O que você quer saber sobre História?



Este blog tem como objetivo discutir História, postar artigos, discutir assuntos da atualidade, falar do que ninguém quer ouvir. Então sintam-se a vontade para perguntar, comentar, questionar alguma informação. Este é um espaço livre para quem gosta de fazer História.

sexta-feira, 10 de junho de 2016

MEUS CAROS MÉDICOS

                                        
         Escrevo para dizer a vocês que continuo aqui livre, leve e faceiro. Tive o discernimento de acordar do pesadelo e recusar o desumano tratamento que vocês dão para as pessoas com câncer. Em vez de submeter-me cego e doido, acordei e, simplesmente raciocinei: médicos são seres frios e impessoais movidos por um dinariozinho que ninguém é de ferro.
        Calculei que minha largada do porto, enfunadas as velas, amarradas as poitas, assestado o cabrestante e ajustada a bússola na direção norte, deverá ocorrer dentro de uns quinze a vinte  a dias, podendo até ultrapassar, que nada é fatal neste mundo de projeções. Aí sim, deverei iniciar propriamente a travessia do mar vermelho em direção à praia alva do outro lado, quando aportar serenamente o meu navio.
       Sei que não sentiram muita falta da minha presença lá nos hospitais. Tampouco a sentirão. Afinal de contas pacientes são só pacientes a experimentar, como cobaias, drogas sem comprovação nenhuma cientifica, como meros e expectantes sobreviventes da sorte.
       Estou feliz. Rio da minha vida, embora a doença incomode e cause muito desconforto, pelas dores que são terríveis, não obstante, o desconforto de um modo geral possa ser suportado.
        Não tenho mágoa nem me lastimo de nada. Muito pelo contrário, agradeço a Deus e sou um privilegiado. Mas tenho um segredinho para dizer a vocês e não quero que as pessoa saibam, mas, para tal, preciso falar baixinho aos seu ouvidos;
          “Tenho uma pressa retada de deixar essa vida”. Mantenham segredo.

        

quinta-feira, 9 de junho de 2016

RESTAURANTE E CINEMA DE ITIÚBA.

                          
             Morei em Itiúba a partir de 2005. Um dia parei num restaurante com minha esposa. O horário era do meio-dia, hora de almoço. Pedi certo refrigerante e o cardápio. Estava sentado dentro daquele prédio da minha infância e adolescência, verdadeiro templo de saber e de conhecimento, de diversão e de felicidade.
          O antigo Cine Itiúba do Bertinho!!!
          Minha esposa não deixou de ver minhas lágrimas indisfarçáveis encherem os olhos. Falei para ela, descrevi sons e telas, lugares e recantos como se estivesse menino retornando no tempo e rompendo de volta o espaço na invisibilidade.
          Falei de pessoas entrando e saindo, em especial nos dias de domingo e sábado, dos meus olhos compridos e tristes, na frente do cinema, de quando não tinha dinheiro para pagar o ingresso, das películas, de artistas, de monstros sagrados que se foram de prefixos musicais, de filmes e de tudo que povoou meu imaginário. Falei ainda das noites mágicas e feéricas, de faiscantes lâmpadas, das tabuletas pintadas pelo Isnar, assim como falei do Macambira espalhando-as pelas esquinas centrais.
         Chegou a comida. Comi-a em silêncio. Partimos
         A vida é um “partir” sem fim.


quarta-feira, 1 de junho de 2016

Sobre circos, rumbeiras e palhaços

                         
         Vejo com os olhos   que a terra fria há de comê-los conforme hiperbolicamente e pleonasticamente a língua me permite, dos sentidos aflorados nas recordações, a grande lona de circo sendo montada por mãos calejadas e frontes suadas. A azáfama, o corre corre desesperado para erguer o circo, os carros coadjuvantes se organizando formando uma barreira ao derredor, e, pouco a pouco, aquela estrutura se desenhar no mundo  ocupado pelo circo já erguido.
         Já de tardinha, vejo o palhaço com suas enormes pernas-de-pau, cara pintada com seu nariz vermelho- vivo e calças largas e folgadas num esforço terrível para alcançar as próprias pernas. Vejo meninos de calças curtas ao redor disputando um lugar para sair atrás do palhaço pela cidade anunciando e repetindo aquele refrão velho e engraçado que não sai das mentes dos meninos já adultos. Vejo menino com caras marcadas por cruzes feitas nas testas de óleo e carvão para que não pudesse ser apagado, o cuidado em não tomar banho para não lavar a cara, a mãe verberando que “você não precisa disso”, e vejo meninos enfileirados para reclamar o direito de adentrar ao local, de risos e felicidade, por terem gritado que o “palhaço era um ladrão de mulher” durante toda uma tarde.
       Vejo rumbeiras lindas, sacudindo as ancas febrilmente dançando mambos ao som de bandas anônimas, pernas e coxas grossas e voluptuosas, olhares ávidos, homens de todas as idades com aqueles olhares gananciosos e indisfarçados, quase despudorados, mulheres - esposas absolutamente com as caras amuadas diante, e, na hora das rumbeiras, sublime instante para os nossos pensamentos ainda que pueris na ausencia de poder.
         Vejo o circo nos seus dramalhões formidandos, em Três Atos, o riso e a felicidade, a alegria e os assobios aprovadores. E, finalmente a tristeza de ver a lona ser deitada, transportados todos os utensílios para os trens. Vejo as rumbeiras e trapezistas não tão deslumbrantes em roupas comuns, correndo, carregando filhos e tralhas, para não perderem a hora do embarque rumo a outras praças.
       Vejo o quanto morremos neste existir flegmático, nesse transe de dores, existências vividas e despedidas.
          Assim eram os circos em Itiúba na chegada e na despedida.


quinta-feira, 26 de maio de 2016

UMA QUADRILHA DA PESADA.

                               
          Quem não se escusa de ler um pouco o que se passa no Brasil, descobre, estarrecido, o quanto o Brasil foi seriamente assaltado e vilipendiado por homens que tomaram, ainda que pelo voto, a coisa pública, transformando o país na pocilga mais abjeta e nojenta que se tem noticia.
        Podemos afirmar que uma quadrilha da pesada, ou seja, uma quadrilha que aparelhou o Estado Brasileiro para servir aos propósitos de políticos sem quaisquer escrúpulos, verdadeiros assaltantes a se locupletar, na garantia da impunidade, do que pertence ao bem comum.
          Estarrecidos, assistimos diariamente o noticiário, a publicação em livros e revistas, enfim, em todos os meios de comunicação, desatadas as correias e as correntes da proibição e sem o encanto que elevou os bandidos do Planalto a flanarem desavergonhadamente e com transito livre os cofres da nação.
         Assaltando despudoradamente a nação, o cinismo dessa gente conseguiu rebaixar o Brasil e suas instituições, delinqüentes escondidos e escudados sob um pretenso “esquerdismo,” cujo objetivo consistia em enriquecer mais e mais apaniguados, parentes e detentores de cargos, a mão cheia distribuídos, transformando o exercício do mando em verdadeiras peripécias de bandidos e delinqüentes muito mais cínicos e especializados na sangria que se verificou em todos os níveis.
       É de se notar que tão cedo a mácula abatida sobre os brasileiros e à má fama daí advinda de sermos os mais corruptos da face da terra, não será desmistificada se fosse mero e simples mito, mas a realidade sensível e palpável.
        Bate de frente aquela sensação de esfaqueados e surrupiados por mandatários inescrupulosos, transformando a nação em um templo obscuro onde a “seita lulista” se locupleta e se espalha sobre sua fedentina para espalhar a instabilidade e a descrença de um povo, solapando diuturnamente e lentamente o sentido de nacionalidade, de amor à pátria, de decência em que as instituições precariamente se sustentaram pelo aparelho formidando que a quadrilha de deliquentes montou em desfavor dos brasileiros.
         Resta-nos a esperança e o desespero de recomeçar do zero, de remontar uma nação, e, de encontrar, e, de punir severamente, os culpados; para que possamos voltar a respirar e a reensinar o povo a dignidade e o caminho da seriedade no trato da coisa pública..


O “BURACO DA VOVÓ”!

                                   
        Belos tempos aqueles em que “o buraco da vovó” era apenas uma reentrancia encravada na rocha sólida, formando um paredão que se desenhava contra os céus, nos sertões de Itiúba. Não aquela reentrância das vovós modernosas se exibindo em calendários pseudos modernos em que as vovós que se apresentam em trajes adâmicos, despudoradas, relapsas e absolutamente envaidecidas pelos falsos elogios das suas pudendas partes, outrora chamada íntimas, porém, secretas.
        Refiro-me aqui e agora para os incautos aqueles tempos em que existiam verdadeiros observadores do tempo, ensinados e aprendidos, acostumados e calejados na prática diária e na observação, desvendando fenômenos primários da natureza, tal o aproximar-se das chuvas e das estações.
        “Buraco da vovó” era então, e digo “era”, porque não sei se ainda as pessoas assim conhecem ou chamam, não passava de uma reentrância na montanha de pedra bruta, na “Serra do Encantado”, fazenda do senhor, hoje finadíssimo Ademir Simões, formando uma concavidade aonde, pela abaulada pedra, ficava retida a nevoa por dias e dias. Quando acontecia, era sinal, pelo menos para os sertanejos locais, de que teríamos um ano de chuva e de muita fartura. A neblina trazia um pouco de frio e quedas na temperatura, e os olhares de todos para lá se dirigiam para ver aquele mundo de brancura se desprendendo lentamente na medida em que o sol lançava sobre o buraco seus raios.

        Era um espetáculo de simplicidade. Fugaz, desaparecia demorando-se poucos dias. O “Riacho da Grota” se enchia, lambaris subiam e desciam na sua temporalidade pelo pasto do Valadares e os meninos acorriam para apanhar pequenos peixinhos

SAVEIROS DA BAHIA

                                       
         O ano está cravado e gravado na mente. Era 1957. Chegado dos sertões, o garoto possuía 11 anos de idade e fora trazido com dois intuitos: Conhecer salvador, e os familiares do seu pai.
       A casa era  da Tia Cilu, irmã do meu pai, Joaquim Brandão Cirne, e fica no  outrora aprazível e poético Largo da Ribeira, onde joguei peladas, corri da polícia chamada de Cosme e Damião, de portada  oficialmente, chamada Praça General Justo . Ali o atônito menino sertanejo encontrou, pela primeira vez, mas não a última, a imensidão do mar debruçado na Ribeira e o vai-e-vem dos barcos e saveiros que chegavam trazendo telhas, peixes, farinha, tijolos, areia, cerâmicas de todas as espécies, enfim de tudo quanto aquelas soberbas embarcações podiam transportar. Resumindo: tudo quanto se possa imaginar. O Recôncavo, essa parte que praticamente só existe na Bahia, não conhecia estradas, nem as possuía, nem tinha asfalto, enquanto a Bahia se despontara como grande pólo desenvolvimentista a partir dos anos “50”.
      Aprendi que se chamavam “saveiristas” aqueles mulatos fortes e espadaudos que conduziam aquelas grande embarcações. Todos os dias fiz hábito em ir para o pequeno porto da Ribeira aguardar aqueles homens que traziam de tudo e a li descarregavam afoitamente, retornando aos seu lugares. Nunca fiz amizades com nenhum deles. Os mestres saveiristas como eram conhecidos soçobraram e sucumbiram ao progresso. Hoje a Bahia de todos os Santos quase não permite mais a visão de um saveiro, salvo e rara exceções. O tempo se encarregou e, talvez e certamente o progresso, de afogar e fazer desaparecer aqueles barcos formidáveis que singravam e desafiavam mares e ventos.

       Viajei, em outros tempos, quando já adulto e voltei para Salvador em pequenas viagens de saveiros entre a Ilha de Itaparica, Mar Grande e Salvador. Mas nada que se possa comparar ao período dos saveiros da Bahia.

O HOMEM DA PEDERNEIRA.

                                    

         Não me recordo exatamente o ano. Acho que foi lá pelo ano de 1960. Sei que já se esfumou no tempo e no espaço. Era eu um garoto tomando conta da “venda”, assim era chamado o armazém de secos e molhados dos meus pais, lá nos sertões da Bahia, numa cidade chamada Itiúba.
        De repente entra no estabelecimento um homem de meia idade, vestindo uma capa colonial, chape de feltro e botas caipiras. Aproximou-se e pediu uma jurubeba leão do norte. Servi-o enquanto ele sorveu-a com sofreguidão e sede. Pagou. Parou e retirou do bolso um charuto e um instrumento rudimentar acondicionado num pequeno pedaço de chifre de animal.
        Lembro-me de que tinha no fundo do instrumento um algodão amarelo e encardido, chamuscado e bastante usado. Aquele homem apanhou no mesmo bolso dois pedaços de seixos rolados e começo a bater um no outro poucas vezes. Tinha ele muita prática, e, assim, de repente, a faísca inflamou o chumaço pequeno de algodão. Ele soprou rapidamente e fez-se fogo. Acendeu o charuto. Pagou a bebida, agradeceu-me, despediu-se e desapareceu na bruma do meu tempo.
          Jamais o esqueci. Parecia saído da idade da pedra lascada. Bizarro, aquele senhor deixou-me a impressão de estar vivendo dentro de um mundo seu, o qual se apegara e não conseguia emergir. Podia pedir-me uma caixa de fósforos, acender seu charuto e devolver-me, ou simplesmente podia comprar uma. Não o fez. O homem da pedra lascada, ou polida, ou nas trevas do seu tempo particularizado deixou-me uma déia do quanto  o homem pode adaptar-se e permanecer independente da sociedade e do progresso da ciencia.
        Nunca mais o vi. Era um forasteiro. Ou uma mera ficção da vida!!!

        Assombração, não foi!