniana, fazendo a exigência de ter de ser mito rápido, pois achava arriscado fazer filho e, sem tirar a calcinha, caso contrário teria de casar. Preventiva a moça. Reconhecia na sua promiscuidade que não tinha senão o desejo de sentir-se feliz e aliviada, assim praticando suas aventuras sexuais, igualmente porque estava convencida de que era “gostosa” e não podia deixar seus namorados sem se satisfazerem. O diabo era descobrir quais namorados, isto porque, Joaninha, Godiva dos trópicos necessitava de um batalhão inteiro para satisfazer os seus prazeres deixando os rapazes todos loucos, porém sem permitir que enfiassem nela, senão dedos e mais nada. Na hora da verdade ela afastava o cabra com um safanão, saía loucamente e desabrida carreira, ajeitando califon, calçola mal vestida e puxando o vestido para o lugar correto.
Desde os treze anos a gata desejada e perseguida por efebos e também por cidadãos circunspectos e velhos pais de família, acima de qualquer suspeita, porque queriam por que queriam, enrabar aquela bichinha, sentir a pobrezinha se estrebuchar dando adeus ao cabaço, tão tocado e de tantos bons serviços prestados na região.
Joaninha subira o Cruzeiro
Por trás das pedras alguns rapazes olhavam entre curiosos e voluptuosos, casais escapados da multidão, burlando parentes e responsáveis, buscavam aqueles plagos para os acasalamentos tão condenados pela igreja católica que, no entanto não conseguia refrear nem frear o ímpeto os sexos em brasa embalados pelas doses de cachaça tapa-de-capuco do “seo’ Joel Grande. Muitos acusavam a cachaça dele como se fosse a culpada daquilo tudo, eis que sob os efeitos da cachacinha que “matou o guarda” a cambada descia para o frenesi incontrolável dos corpos em ardências dos sentimentos, especialmente naquela época de tabus e dogmas proibidos, criados por cada família, sendo o ato sexual verdadeira peripécia, sendo seu autor, não raro, observado e ovacionado como se fosse um animal raro, ato heróico que era o sexual.
Joaninha Pelelê, encarnação da mulher que nascera para ser puta na extensão da palavra, por isso desde os seus primeiros anos de moiçola, quando já trouxera da Fazenda Grotão onde nascera e se criara, a marca que a acompanhara até os seus dias de borboleta dos bordeis miseráveis, de Queimadas a Itiúba; de Itiúba a Senhor do Bonfim; de Picos ao Quicé e de Camandaroba ao Cansanção.
Naquela sexta-fera santa um grupo de rapazes olhava o Chico Perninha, malandro, caboclo fogoso e conquistador apalpando por trás do vestido, derreados sobre aquelas pedras a bunda pequena e farta de Joaninha. Mordiscava os lábios carnudos, pintados em tom vermelho super forte, enquanto uma das mãos louca bailava ao redor dos seios intumescidos da mulher de pouco mais de dezenove anos de idade, com toda a voluptuosidade dos corpos em brasa rolando sobre as pedras lisas e frias daquela furna do Cruzeiro.
Olhos fitos, a molecada pregada naquele casal, assistia espetáculo de rara beleza em que os corpos se desnudavam lentamente, milímetro a milímetro, Joaninha se esforçando para não ceder ou pelo menos fazer de contas, embora querendo que tudo acontecesse. Chico malandro sem pressas, pressionando a fêmea, narinas dilatadas, ancas da Joaninha já à mostra, a bundinha virgem ou semi virgem começando a aparecer, as roliças e esguias pernas a deixar uma nesga da calçola (assim se chamava a roupa íntima da mulher), enquanto a polpa carnuda da bunda da Joaninha aparecia escondendo a borda da perna da calçola, afetada a elasticidade nas dobras da pele, Chico safado resfolegando numa linguagem de amante, instando a moça para a cópula, mil promessas de casamento, de comprar aquela casa bonita e botar ela como sua empregada.
Num gesto mais brusco, o homem consegue desafivelar o cinturão grosso de couro cru e os botões da calça (barriguilha) saltam, e o Chico com as narinas dilatadas, roçando contra Joaninha que já estava com o vestido chitado de bolinhas vermelhas e cavalinhos suspenso até a altura dos peitos, avidamente a anágua dura e engomada, de fustão branco com rendinhas cor de rosa estava sendo arrancado pelos pés de Joaninha que vendo e sentindo seu corpo colado ao do Chico, não mais escoiceava nem se debatia ante os arroubos do garanhão fogoso, sendo e estando absolutamente cúmplice, aquela altura, fogosa donzela, fêmea em desalinho para a posse do macho louco e urrante, apagaram-se as conveniências sociais que caíam por terra, dando lugar somente ao desejo ardente e a busca do prazer que era mais importante, embotando qualquer sentimento de rejeição, sem ao menos pensar no que viria depois, saciada da sede de sexo .
Latejante aquele caboclo aprumou o membro, procurou virar a mulher que se abria toda, forçou o busto e dirigiu por entre as pernas da morena Joaninha. Estática sem mais oferecer resistência, cedera. Olhos cerrados, pernas semi dobradas, braços languidamente jogados sobre as pedras que lhes serviam de leito, enquanto o macho cioso ajeitava com a mão o ereto membro dirigindo com o indicador a entrada do túnel de prazer da Joaninha, desvirginando-a.
Olhares de tristeza e decepção perpassaram pela molecada que aprendeu como tratar uma mulher. Naquele dia, frustrados e sem comentários a molecada desprezada pela Joaninha desceria do Alto do Cruzeiro. Joaninha decaíra das alegrias deles.
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Itiúba, 1971
[1] - Todos os nomes e referencias aqui feitas, são fictícios para evitar quaisquer constrangimentos com os personagens que são reais. Qualquer semelhança com pessoas ou lugares,acaso identificados, trata-se eé, mera coincidência. (N. do Autor).
[2] -“Mocó” é uma espécie de roedor muito abundante nos sertões e que fazem abrigos nas pedreiras, semelhante a um preá (porquinho da Índia. (N. do Autor).
[3] - Por “moça falada”, nos sertões indica mulher de pouca boa fama ou de nenhuma boa fama, açulada, afoita e sem normas sociais a obedecer. (N. do Autor).
[4] - Por” capões”, nos sertões, são conhecidos os rapazes que nunca tiveram relações sexuais. (N. do Autor).
[5] - Os termos indicam o ato da masturbação masculina. O termo “punheta” vem do uso dos punhos, daí o significado. (Nota do Autor)
[6] - a expressão nudo com nudo quer dizer, com nudez de ambos os parceiros. (N. do Autor)
[7] - Todos os nomes e referencias aqui feitas, são fictícios para evitar quaisquer constrangimentos com os personagens que são reais. Qualquer semelhança com pessoas ou lugares,acaso identificados, trata-se eé, mera coincidência. (N. do Autor).
[8] -“Mocó” é uma espécie de roedor muito abundante nos sertões e que fazem abrigos nas pedreiras, semelhante a um preá (porquinho da Índia. (N. do Autor).
[9] - Por “moça falada”, nos sertões indica mulher de pouca boa fama ou de nenhuma boa fama, açulada, afoita e sem normas sociais a obedecer. (N. do Autor).
[10] - Por” capões”, nos sertões, são conhecidos os rapazes que nunca tiveram relações sexuais. (N. do Autor).
[11] - Os termos indicam o ato da masturbação masculina. O termo “punheta” vem do uso dos punhos, daí o significado. (Nota do Autor)
[12] - a expressão nudo com nudo quer dizer, com nudez de ambos os parceiros. (N. do Autor)