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segunda-feira, 20 de junho de 2011

CARMINHA VAI À ZONA

Os puteiros mau iluminados da Cacimba Funda, subindo pelo Alto do Calumbi e alcançando o Beco-do-quebra-faca viveriam naquela sábado de aleluia um dos momentos mais críticos e incríveis. Os bêbados parariam por momentos, a cachaça não desceria a glote, o engasgo seria fatídico e as putas não receberiam nenhum homem “pro durante menos de uma hora”. A notícia espalhara-se como se fogo de rastilho queimando pólvora e, um barril de maledicência rolaria de ponta a ponta, de casa em casa, de leito em leito, de família em família.

Os malandros agora já podiam disputar quem teria o privilégio de usufruir, como felizardo, de “traçar” dona Carminha. Estivera ela de passagem por sua vida de mulher casada, mas agora, pelo visto, resolvera soltar sua vocação reprimida, Semana passada fora vista em alguns bares bebendo cervejas e doses de conhaque de alcatrão de São João da Barra, coisa que causava espécie a qualquer mulher do seu tempo que entrasse em bares de qualquer cidadão e fizesse uso de bebidas.


No Alto do Calumbi, Maria Costeleta, famosa mulher de vida boêmia estranhara que naquele sábado de aleluia os patifes não apareciam na sua casa para a fornicação de todos os fins de semana, quando padeiros, vaqueiros, cachaceiros e viajantes, além de empregados do comércio que lá compareciam para usufruir, em filas bem comportadas sua vez de “enfiar bronca” na mulherada. Faziam-se filas para ver quem voltaria para casa após receber um pouco do “carisma” da meretriz. Algo estava errado, pois já passava das nove da noite e ninguém aparecia. Botando a cabeça fora da janela sua vizinha e companheira, lá estava sob a réstia do bibiano, de nome Donízia, braços cruzados apoiados na janela, olhar perdido e vago na imensidão da escuridão do pouco habitado Calumbi.


Maria Costeleta por sua vez saindo à janela foi interrogada por Dionízia sobre as razões de tanta ausência de “fregueses” naquela note.


Lelé estava no mesmo dia com sua casa vazia. Lamentava para Dionízia a situação, todas achando estranha tamanha situação, resolvendo mandar um seu filho menor de idade dar uma volta de bicicleta pela Cacimba Funda para que pudesse olhar de longe as casas. O menino corre de casa em casa, bordel em bordel e não avista movimento algum, retornando para dar a notícia para a mãe e a Dionízia.


A coisa era mais embaixo. Dazio não aparecera para beber cachaça nem descobrir alguma nova mulher que lhe aguntasse com a sua “estupidez humana”, comprazendo em desafiar aquelas infelizes ara fazer sexo e receber “tudo”.Homem extremamente bem dotado fisicamente, com um pênis que se dizia de fazer inveja às raças cavalares, era o terror e a inveja de muitos que acreditava que as mulheres só sentiam prazer com as dimensões descomunais dos seus membros. Poucos se importavam com o prazer, contanto que tivessem membros avantajados.


É verdade que as mulheres que serviam para as suas satisfações, eram, na sua exclusiva maioria, ninfomaníacas e anormais, mulheres chamadas de “vida fácil, as ditas meretrizes que haviam sofrido todos os tipos de sofrimentos, havendo até mesmo aquelas que se exercitavam e possuíam, também , a fama de serem as únicas que transavam com o Dazio. Bem verdade as que com ele transavam tinham sido vítimas de soldados e prisões onde, por motivos de prostituição em outras cidades, sofriam as mais sérias perversões, sendo nelas introduzidos porretes, cassetetes de borracha, mormente naquelas cidades aonde as meretrizes ficavam na zona central das cidades, transformadas em vítimas de chefes políticos que no afã de afastá-las mandavam e ordenavam que se fizessem toda sorte de barbaridades contra as infelizes.


Eram normais como qualquer mulher, mas poderiam suportar qualquer homem e terem prazer mais que, num sadomasoquismo infernal, recebendo a cada prisão cassetetes de borracha empurrados em suas vaginas que iam alargando membros e tendões. Terminando por criar verdadeiras aberrações de natureza sexual, havendo até mesmo aquelas que preferiam sair da cidade em cidade fazendo apostas, a desafiar homens avantajados para poderem ganhar polpudas quantias, senão teriam, a falta destes, de contentarem-se em comprar nas farmácias, muita pedra ume preparando banhos, forçando a que as paredes da vagina recolhessem, tornando-se espécies de semi virgens, mas falsas, para os apetites sexuais e os prazeres luxurientos da freguesia.


Era pois o Dazio um desses seres famosos e respeitados pelos seus dotes “cavalares” côo então se dizia, rapaz humilde, carregador de caminhões nas horas em que estava de folga, aqui entendido quando não estava bebendo nos puteiros da cidade.


Lelé não estava acreditando; Dionízia estava incrédula; o filho de Lelé não estava mentindo nem Maria Costeleta não estava doida, a coisa transcorria toda no Beco-do-quebra-faca tradicional zona de prostituição onde “seo” Pompílio alugava a maioria das casas para as putas fazerem as delícias da clientela.


Desnecessário dizer que naqueles dias não se tinha essas histórias de amor livre, noivo só tocava na “xeca” da noiva no dia do casamento e após, namorado quando cheirava a “bichinha” tinha que correr no outro dia para a casa dos pais da engraçada moça e dizer que queria casar com pressa, no fim do mês, porque queria r para São Paulo, de sorte que ninguém podia botar uma barriguinha com a filha do fulano, senão a coisa tomava rumos imprevisíveis, ou melhor previsível, do casamento ou da castração.


Tornaram-se pois os puteiros lugares naturais onde a rapaziada ia esquentar o “ferro”, transar com a mulherada transformando aqueles lugares movimentados e concorridos.Mas lá para as bandas do Beco –do- quebra- faca havia um imenso burburinho só, todas as putas em polvorosa enquanto os homens paravam em bochichos. Escurinho do Grotão, cabra valente e respeitado boêmio da zona com seu facão dezoito polegadas enfiado por dentro das calças folgadas de brim comprado na loja do “seo” augusto Moura, naquela noite filosofava enquanto descansava o largo cotovelo esquerdo sobre o balcão da casa de Joaninha Pelelê, dizendo para seus companheiros de farra, especialmente Dandu Cachacinha que “quem nasceu pra cavalo de carga, não podia ser esquipador”, entre sorvos de cachaça, álcool desdobrado com água do “seo” Joel Grande da rua dos Aristas, a famosa cachaça “mata guarda” ou “tampa de capuco”. Assim o burburinho ia escorregando, os chistes maldosos desciam até às pedras cabeça- de- nêgo, tomando rumo da Cacimba Funda, levantando quem já estava deitado, e, acordando quem já dormia, para acorrer ao Beco-do-quebra-faca para ver a novidade que os incrédulos não queriam acreditar ou simplesmente desejavam tão somente constatar quais Tomés da vida moderna.


O desvario social que costuma envolver as pessoas, não fala apenas e tão apenas, a mera solidariedade. O interesse mórbido das situações provoca a neurose latente nas pessoas em sociedade indo além da simples curiosidade. Antes, as massas ignaras buscam apenas a veracidade, constatando apenas para que seus olhos curiosos, possam comprazer com as misérias, tirando motivos desses fatos e vangloriando-se como vingança.


De repente, parada, estática e com uma garrafa de jurubeba Leão do Norte na mão, lá estava Maria-do-Ló na esquina a oferecer aos homens goles gratuitos, apregoando que assim estava procedendo porque naquela noite, toda especial, o Beco assistiria um espetáculo de rara oportunidade e que uma madame ia deixar a rua de casa e ouro para se tornar uma “puta”. A meretriz alegrava-se em sabe que dentro em breve, igualzinho a elas, uma senhora estaria vendendo o corpo e experimentando, no seu linguajar chulo, os sofrimentos que as mulheres de vida livre e fácil experimentam no seu dia a dia.


Todos já sabiam que a rua seria um silencio só e que os olhares estariam todos pregados sobre um casal ou uma pessoa só, embora a aura de mistério perpassasse em todos, entre estupefatos e incrédulos, entre crédulos e ciosos da verdade.


Ouviu-e um grito quase em uníssono. Chegaria ali uma mulher que a vulgaridade do ambiente proclamava uma linda mulher milionária que tinha deixado de ser casada e respeitada ara ser uma mulher dama,de vida fácil. A voz geral chamava e convocava aquelas almas do desespero, para que assistissem o espetáculo que não seria esquecido por longos anos.


Instante a instante alguém botava a cara na porta como se conferisse se já estava chegando. De repente, Macambira dá o alarma cheio de alegria e contentamento. Na penumbra do beco escuro e mau iluminado, uma sombra desenhou no que restava de visão indo bater diretamente na casa de comércio da esquina, de Pedro do Cansanção. Ao longe não dava para identificar nem de quem se tratava. Ao seu lado, cadenciado, caminhava um garoto de pouco mais de dezoito anos. O casal adentrou ao Beco-do-quebra-faca, andando sempre pelo meio do calçamento, a mulher de cabeça baixa conversava alto sobre os motivos e o rapazinho foi se chegando para o boteco da Isaura, antes passando pelo boteco da mãe do Mudo, e entraram.


Alguns sentados no ambiente sem iluminação ficaram estáticos e outros, perplexos. Ali estavam homens e mulheres que aguardavam pressurosos os acontecimentos.


_Isaura, me dá dois conhaques de alcatrão de são João pingado e com limão. Disse Carminha.


A velha meretriz apanhou o candeeiro e aproximou junto do casal parado ao pé do balcão, voltou as costas para o casal retornando com dois pequenos copos de vidro ensebados, sujos e fedendo a cachaça. Ao levantar as vistas amiudadas para o casal seus olhos pareciam não querer acreditar. Muda parada, cheia de vergonhas, pouco a vontade naquele ambiente a mulher não ousava olhar para os circunstantes e comprimia-se na sua prova de fogo. A luz da candeia soprada pelo vento que entrava pela porta do puteiro bateu na tez alva e bem cuidada da mulher.


Amiudou os olhos novamente a velha Isaura. No refletido dos olhos negros da mulher, a luz baça e rubra do candeeiro fifó, revelou para todos, uns olhos tímidos e ainda bonitos de D. Carminha.


Carminha já estava na zona.


****



Max B. Cirne Fevereiro, Itiúba, 1970.



1- Por “bibiano” entende-se uma espécie de lamparina muito usada nos sertões, alimentada a querosene, de luz avermelhada, em substituição a energia hidráulica, ainda não chegada na cidade. (N. do Autor).



2 - O autor faz referencia a diversos sinônimos como ainda hoje são denominadas as cachaças ordinárias que se vendem nos sertões, e eram engarrafadas na cidade. (N. do Autor).

UM MAESTRO DA PESADA



Clarindinho subindo a ladeira da pequena rua estava visivelmente embriagado. Na proporção do seu caminhar bamboleante, dava dois passos para a frente, e dois para trás, como se a desafiar a lei da gravidade na comicidade que termina por transformar as criaturas alcoolizadas. Chorava e falava sozinho, pouco importando as pessoas, essas já acostumadas àquela situação do Clarindinho.
Pai de família, não fosse a cachaça que entornava a qualquer dia da semana, poder-se-ia dizer, exempla. Homem pobre, não bastante a cachaçada sua família era tratada com muito carinho e seriedade e, pelo fato de ser um “bom copo”, no dizer da galera um bebedor inveterado, não deixava de prover as necessidades. Dava-se o caso que já com o sangue acumulado com álcool, não bebia tanto em quantidade quanto em qualidade, mas apenas tomava “duas doses de nada”e o pobre já estava pra lá de marrraqueche, reacendia naquele bom homem o fogo dos seus idos anos quando conquistou uma bela mulher, formando um feliz casamento, embora a pobreza lhe fosse a madrasta da vida.
Formara com a mulher uma linda prole de rapazes e moças bonitos, colocara todos na escola para os estudos, mas não chegaram nem mesmo a terminar o primário, alguns casando, outros arranjando filhos espúrios, e tornando-o um avô precoce.
Não foi, pois, a cachaça, dir-se-ia um pai exemplar, não que a bebedice não possa impedir de ser um pai carinhoso, tal o caso do nosso personagem, mas porque dava sua bebedeira, exemplo não muito apreciado para os filhos. Embora discutível Clarindinho não deixava a família passar fome acorrendo às outras necessidades, arrancando do seu trabalho humilde o pão e o sustento familiar.
Bem verdade que neste mundo todos bebem suas “cruacas” pouco importando a condição social e moral. Via sempre os ricos bebendo uísque importado, com pedrinhas de gelo, e via que muitos engoliam litros e mais litros, e ele aí na sua cachaça de álcool desdobrado. Outros já menos afortunados, tal o caso do Clarindinho, bebiam garrafas e mais garrafas de cervejas e, por que então, logo ele não haveria de sentir a garganta coçando e ardendo à passagem da cachacinha malvada de todo dia?Se bebia era porque gostava e, ademais, não era ele maior, casado, eleitor, brasileiro e vacinado? Pois, pois.
Como a bebedeira fazia-o caminhar em ziguezague, também possuía uma característica que era a de chorar como uma criança tomada sua guloseima, tornando-se um sufoco no outro dia quando passava em direção ao trabalho. Cabeça baixa, olhar pregado no chão, não suspendia a vista nem a cabeça virava para ninguém, não dava um bom dia, nem desgrudava as vistas do caminho. Talvez se mostrasse arrependido e envergonhado do papelão do dia anterior. Envergonhado o dia seguinte, cara limpa, não ousava encarar as pessoas. Mas, logo ao meio-dia ou à tardinha, tudo se repetia com o Clarindinho subindo o caminho que dava para a sua casa, três passos pra frente, dois passos para trás, dois para os lados e outros para acertar o caminho. Três pra frente e dois para os lados no seu caminhar cômico e muito tropecento, sem ranços de valentes de cachaça, ou em ranços incômodos. Não soltava nem dava palavrões nem desrespeitava famílias. Quando muito, um comentário dos seus vizinhos que reconheçam nele um homem extremamente sério, não tendo notícia de ter comprado fiado e não ter honrado com o pagamento. Sua cachacinha bem comportada, sem brigas e sem palavrões, se dava mesmo era no pé dos balcões, acostumado a abrir os dentes em risadas desconexas pelos efeitos etílicos.
Na pracinha da cidade armavam-se barraquinhas de quermesse, feitas de folhas de cariris, enquanto a moçada organizada recolha fundos, numa tentativa da igreja angariar fundos que serviriam para custear obras do templo ou até mesmo para a manutenção do pároco. Oito de dezembro marcava a data da padroeira da cidade. Lá no meio da pracinha um coreto bem ornamentado e, em cima dele, na a imponência das suas fardas, a Filarmônica da Polícia Militar de Juazeiro que vinha todos os anos tocar retretas e dobrados, tornava a festa mais bela, animada e concorrida.
A pracinha toda engalanada como só antigamente se viam essas coisas, recebia o capricho da carolada que se desvanecia em preparos e arranjos na festa do largo, ocasião em que, vez ou outra ocorria o baile, também na sociedade 2 de Julho, clube recreativo do escol da cidadezinha apagada e triste.
Naquele dia algo novo marcaria para sempre todos os habitantes da cidade. O tenente-maestro da banda tinha ido almoçar na casa de “seo” Batista, amigo muito chegado e compadre de Clarindinho, que afinal não era ele um desarvorado de amigos deste mundo. Batista, cujo convite soara com muita alegria, lá estava o tenente maestro na sua vistosa e impecável farda a entabular conversa. Logo mais, às vinte horas, a banda teria de começar a tocar músicas do repertório variado embelezando, alegrando e animando aquela gente. Após o almoço o maestro teve um leito oferecido pelo anfitrião sendo de pronto aceito pelo bom maestro que caiu pesadamente sobre, adormecendo o sono dos justos, sem pesadelos ou sustos.
Clarindinho que gozava da intimidade da casa de Batista, seu compadre, chegara mais ou menos às dezoito horas para uma visita ligeira, aproveitando a ocasião tomaria sua cachacinha sagrada. A família de Batista encontrava-se pela vizinhança, uns experimentando roupas, outros fazendo maquiagens enquanto Batista saira uns minutos para voltar logo, procurando aviar algumas encomendas para a banda do Evilásio que tocaria na noite alguns dobrados e marchas da sua autoria, também maestro que era da localidade, daí a necessidade de sair até a casa do maestro para dar orientações sobre algumas coisas.
Clarindo vendo a porta semi cerrada entra, mas não viu a ninguém na casa. Dirigiu-se à velha cristaleira, apanhou um litro e experimenta uma cachacinha do velho são Francisco, entornando uma e mais uma, pensando aonde andariam seus amigos quando de repente seus olhos estancam no espaldar de uma cadeira de vime e, lá está a vistosa farda do tenente maestro da polícia.
Sem atinar para o que fazia, inconsciente pela cachaça, começa maquinalmente a vestir a farda, arruma-se sabe lá Deus como, abotoa-se do gogó até a pança e lá se vai o “tenente maestro” garboso, dois passos para a gente, dois para os lados até alcançar o velho viaduto da cidade alcançando a praça, aonde estava o palanque armado.
Com muita dificuldade consegue “escalar” o palanque. Era quase hora do primeiro dobrado. Clarindo aproxima-se do palanque, segura a batuta do maestro que estava sobre a partitura, dá dois toques e grita, fala enrolada, porém audível: Nino Nacional. Foi um passar de folhas e partituras dos pecados. A soldadesca pensando se tratasse de um outro tenente maestro vindo da capital, sem atinar para aquele bêbado quase às quedas, não perguntou nada.
Clarindo regeu a banda magistralmente. Um tenente músico que estava tocando bombardino, sugeriu: “Tenente vamos atacar de Hino a Bandeira. E assim se realizou a função. O povo dava risadas e comentava até que cansado Clarindo resolveu descer do palanque. O pessoal da banda só começaria mesmo a desconfiar de verdade quando Clarindo soltou uma gostosa gargalhada e viu Batista subir no palanque gritando pelo compadre.
- Clarindinho, você está louco?
Tarde demais. Clarindinho havia na sua façanha realizado o que só o álcool conseguira. Enquanto isto se passava bem na praça principal o tenente maestro esbaforido, vestindo uma roupa do seu anfitrião Batista, estava a cuspir fogo pela boca.
Maior decepção foi quando constatou que os seus comandados obedeceram, sem titubear, a um comando inexistente.
A noite marcaria na cidadezinha apagada e triste, como a noite do Clarindinho.
***
Itiúba, 1971.

VELHO NÉ E O LOBISOMEM - PARTE II

Esaú deflorara a filha sem dó nem piedade, sem resquícios de civilidade, projetando dentro de si a sua monstruosidade onde a ausência fatal de moralidade atestava seu hediondo crime. Alimentado o seu ego animalesco e bestial, a criatura jogara a própria filha na maldição, condenara à desdita e amancebara-se com a bela e farta Isaltina.
Assim mantida as relações incestuosa, encontrando na miséria solo fértil para desenvolver-se, foi crescendo mal disfarçado, gerando na cabeça de todos, aquilo que as loucuras morais podem fazer.
Entre os afazeres de cuidar da casa ajudando a mãe, Isaltina e os pendores de uma mulher bonita, as relações pecaminosas de Isaltina foram aumentando entre os rapazes, enquanto, e, vez em quando, Esaú mantinha suas relações incestuosas com a filha. Os homens não queriam nem um dedo de prosa, a sociedade moral o reprovava, embora apenso na surdina se comentassem os acontecimentos, desbragrando-se Isaltina descaradamente para os lados do padre que fizer sua, satisfazendo seus embatinados pecados, cometendo toda sorte de licenciosidades consentidas pela Cúria Romana.
A rapariga era para usar vestis os mais vistosos, namorar com vários homens, ao mesmo tempo, mas, até os seus dezessete anos, ainda era incubada, ou seja, nem todos sabiam da sua infelicidade. Ela, encontrando nos seus genes e gametos a marca a devassidão não possuía e nem demonstrava qualquer pudicícia, nem rasgo de arrependimento, fazendo a cabeça dos rapazes e homens maduros de todas as idades.
Lançada à sarjeta pelo pai fora aconselhada a procura um homem, já que o infeliz não suportava insistentes olhares da sociedade. A infeliz “viciada” negara-se, fizera-se toda beicinho, jogara-se sobre os braços do pai, chorava e esperneava porque não gostava da ideia de viver e se dar a outro.
Chispito era um rapaz moderado educado e fino cheio de cabelos lisos penteados para trás. Bem verdade não tinha estudos, era semi- analfabeto, porém possuía uma profissão de marceneiro construindo somente sob encomendas para uma clientela crescente e da mais alta categoria. Tornaram-se famosas as finas cristaleiras que construiria com desenhos e arabescos, além de guarda-roupas de jacarandá e sucupira, camas e mesas além de cadeiras, dali tirando o sustento bem com da sua bondosa mãe, mulher prendada, sendo ainda possuidor de um comportamento irrepreensível e modelar, vivendo da sua casa para o trabalho, exemplo de rapaz muito bem apessoado e delicado, acima de tudo, amigo de todos.
O casamento foi maçado para o fim o ano. A noiva cínica, grinalda e flor de laranjeiras à cabeça, bebera e enchera a cara, terminando por vomitar na sala onde estavam os vizinhos e amigos do casal sujando o alvo vestido e dizendo impropérios que fazia e escandaliza os convivas. Já aí, Isaltina demonstrava a ausência de moralidade quando descrevia os homens com quem tivera relações numa ausência de pudor que maçaria de vergonha a face de Chispito. Entretanto como e ainda uma semi menina, as mais velhas mandavam que ela, Isaltina, tomasse vergonha e parasse com aquelas conversas escandalosas e em púbico, servindo apenas para aumentar em Isaltina aquele desejo incontido e desavergonhado de fazer com que os outros se sentissem inibidos. Lua de mel humilde, na casinha que se tornara mais tarde famosa, vivendo o casal só Deus sabe como, até que nasceu o último filho a que apelidaram de Quitinho. Na verdade estamos adiantando. Tiveram três filhos. Uma menina e dois meninos.
Continuou o bom homem a desenvolver suas atividades e, por algum tempo, se peava que a infeliz havia pegado juízo. Pois se tornara irrepreensível seu procedimento social, embora mais tare se descobrisse que um dos filhos, exatamente o Quitinho, teria sido produto das suas relações incestuosas com o velho Esaú.
Ao cabo de oito anos, três filhos e alguns abortos, Isaltina resolvera separa-se do marido sob a acusação de que o homem não tinha um membro grande e descomunal como aqueles a que estava acostumada e assim partia francamente para uma vida muito mais devassa, agora como uma mulher casada civilmente, aboletando-se no Cabaré de Letinha onde fazia sexo em qualquer lugar desde que seu parceiro pedisse-a ou a solicitasse. O retrato de Isaltina era a de uma deusa do sexo, cuja ocupação marcaria tantas vidas que ao seu redor gravitavam.
Mais tarde resolve amaziar-se, embora já um tanto gasta pelo tempo com o “seo” Pedro , tendo havido comes e bebes, já aí, na casa do pai e velho Esaú. Na noite do casamento a ninfomaníaca é flagrada aos beijos e agarramentos além de chupões com certo cidadão, bem ali na frente e diante dos cornos “seo” Pedro, que alma caridosa resolveu não contar na hora, tendo obrigado o homem levá-la de volta para a casa do pai,sendo entregue aquele dizendo que na podia continuar com uma puta, ao que o velho Esaú cinicamente orientou que a matasse, com impropérios em que a chamava de cadela, ao mesmo tempo em que lhe dava uma espingarda socadeira. Seo Pedro, homem velho e alquebrado, de profissão muito humilde, apaixonara-se pela Isaltina que estava uma mulher ainda na plenitude da maturidade sexual, embora perdida alguma coisa, a beleza que possuíra. O tempo, velho implacável sem perdão não poupara também aquela mulher com tanta sede de viver, embora sem medir consequencias, nem atinar para a sociedade. Que se danasse. Alimentava-se a “mula-de-padre ” das sobras que destino lhe deixava, cedendo ao infeliz pai, todas as vezes quando solicitada.
Menos de vinte e quatro horas durou o casamento com o seo Pedro.
O espojeiro dos jumentos no pasto de Dona Zifinha recebia, por toda a semana, uma arisca mula-de-padre que lá ia se espojar, saindo em seguida, arrombando cercas e arames a procura de jumentos e burros num eterno cio, num interminável cruza,mento de bicho, na satisfação bestial dos apetite que a carne amaldiçoada e transformada em “mulinha” pedia, como praga, já agora por ser não apenas amante do pai de quem nunca se desgrudara do incesto, nem do padre Eutiquíco que a refinara na pecaminosa relação, ensinando-lhe todas as maneiras de alcançar a satisfação física, pois dizia-se que Padre Eutiquíco era um incorrigível amante escondido sob a batina preta.
Zé Perninha atestou num sábado que vindo na sexta-feira da paixão para a feira da cidade, seu jerico foi importunado por uma mulinha desde o Grotão até o portão da Fazenda do Estado “suspendendo e rebaixando o rabo, zurrando e mijando”, como se quisesse, a todo custo, aproximar-se o seu jumento em que estava montado, tudo descrevendo o bom homem que mais parecia uma mulher se oferecendo, ao tempo em que olhava a mulinha para ele e seu animal como se tivesse alma. Zé Perninha esgotara seus ofícios, suas Ave-Marias e seus Padres-nossos”. Atestava com conhecimento e convicção que havia se separado com a Mula-de-padre, não lhe restando nenhuma dúvida, sendo confirmado pelas informações, pelo Paôco que na noite anterior estivera no Bonfim onde ouvira histórias de pessoas da cidade atestando da rapidez da mulinha e do impulso que dava, num trote seguro e firme, e que, ao chegar no Cariacá três vaqueiros tentaram aprisioná-la sem sucesso, vistoso animal sem que, contudo seus cavalos conseguissem alcança-a, muito embora cavalos campeiros famosos e vaqueiros os mais experimentados correndo a notícia o misterioso animal em muitas cercanias que outra coisa não poderia ser senão artes do demônio, porque não era possível uma criatura de Deus estar em tantas partes em tão pouco tempo.
Pedro-da-Onça velho e experimentado caçador, havia estado naquele mesmo dia no Pé-de-Serra, lá pras bandas de Camandaroba e notara que as armadilhas para as onças estavam todas desarmadas, coisa incrível, que só poderia ser mesmo coisa do “Tinhoso”. A mula-de-padre estava naqueles sítios cumprindo a sua triste sina, todos conheciam e sabiam quem poderia Sr, mas ninguém tinha coragem de quebrar os seus encantos, necessitando, ao demais, um padre de vida regrada e contrito a Deus, pois o animal só podia perder seu encanto através do desencantamento, muito reza e muito terço e, logo no dizer do Caboclo- do- Grotão, só mesmo um padre de outra freguesia e que chamasse pelas sangrentas chagas de Jesus Cristo, contanto que na fosse o “descarado do padre Eutiquíco que tanto colaborara para a danação da coitada da Isaltina.
Por esse tempo velho Esaú ficara viúvo, e, achando que já era tempo e arrumar uma mulher com quem s casaria, uma vez que o padre, unindo confissão teológica à confissão das carnalidade dos bacanais, senhor de Isaltina, dominador egoísta, impusera que a danada da Isaltina abandonasse ao seu pai, assim os dois iriam virar bicho nas “semanas santas”, estando já sua vidas irremediavelmente condenadas à eternidade de sofrimento e danação nas profundas dos infernos, possuídos pelo demo. O que o padre não sabia era que Esaú já era um “bicho” que nas semanas santas se transformava, também, em mulo, dirigindo-se para os espojeiros dos animais, nas malhadas, tendo sido reconhecido quando dando urros medonhos, aquele enorme jumento cobria a fêmea. As almas sofriam desde muito tempo deixando a vizinhança entre paredes, todos receosos de serem alcançados pelos monstros da semana santa.
Esaú arranjara uma mulher e casa-se na igreja perto de cidade de Senhor do Bonfim, uma vez que lá ninguém conhecia a sua vida, sendo fato que, na sua cidade, dificilmente o padre o deixaria sequer entrar na igreja.Do consórcio geraria dois filhos horríveis, sendo uma menina e um menino, brancos como cera de vela, próprio dos seres não bafejados pelos sol, cuja pigmentação ia do amarelo ao branco sem via. A mulher logo se acostumara às revelações de Esaú que por sua vez não encontrava satisfações nesta a quem fala das dificuldades de relacionamentos sexuais com a esposa, por isso mesmo precisava estar com Isaltina. .
Será necessário para completar o relato dizer que Esaú era um homem de pênis avantajado, famoso e conhecido na região como se um jumento, tanto em cumprimento quanto em espessura, não tendo sido poucas às vezes em que as “mulheres damas” experimentaram o senegalês e ficaram literalmente “frouxas” e sangrando, dado `s proporções e dimensões descomunais daquele membro em ereção. Gebara tivera uma experiência sendo necessário seu internamento em casa de saúde até restabelecer-se, desaparecendo do “puteiro” local porque homem nenhum encontrava mais nada, pois dizia-se até ter retirado o útero provocado por estocadas de um animal irracional. Esaú preferia, é certo, fazer amor se assim se pode falar, com as lamparinas apagadas, sempre envolto em uma capa colonial espessa, não tirando a roupa na vista das mulheres, enquanto todas juravam que as costas do homem era cabeluda e com fios de mais de quinze centímetros, conforme aquilatavam pelas apalpadelas sendo que ele as possuía invariavelmente de costas, na posição animal, de quatro, jamais as “damas” repetindo em qualquer circunstâncias, a triste experiência.
Os segredos de um homem que esconde em si as maldições dos seus pecados, não poderiam ficar impunes por tanto tempo, sendo Isaltina a única que possuía calibre, porque fogo atrai fogo, animal, atrai animal. Transcorrendo a fatalidade, nada mais restava aos “bichos” senão a danação eterna. Ninguém segurava as mãos de Esaú. Ninguém lhe dava um bom dia ou boa tarde, ninguém comprava coisa com coisa em suas mãos, evitando tanto quanto possível o contato, pois o casal havia entrado num estágio de completo abandono e cegueira, onde a moral e os bons costumes eram coisas de atrasados, não mais tomavam mais cuidados de si, nem de serem vistos nas posições mais comprometedoras ou nos caminhos do roçado da Serra o Cruzeiro ou na pequena roça da Serra do Encantado tendo o velho Ademir, certa feita, proibido até o infeliz de ir na sua fazenda, ainda que fosse para quebra e apanhar lenha, quanto mais penetrar e plantar os pés em seus domínios.
Era comum o “Couro” arrebentar no lajedão do encantado, estrugindo o barulho danado, alguns afirmando tratar-se, em verdade, dos monstros em colóquio amoroso, rolando por sobre as pedras, urrando e se arranhando, no torpor da carne adormecida agora desperta, mas adormecida de sãos sentimentos, porque caso perdido era, não havendo mais salvação, senão a da morte física, porque espiritual já havia ocorrido o desenlace, órfãos do bondoso Deus que já os havia abandonado e condenado.
Os pais procuravam evitar que os filhos fossem à casa de Esaú, sobrando-lhe fama, mas reconheciam que animal que descarava com a própria filha, certamente não era digno da menor confiança, estando passível de violência sexual em quem quer que seus apetites de besta humana, besta fera, entendessem. A mulher de Esaú, a que lhe dera duas horríveis criaturas como filhos, acostumara com a situação. Porém, abertamente chamava a Esaú e a Isaltina de descarados, sem vergonhas e outros impropérios, não fazendo a menor cerimônia, muito menos segredos das relações com seu marido, amalgamada ao ambiente de luxuria e pecado, ela mesma tornando-se ninfomaníaca dos apetites de Esaú.
Queixinho – famoso malandro das quebradas, brigara no sábado, às três horas da madrugada com dois outros, de nome Escurinho e Saco-Furado, na disputa pelos amores de Isaltina. Deu-se que, estando numa casinha na roa de Sinval, num Cabaré onde todos dançavam nus, Isaltina caira para os lados de queixinho, malandro bem arrumado e com dinheiro no bolso, mágico amador de grandes possibilidades, convidara Isaltina para fazer par com ele durante toa a noite. A ordem era que ninguém poderia ter elações sexuais no meio o salão, tendo os casais que o desejassem e afastar-se da pista de anca que era chão batido, ocupando um quarto miserável ao lado da sala, sendo a renda destinada à compra de cachaça distribuída entre os mesmos convivas. O facão comeu solto. Escurinho, caboclo zangado, bom de facão e Saco-Furado, exímio na faca peixeira, zangaram-se entre si, correram as mãos nas armas e a desta espalhou. Queixinho malandro vivo e sabido não brigava senão empalmando um soco inglês, ao tempo em que se valia das suas pernas, pois era exímio capoeira.
Ninguém sairia ferido, porém Escurinho levou um soco no queixo e saco-Furado teve de correr para não cair no pau. Isaltina de cima de um pequeno morro junto a uma cacimba sertaneja dava urras e vivas, instigando os contendores a que continuasse prometendo que o vencedor iria dormir com ela, égua retada. Acúrsio garantira, mais tarde, que na escuridão da madrugada os olhos de Isaltina refletiam como se duas pequenas e minúsculas bolas de fogo, enquanto seus pés transformados, eram duas autênticas patas de burro.
***

UM TRAIDOR DE CANUDOS

Amanhecia e a Vila preparava-se para mais um dia de lutas. No corre corre diário os chefes dirigiam-se para a pequena igreja. Armados, tomavam acento na pequena nave, ouviam a prédica matinal do Conselheiro, recebiam hóstias e voltavam a reunir-se a uma voz de comando no meio da pracinha.
Vila Nova não apareceu. Cerca de cinquenta oitenta homens do seu comando, aguardavam-no. Zé Perninha impaciente arrastava a sua manca perna, de um lado ao outro enquanto mascava um pedaço de jabá, das melhores que era vendida para os lados da Vila Nova da Rainha. A casa de Vila Nova estava fechada. A pequena choça coberta de ariri estava sob um terrível silencio e embaraçoso. Uma janela semi aberta deixava ver o seu interior minúsculo. A mulher, calada estava sentada sobre uma banqueta de três pernas chorava silenciosamente. Vila Nova havia fugido deixando a família, rumando para Pernambuco de onde possivelmente viera desde os tempos em que o Conselheiro por lá passara fazendo suas pregações e o trouxera consigo. Pois bem, Vila Nova selara um burro e juntara uns “trens” em lombos de dois jumentos e partiu dentro da madrugada.
A pracinha do casario disforme era agora ocupada pelos remanescentes, justamente aqueles que recebiam as ordens diretamente e Vila Nov. Não há como negar a destreza daquele homem, sua fibra que o transmutara de pacato rezador para um dos mais ombreados lutadores, constituindo em parte, no mais fino escol guerreiro que já pisara aqueles sertões. A sua coagem no corpo-a-corpo, costumavam relembrar seus companheiros, até mesmo o dia em que Vilanova sozinho com sua inseparável parnaíba havia sangrado uma patrulha militar composta de cinco soldados. Outros, porém, diante da notícia de deserção do chefe se punham a falar que Vila Nova era um traidor e não era tão corajoso.
O burburinho grande exigia que o cabeça fosse logo substituído, pois o arraial vivia o prenúncio do fim.. Os homens foram rudemente atingidos muito mais pela constatação o que pelos canhões do Salomão. Nem o assédio da “força fraca do governo” poderia causar tamanhos estragos mais que o fato de saberem que um dos seus havia debandado e perdido a fé a coragem. Havia estado tanto tempo, e lutado tantos anos que a notícia parecia mais uma piada de mau gosto, não imaginando jamais que entre eles houvesse um traidor. Foram ao Conselheiro. Este soturnamente orientou para que os homens perseguissem Vila Nova e o trouxesse à sua presença para conversar sobre os murmúrios. Sobretudo desejava saber com conseguira, sozinho, sair da Vila já que se encontrava em completo isolamento. Planejou dois homens que sairiam a noitinha, tentariam atravessar a linha inimiga na direção do Uauá, o que lograriam fazer sem dificuldades já que estavam a pés e não conduziam alimárias que certamente iriam denunciá-los pelo tropel. Da estrada do Cumbe à estrada do Monte Santo; de queimadas à Itiúba; do Cambaio ao caminho da Mombaça passando pela Faveleira, tudo fora vasculhado. Debalde.
De repente, uma surpresa. De cima do cabeçote de um morro dois cabras divisaram o Vila Nova. Chapelão de abas na cabeça a medida que o animal desafiava e vencia a estrada num picado irrepreensível, aquele chapéu oscilava e nem se dava contas de que ia seguido pelos outrora companheiros que tinham a missão difícil de trazê-lo de volta ao Arraial de Canudos. Eis que, sem ninguém esperar, surge uma coluna de soldados desgarrados, provavelmente dos que pertenciam ao Savaget, o tenente mais ousado daquela expedição. Era mais uma patrulha avançada ou mesmo perdida, que estava varrendo aqueles bravios sertões num raio de dez léguas, parando e inquirindo todos os seres viventes que por aqueles plagos ousasse.
A tropa bem alimentada se acercou de Vila Nova que estava alquebrado pelo cansaço da caminhada no sol a pino, além das lutas que já travara na vida. O tenente ordena-lhe descer rapidamente da montaria. Interroga-o. Um alferes o reconhece como um dos chefes. Começam a indagar sobre a situação atual do Arraial, víveres, combatentes, munição, etc. O alferes truculento dá-lhe um botinada nas costas secas, os soldados de pré como que extasiados começam a rir um riso macabro dos que sabem terem a presa nas mãos e não há como escapar-lhe. Vila Nova humilde permanece calado, enquanto cabisbaixo, embora na implorasse, como que a desafiar a morte, não pede piedade, mas o seu jeito de ser e portar-se na frente dos combatentes que tantas vezes participara e os derrotou, não podia, agora, pedir para aqueles que eram e tinham sido o carrascos dos seu amigos que tombara.. Não podia como a vida não lhe permitiu desfibrar-se, mesmo antevendo o sofrimento do arraial, de tantas crianças, mulheres e velhos morrendo mais de fome do que mesmo de balas da “força fraca do governo” pois que, de há muito a linha negra havia impedido de conseguirem comida farta. A lembrança dos canhões troando dia e noite, dos combates, do ritual diário de morrer pela crença e fé, recordações que fibravavam e faziam recompor o gigante num retrospecto da sua vida, possivelmente coração distante da cena ora vivido, agora envergonhado e arrependido, levanta a tez branca, encara o tenente e diz-lhe:
-Força fraca do governo, desce desse cavalo e me entrega a minha faca.
Os soldados fizeram seu festim.
De longe, do pequeno morro, os dois sertanejo por trás de moitas de icós, permaneceram.
Vila Nova, sangrando a carótida decepada deixava o sangue escorrer rubro pela terra como a desafiar a lei da gravidade, procurando, quiçá, os caboclos que o espírito já deveria ter avistado sobre o monte. Como se pretendesse mandar dizer aos seus, do seu pedido de perdão e de remissão da honra.
Nos lábios empapados de sangue, as últimas e derradeiras palavras, palavras que o redimiriam de toda culpa saída num grito rouco entrecortado, nas últimas, bradava:
-Viva o Bom Conselheiro.
Não obstante lograr sair da Vila o exército não lhe faria exceção, e, provavelmente no inferno, Moreira César gargalharia de satisfação, se é que lá existe. Sentença fatídica de não deixar pedra sobre pedra naquele arraial, começava a concretizar-ser com a derradeira expedição a se tornar realidade.
Porém, a glória fugaz do exército contra um homem só e desarmado, não poderia conter em página nenhuma de relatório de Campanha, bem como não poderia ecoar nas esquinas da Rua do Ouvidor porque revelaria os germens criminógenos de uma mancha contra um homem só, que nem o tempo apagaria. Morreu Vila Nova. Desafiante, ferino, combatente. Do outro lado uma cruel realidade tomava corpo e certeza, a de que, na primeira clarinada do dia seguinte, seis mil baionetas calariam, para sempre, o Arraial de Canudos.
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MORTE EM SÃO PAULO

Carlito, passados aqueles dias negros e aziagos em que o espírito amargara no limbo dos esquecidos da sorte, resolvera, como que a fugir da sua própria sorte, viajar para fora do Estado tomando rumos ignorados. Visava ele esconder-se de si mesmo e dos amigos que o conheceram na vida de opulência, perdido no fausto e viajando na sociedade que tão bem o acolhera. Pouco ou nada adiantaram os conselhos que seus amigos davam, ao mesmo tempo, para que permanecesse na cidade e refizesse a vida tão destroçada, missão de amigos conselheiros que pouco surtiria efeito naquele moço bom, educado, trabalhador e decente cumpridor dos seus deveres e obrigações, resolvendo-se que seria capaz de cometer uma loucura, se por acaso ali permanecesse, à vista e lançado ao opróbrio pela mulher, não se conformando de espécie e modo algum, em ver que seu lar havia sido destruído por uma mulher irresponsável a quem devotara toda uma vida.
Importava que o mundo o esquecesse que, para apagar dores e mágoas, só mesmo uma viagem longa e um lugar onde fixasse residência buscando refazer sua vida. Fixa-se na capital paulistana, tendo o povo esquecido de falar e comentar sobre sua vida e desdita. Entretanto, ao cabo de uns poucos anos, estourou a notícia na cidadezinha trazida por alguns conterrâneos que tinham, também, ido tentar a vida em são Paulo. Primeiras notícias de longe davam conta de que o rapaz vivia uma vida de opulência, tendo construído um patrimônio e refeito a vida naquela capital, de sorte que a sua riqueza anterior não se igualava, sendo proprietário de extensa frota e caminhões de carga e transportes, de causar inveja ao mais rico da cidade. A sua nova vida era pintada com cores mil, onde a fortuna era tida como coisa certa. Outras notícias davam conta de que não podia dizer o seu endereço porque senão a mulher tentaria procurá-lo e querer tomar toda a fortuna numa mais que provável ação de alimentos.
É assim que os anos impiedosos fazem a cidadezinha de ruazinhas tristes, esquecer nosso triste personagem, caindo num ostracismo terrível e num desconhecimento total sobre o seu paradeiro, sendo que a boataria e as especulações deram lugar a outras especulações meramente exercitando as capacidades das pessoas usarem a maledicências só encontradiça nos contos fantasiados de fadas e das mil e uma noites.
Aos mais íntimos e chagados, é bem verdade, Carlito fizera e endereçara uma ou duas caras e nelas procurava alimentar as fantasias que se de si faziam, sem, contudo, dar ou fornecer sequer seu endereço para respostas. Outros diziam que as cartas chegavam com manchas semelhantes a pingos de água, que o vulgo se encarregava de espalhar tratar-se de lágrimas. Naquelas cartas, ele perguntava por amigos íntimos, aqueles que viveram em seu lar e no seu círculo, ficando, porém, sem respostas, pois, não fornecia o endereço nem pistas deixava de onde eram postadas as cartas, algumas vindas de agências dos correios e telégrafos de cidades do interior, como se desejoso de despistar as pessoas que porventura fossem procurá-lo. Um véu de mistério haveria de encobrir aquele rapaz envergonhado pela desdita da sua esposa. Queria desaparecer e tão bem conseguira.
De repente, um dia, como todos temos uma encruzilhada, acontecem as coordenadas da sua existência. Carlito é encontrado numa obra civil, num dos espigões, então em construção, por um rapaz que havia deixado o Sítio dos Moços para ganhar a vida em São Paulo. Cruzados o caminhos, costumavam conversar diariamente e demoradamente nos poucos intervalos de descanso, onde confessam um ao outro serem da Bahia, tentando a vida em São Paulo. Assusta-se quando ouve o companheiro do Sítio dos Moços afirmar para ele que era filho da Itiúba, na Bahia. Mas Carlito não se surpreende. Abaixa a cabeça e nada responde. Como o rapaz tivera muito pouco tempo em Itiúba, pois morador a zona rural, não consegue ligar nada com nada quando Carlito identifica-se, dizendo quem era sendo absolutamente desconhecido para o companheiro coisa que não atinava de modo alguma a razão de Carlito andar cabisbaixo.
O mestre-de-obras convocara para o sábado todos os operários, garantindo o pagamento de horas extras e todos ficaram satisfeitos, sendo desejo da construtora terminar a construção do prédio em breves dias. Após o trabalho do sábado, todos cansados e suados, resolveram recebido o pagamento, tomar umas bebidas no boteco da esquina. Carlito já estava mais grogue que mendigo em festa de aniversário alheio desatando a língua e contando sua vida para todos os colegas. O rapaz lembra-se do caso, pede que lhe seja mostrada a carteira de identidade. Carlito num átimo de arrependimento desdiz-se, afirmando que era brincadeira e que conhecia o rapaz que fora traído, mas que conhecera todos, porque na época morava na cidade, mas nunca tal com ele se passara.
Coló ficou olhando do ponto de ônibus onde estava Carlito embarcar naquele que o levara ao seu destino ou à sua morada, cambaleante, ébrio de cachaça, alma lavada, trôpego e faminto.
Carlito agora evitava na obra qualquer conversa com o conterrâneo, ficara macambúzio, trabalhava denodadamente e não faltava um dia sequer ao trabalho. A saudade dos filhos corroa-lhe a alma por certo, sua saúde periclitava e seu físico debilitava pelo esforço de trabalhos pesados da construção civil e sua luta era o retrato e pressão viva de que tentava recuperar algo perdido em um ponto do passado, quiçá a volta à sua terra, mais respeitado e casado com outra para restabelecer-se cheio de moralidade e dizer àquela ingrata mulher que ele não havia sido destruído. Mas o álcool, a bebida em demasia, a fome e a miséria enfraqueceram seu ânimo.
Começa uma discussão no primeiro andar em construção. Carlito reclamava e um ouro operário que havia He surrupiado a pequena garrafa de cachaça crua da sacola, na hora do almoço. Engalfinham-se em luta corporal, levando nítida desvantagem para seu contendor. O colega operário esmurra Carlito, este não tem como desvencilhar-se, os colegas acorrem, separam os contendores. A luta acaba. Recomeçam o trabalho.
Apanhando massa e pedaços de bloco de cerâmica para atender a outro operário, de cócoras, lá está Carlito. Pé ante pé, um homem aproxima-se por trás sem ser visto, martelo de construção civil à mão, prepara-se para o golpe fatal. Afunda o crânio. Um filete de sangue jorra tênue, o corpo do operário estremece e se estrebucha, um gemido surdo sai da garganta, homens acorrem prendendo o criminoso. Polícia, levantamento cadavérico e investigação. Na sacola encontrada pendurada na parede da obra estavam uma pequena marmita contendo feijão e arroz além de um pouco de farinha d’água, um ovo frito e duas rodelinhas de tomate. No bolso direito d calça de nycron, dentro da sacola, foram encontrados uma carteira de trabalho, dentro desta uma cédula de identidade civil, um retrato amarelecido pelo tempo com uma dedicatória que dizia: “Ao meu querido Carlito, uma lembrança pálida da sua querida noiva.” Abaixo a assinatura pós dedicatória indicava ainda: Carminha.
Na identidade e na carteira profissional, á estava escrito o nome do seu portador. Carlito Pereira dos santos.
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quinta-feira, 16 de junho de 2011

A BELA DO LARGO.



O destino implacável, os dogmas tabus e preconceitos de uma comunidade se abateram sobre a gentil mulher, fluindo e canalizando no seu pensamento todas as decepções acumuladas de uma só vez.
O mundo parece ter se acabado para aquela senhora. Passou a ser vista apenas pelas empregadas domésticas que se encarregavam de espalhar pela cidade que a bela mulher estava se definhando, e que, além do mais ficara tísica e não ia demorar , não se alimentava e não frequentava mais a missa como fazia religiosamente, não mais se reunia com suas amigas em animados bate-papos, não trocava ideias de como costurava e bordava. Seus olhos foram apagando com a cor mortiça dos desalentados, sua ampla casa no largo da cidade não mais abria janelas, persianas ficavam trancadas e as portas não permitiam mais ninguém atravessá-las, o padre Eutímio não mais teria uma das mais fieis na igreja de todas as missas das manhãs enregelantes dos sertões.
Perdera o alento e a esperança enquanto o Mario já começava a sentir tratar-se de caso perdido, iniciando, já agora, ele mesmo a contratar advogados para saber como procede com vistas a abandonar a cidade definitivamente com a mulher e os netos.
Carminha resolvera que os filhos ficariam com os avós para serem criados e receberem educação, porém o pai a proibira de visitá-los, renegando aquela de que houvera recebido alegrias e felicidades, comprometida então com nova missão de salvar aquelas pobres crianças.
Desde a fuga para a capital, já resolvera o casal que as viagens teriam necessariamente de serem mais amiudadas antevendo um clima de tristezas, na cidadezinha dos sertões, além de serem sempre objeto de perguntas indiscretas e de explicações que a família, afinal, não teria mesmo como dá-las, eles mesmos pegos de surpresa, em meio ao redemoinho dos acontecimentos.
Vez ou outra retornavam para a capital, de carro ou de trem, mas como fuga do que mesmo a passeio, enquanto a mulher ia definhando e perdendo a crença em tudo e em todos, na sua revolta compreensível, mas que não se podia atribuir culpa a quem quer que fosse das estripulias e catimbas da senhora Carminha.
As ameaças de irem embora não se concretizaram. A bela e educada dama não arredou pé da cidadezinha, mas os que a avistavam por cima do muro, esticando o pescoço, ou da lateral da casa, duvidavam que aquela fosse mesmo a mãe de Carminha, tão magra, esquálida e destratada, e, dava mesmo para ver que o desespero tomou conta daquela educada senhora premiando-a com a penitência sem fim.
Cabelos desgrenhados, mãos sem nenhum trato, vestidos repetidos e desleixados, seios balançando dentro das vestes, olhos fundos e sandálias de uso comum, sem nenhum atrativo, era o retrato vivo e desesperador de uma mulher de beleza natural e trabalhada de outrora, capaz de arrancar suspiros a todos os demais homens da cidade, ainda que não se confessassem entre si em respeito, mesmo porque ela jamais dera uma palhinha ou, como se dizia, ousadia a qualquer pessoa. Era irretocável e de ilibada reputação e vivência social e moral.
Quem avistasse aquela mulher de surpresa, (porque de outro modo era impossível),haveria de olhar duas vezes para a constatação do que os olhos testemunhavam. A pele branca e louçã, os lindos olhos aureolados, as lindas e formosas sobrancelhas era o retrato em preto e branco do que antes houvera sido. A fina e linda tez deu lugar, já agora, a manchas pardacentas de pano-preto, a pele perdeu-se da sua elasticidade e vivacidade e já não atraía os olhares de desejo dos homens deixando de causar inveja às mulheres de quem a grande dama recebia os principais elogios por sua beleza.
Outrora brincalhona com as amigas perdera a afeição por tudo e todos. Agora, era uma mulher que mandava dizer pelas empregadas que não estava em casa e que, caso desejassem, deixassem algum recado. Os amigos foram se afastando pouco a pouco,a casa bem cuidada deixou de ser pintada duas vezes anualmente e as plantas ornamentais foram perdendo as folhas e o vigor, como se estivessem a traduzir para os que as viam, as tristezas e decepções daquela casal.
O padre ainda tentou uma aproximação quando um circo acampou na cidade, aconselhando-a a assistir alguns espetáculos. Chegou, dento do máximo a que se permitira a pedir ao filho de Enocuos soldado, que lhe comprasse uma cocada puxa na porta do circo, enquanto na penumbra do quarto, sobre a cama, sentada por trás de uma pilastra, parecia aguardar o menino num sopro de alegria juvenil de comer a guloseima. As pessoas que passavam em direção ao circo não regateavam e agradeciam a Deus por aquela bondosa alma estar se recuperando e alegravam-se porque a imensa casa parecia ter se transformado em sepultura viva de uma mulher que não merecia, porque contas não tinha a acertar, tamanha a infelicidade agora alcançada.
Quando o circo ou algum parque de diversões chegava à cidade fazia a alegria de loucos, doidos e sãos, isto ainda sem contar a criançada a correr atrás do palhaço, a disputar, moleques travessos, cruzes marcando a testa que lhes garantia uma entrada gratuita à noite, para, no dizer do palhaço, assistir a função. Os moleques reuniam-se todos, o palhaço de pernas-de-pau assinalava de tinta, as testas, da criançada e determinava que saíssemos pelas ruas e becos até a tardezinha, aquela pequena chusma respondendo os ditos do desengonçado e alegre palhaço.
-” Hei raio sol, suspende a lua” – dizia o palhaço, “Olha o palhaço no meio da rua”- respondia a criançada alegre e inocente.
Na trajetória era caminho obrigatório passar bem em frente a casa da inditosa dama, pois o palhaço, com seu álacre cotejo de meninos, desejava era chamar a atenção de cada habitante, e, despertar neles, esses sentimentos incontidos, porém reprimidos socialmente dentro de cada criança que repousa dento de cada um de nós ainda que uma gama de dores e sofrimentos acumulados, no jornadear penoso do existencialismo, queira renegar a primeira e lúdica experiência de vida da humanidade.
Vem daí que um dia a louca Valentina aparece exatamente na hora em que a criançada estava recebendo o sinal de tinta nas testas, e ela, Valentina com a inocência dos loucos dispôs-se a acompanhar o cortejo, senão jogaria pedras em todos , rasgaria a lona do circo com muito espalhafato, além de ir buscar “seo” Pompílio Delegado para que prendesse o palhaço e aqueles meninos malvados.
Valentina era uma mulher d povo, desses loucos ditos “mansos”, cujos chistes e tiradas deixavam a todos fora do sério e com suas tiradas espirituosas deixava como que as pessoas com as barrigas doendo de tanto rirem, pouco importando se homem ou mulher, se imoralidade, conforme se dizia no tempo. Tanto que fez Valentina, o palhaço forasteiro resolveu pregar uma cruz de tinta na testa da Valentina, pois o sabia muito bem que a louca não podia fazer nem bem nem mal. Lá vai Valentina entre pequenos moleques a defender seu ingresso, logo mais, na função da noite, quando seria apresentada a peça “O Ébrio”, pastelão de circo mambembe e carro chefe dos dramalhões de tantos quantos circos apareciam na cidade. Ao passarmos em frente da casa da bela dama, destacando sua voz, do côro que deveria ser respondido, sem nenhuma malícia, seguindo a disritmia do seu cérebro, tasca Valentina o seguinte verso.:
-O bicho que mata homem
Mora debaixo da saia,
Tem a testa cabeluda
E língua de papagaio.
O palhaço não teve outra alternativa senão parar. A gurizada, curiosa, caiu na risada enquanto Valentina, qual criança crescida, levantava e abaixava a saia comprida. A pobre louca sentindo que seus versos eram respondidos com ovação da criançada, antes que o palhaço tivesse dado por si e acordado de que o seu espetáculo estava sendo roubado, entre trejeitos e momices, lança no ar, mais versos e diz:
“Escorreguei na bananeira
Agarrei no carrapicho
Corri a mão por baixo
Agarrei nos bagos do bicho”.
O palhaço sabendo que ali estava próximo à casa de família tradicional apressa o passo e, em largas passadas de quase oito metros de cumprimento, com suas longas pernas-de-pau, tenta chamar a cambada a ordem com um dos versos do seu repertório, aliás ,de todos os palhaços da infância da gente.
“Hoje tem espetáculo?” E a meninada respondia: “Tem sim senhor.” E continuava o palhaço: “Oito horas da noite”? E a meninada: “Tem sim senhor” e o palhaço alegre continuava: “Arrocha negrada” . E nós: “Arrocha”.
Lá distante o palhaço olhando para trás via Valentina atrasada, dançando e pulando no meio da praça e, de uma pilastra, numa grande casa, percebia-se, perfeitamente, uma senhora que mostrava s alvos dentes num sorriso amarelo e sem graça. Era a mãe de Carminha. A morta-viva já não tinha forças nem para rir.
Ao longo rumando em direção ao alto do Mingau, um enorme palhaço alegre e bizarro,com pernas descomunais, gritava:
-“Hoje tem marmelada?”
E a criançada alheia, alegre e feliz, irresponsável mas sem consciência dos dramas e tragédias da vida, felizes e álacres, respondia:
“Tem sim senhor”.
Mas assistir ao espetáculo da noite, reviver seu próprio corpo nas belas e desenhadas pernas e cinturas das rumbeiras do circo,ela mesma sentir-se uma rumbeira nas fantasias da casa, na cama com seu marido que a procurava com mais volúpia, sentir-se a mulher desejada, não a despertava mais. As rumbeiras serviriam, agora, apenas para humilhá-la, porque então, suas belas formas tinham sido apagadas, o sorriso e a felicidade desapareceram desencantadamente.
O marido já não a procurava mais. Senhor privilegiado de ter uma mulher escultural, agora, era verdade, ele descendo a escala social, não mais a procurava indo ao encontro da Luxuduí, meretriz da mais ínfima escala social, frequentadora do mais baixo bordel da cidade.
Tudo acabou.


Itiúba, 1973 Max B. Cirne
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sábado, 11 de junho de 2011

O DOIDO DUDÉ.

O DOIDO Dudé jurava e batia pé firme, afirmando com muita convicção que o “lubi” havia passado correndo por ele no local em que ficava a ponte de madeira, que afinal não era ponte coisa nenhuma, simples pinguela reforçada com pesado toro lavrado por onde aquela gente da Rua do Alto do Mingau passava em direção à cidade.
Fato é que ninguém duvidava da existência do lobisomem, havendo aqueles mais sérios e refinados que desciam a detalhes incrivelmente testemunhados por várias pessoas. Dudé afirmava que vira o lobisomem no dia de quinta-feira quando retornava para sua casa, ali por volta da 11 horas da noite. Tinha o Dudé o belo habito de subir a ladeira de pedras cantarolando velhas canções, tornando-se conhecido, assim iniciava a sua subida, religiosamente à 11 horas.
Alto, esguio, cabelos encarapinhados, negro, forte e espadaúdo, poucos conheciam naquele rapaz a capacidade de suportar peso, embora nos seus poucos mais de dezoito anos. Nascido na cidade, filho de Antonio da Dedela, as pessoas não costumavam dar crédito às suas histórias, sendo absolutamente civilizado, embora portador de anomalia ou distúrbio psíquico. Desde menino suas doidices como se costumavam dizer na vizinhança, o fazia respeitado por outros meninos que na costumavam azucrinar o rapaz, mesmo porque, bem verdade, se diga Dudé não primava bulir ou aporrinhar a vida de quem quer que fosse limitando quando muito, a traquinadas próprias sem maiores irresponsabilidades, embora como já dito, fosse louco.
Louco manso e civilizado se assim se pode dizer sendo sua preferência arreliar o Vavá-Bom-no-pó, velho tísico que costumava fazer brincadeiras com a criançada jogando confeitos e caramelos de café com leite para a criançada nas noites enluaradas com tentativa de apagar a triste Idea que tos dele faziam de ser um bruxo enclausurado, sem registro de onde viera, o que fazia ou qualquer coisa. Gozado pois, ninguém leva o Dudé a sério, especialmente quando ele se punha na maior cara e pau a descrever com trejeitos, de momice e gaiatice como era o andar do lobisomem que passara por ele justo em cima da velha ponte com a cachorreira latindo e grunhindo, no que era perseguido pelo escândalo de toda a cachorrada da vizinhança a grunhir e a latir.
Na quinta-feira, sobre o leito seco do riacho que desce do Coité, nas invernada, o lobisomem não podendo mais suportar o assédio dos cachorros, despira sua cabeluda pele e, dele saía, finalmente o homem, criatura amaldiçoada que não conseguia resistir os encantos de uma lua cheia.
É verdade que não existia apenas um lobisomem naquelas paragens, sendo, igualmente conhecidos de todos, o velho Augusto da Serra da Itiúba que fornicava com as filhas, transformando-se, nas sextas-feiras santas e nas quintas, no temível e terrível flagelo da humanidade, daí saindo à cata de criancinhas pagãs para devorá-las onde as encontrasse,razão das maiores preocupações de todos os pais que tratavam, antes da chegada dos dias fatídicos,de levá-las à Igreja Matriz onde eram recebidos, a toque de caixa, tal o poder que o amaldiçoado exercia sobre eles.
Dudé vira, então, o monstro despir a pele. Primeiro começou a espojar-se na areia fina e alva do riacho seco com grunhidos os mais terríveis, ora gemendo, ora chorando, enquanto as mãos iam aparecendo, os braços, as pernas de humano, a cabeça tomando formato de humano, os dentes se justapondo, surgindo da sua inteireza um homem branco com duas pequenas entradas na cabeça, sinal de calvície precoce, para, logo imediatamente, brandir no ar um porrete com o qual se defendia dos cães em azáfama, com milhares de latidos ensurdecedores, ora grunhindo sob as bordoadas do ex lobisomem tudo às visas aterrorizadas do Dudé. Muito mentiroso ninguém poderia duvidar do Dudé, pelo menos aqueles que ouviam seus terríveis gritos, sendo Júlia Preta testemunha da gritaria e da desabalada carreira que nosso personagem deu, com medo e pavor do bicho da semana santa. Os latidos foram parando enquanto o homem, agora na sua natureza normal, caminhava sorrateiramente e apressado por dentro do pasto dos Damascenos, pulando uma segunda cerca de arame farpado e embrenhando-se no pasto do Padre, desaparecendo finalmente na penumbra nas cercanias do pasto do finado Augusto Moura.
Levando embrulhado um enorme objeto,afirmou-se, mais tarde, que era uma pequena criança pagã que seria devorada tão somente chegasse o monstro fora das vistas das pessoas, antes mesmo do dia amanhecer, pobre criancinha que não veria o dia com os seus pais e irmãos.
O Dudé tinha na verdade, de vez em quando, verdadeiros surtos criativos de mistérios, lembrando os que ouviam da vez em que ele vira nas imediações da ponte uma alma penada a querer lhe enforcar, subindo a estrada que dava em sua casa em desabalada correria, a pedir socorro, pois no dizer dele a alma penada do outro mundo vinha ao seu encontro. Diante dos seus gritos terríveis, e não conseguindo atingir a casa dos pais, caiu trânzido de medo no passeio da casa do tio Antonio da Maricota, sendo socorrido pelos primos e pelos tios lhe oferecendo água até quando o cidadão restabelecido voz e fôlego passou a narrar o acontecido.
Provoca a que uma verdadeira patrulha de valentes resolve descer a rua até a ponte. O Dudé não teve forças nem coragem, denotando seus gestos uma pessoa apavorada e atemorizada pela dantesca visa da branca alma penada que do outro mundo viera para assustar os viajantes daquelas paragens. Facas, varapaus, porretes e enxadas, pequeno cortejo descia a ladeira, cada componente fazendo-se muito corajoso, e, por e turno, cada um preocupado em proclamar para o grupo suas virtudes de que iria ao encontro da alma safada e daria um supetão na pobre. Outros chamavam a alma descarada e que não devia estar fazendo medo às pessoas. Os mais penitentes e religiosos atribuíam a alma ser de fulano, sicrano ou beltrano,e que estava penando no mundo para descontar seus pecados e que ela viera para pedir que se fizessem penitencias. Uns ainda diziam nomes dos falecidos, outros, faziam atribuições ao coronel fulano que morrera de matar escravos, outros diziam ser a alma do Padre Severo facínora famoso e desalmado que estava a assustar as pessoas. De ânimo belicoso e mata almas o pequeno grupo formado por rapazes na flor da idade, queria por que queria, provar ao Dudé que alma não fazia medo a ninguém. Pelo menos aquele grupo de louquinhos sertanejos.
No local indicado, à beira da estrada, o grupo começa a preparar e empunhar suas armas, pois, de longe lá estava a terrível alma. Pé ante pé, o grupo aproximou-se. Cauteloso, cuidadoso e... depara o grupo com uma soberba lã-de-sêda esgarçada e revolta, suas folhas grandes deixando aparecer a parte branca das folhas, terror de muito valente nas estadas que a sua visão, pensava tratar-se de almas penadas, do outro mundo.
Alguns muito corajosos caíram em cima da pobre “alma” com seus varapaus e porretes em poucos minutos deixando apenas a galhada desnuda de folhas, estas juncando ao redor do que houvera sido uma frondosa lã-de-sêda atapetando o solo áspero, agora coberto do leite branco e ácido da pequena plana nativa.
O peito dos “heróis” arfantes pela façanha, agora propagandeava na madrugada, em alarido incontido de adolescentes imaturos as virtudes de cada um e a covardia do pobre Dudé que trânzido de medo não ousou acreditar tivessem “morto” a pobre alma e, por isso mesmo seus tios tiveram de providenciar uma esteira de licurí para que o Dudé dormisse até a manhã seguinte .
Façanha digna de nota, entretanto ocorrera antes com o mesmo Dudé. Sabendo a criançada do terrível medo daquele rapaz, um filho do “Seo Joaquim Brandão, de apelido Nenê-Bosta-Docê partiu uma cumbuca de melancia e depois de retirar todo o suculento do seu interior, fez aberturas em formato de cabeça, olhos, nariz e boca acendendo no seu interior uma vela e colocando na estrada de chão batido por onde adredemente sabia ser passagem obrigatória do Dudé, vindo da casa do seo Manoelinho da Dona Rosinha. Era carreira desabalada que o Dudé dava, não ficando os que assim procediam a espera dos seus irmãos, pois sabiam que a reprimenda vinha de mediato já que eles o protegiam das maldades daquela cambada de desocupados que arreliavam o rapaz.
O mais surpreendente é que, quando o Dudé estava a jogar sinuca no Bar Central do Carlos Pires, ficava com um olho na bola, outro na caçapa, e outro nos vizinhos, pois não tinha alma viva deste mundo que fizesse o Dudé subir a ladeira sozinho, fosse a que hora fosse da noite. Com frequencia o pessoal ficava escondido, procurando sair sorrateiramente, escondendo-se mais adiante onde pregariam baita susto no Dudé.
Pois bem, o seu medo era proverbial chegando a tamanho que se perdesse a “carona” dos seus vizinhos de rua o Dudé só chegava a casa se alguma pessoa caridosa fosse levá-lo.
Dudé vira naquela quinta-feira o lobisomem nu, perdendo seus pelos devagarzinho, porém nesse dia, mistério dos mistérios, o Dudé por ma dessas coisas inexplicáveis não arredou pé de cima da pinguela, enquanto embaixo e, a menos de cinco metros de distância um pobre lobisomem, porrete na mão, dizia impropérios para os infames cachorros que o perseguia. Parado, amedrontado não restava dúvida ao Dudé que assistia e abriu bem os olhos, e viu o lobisomem. Tivera, é verdade, muita sorte uma vez que o bicho não o vira, caso em que estaria irremediavelmente perdido. Na luta para livrar-se dos cães valentes, o lobisomem se esqueceu de olhar a seu redor, nem poderia fazê-lo, antes de livrar-se da matilha enfurecida, empreendeu apressadamente sua fuga adentrando a escuridão, recolhendo antes sua pele sob o braço, o que parecera à testemunha, uma criança enrolada na pele ou em algum tapo de pano tirado da mãe da criancinha. Na semana passada, notícias chegadas da Tapera davam conta de que durante a semana o lobisomem não deixou ninguém dormir, todos apavorados com o trotar do imenso “cachorro” à cata de criancinhas pagãs. Era então verdade que sendo a cidade mais povoada, possivelmente ali estaria para devorar mais criancinhas.
A luz do fifó da casa mais próxima, não deixava, pela sua pobreza, alcançar reflexos de luz. Mas Dudé, testemunha se credibilidade, conseguiu ver claramente quem era o lobisomem de Itiúba. Contando aos pais, estes gritaram conta o filho, perguntando se “ele era doido” de espalhar uma conversa daquelas na cidade. Estariam perdidos.
Verdade que um se tio de nome Mateuzinho testemunhara um dia um certo lobisomem, sendo portanto muito respeitado, porque tivera a coragem de enfrentar com um porrete. Acontecera que a mulher do cidadão tendo viajado para a capital e, sendo o mesmo um chefe político local pretendia dar uma escapulidinha. Justo na noitada de farra sexual, o amasio da Isaltina chega sem aviso obrigando o “lobisomem” a desabalar da casa de Isaltina e do leito de pecados, afundando na estrada, causando alarido na cachorrada que se enfiara atrás do libertino lobisomem que não contava Mateuzinho subindo a ladeira naquela madrugada. Mulato desarnado, pau de toda obra, resolve que aquela será a oportunidade de dar um fim e quebrar a pauta do bicho medonho. Enfrenta o danado do bicho, sacode com força o porrete nos peitos do “lubi” que estanca, adquire voz ... e fala.
Na segunda bordoada do malvado Mateuzinho, pois este só queria mesmo era penalizar o bicho que murmurava e gritava ao mesmo tempo:
-Mateuzinho! Sou eu.
-Eu quem fio de égua?
Passara-se um inferno naquele instante para o infeliz o lobisomem, enquanto Mateuzinho farto de coragem distribuía bordoadas à mão cheia. Acossado de um lado pelos cães açulados, pela sua frente uma barreira intransponível representada por Mateuzinho e seu porrete desastrado, bordoadas batiam fofas nas costas do lobisomem, sem dó nem qualquer piedade.
-Mateuzinho diabo doido. Sou eu, desgraçado.
-Eu quem, fio da puta. Já viu lubi falá?
-Sou eu, Mateuzinho!
- Eu quem, disgraçado?
Mateuzinho quase desmaia de medo e pavor! À sua frente um simpático e desalinhado, mão no peito arfante, voz acabrunhada, medo estampado na face, o chefe político sem palavras para as explicações. Estava descoberto o segredo daquele homem exemplo de virtude e de seriedade, marido de uma das mais belas senhoras da cidade, homem de palavra, mas que cedera às paixões e caprichos da carne, em frêmito e na calorosa paixão. Apaixonara-se por Isaltina, a filha de Esaú, a mula-de-padre que atanazava os sertões.
O segredo de Mateuzinho, agora era partilhado por seu sobrinho Dudé que por ser doido ninguém levava em consideração o que dizia e afirmava. Só aos mais chegados, aos mais amigos, aos mais íntimos, mesmo assim ao pé do ouvido Mateuzinho contava sua história, ao tempo em que repreendia Dudé para que nada falasse a ninguém senão ele iria parar na prisão e jamais sairia de lá.
Setembro de 1987.
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