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terça-feira, 21 de junho de 2011

JOANINHA E A SEXTA-FEIRA SANTA

Amanhecera o ia, o sol brilhava por trás do cabeço do monte, não obstante o Buraco da Vitória deixasse uns restinhos de fina neblina embrumando a vegetação, dando um toque bem distante de paisagem européia.

Acorriam os mais católicos para o sopé do Morro do Cruzeiro, daí rumando em penosa e estafante subida até alcançar o cimo, aonde plantadas se encontram duas cruzes, restos e sinas da religiosidade da população, visita obrigatória de crentes e incrédulos, mais pelo fato de representar sua subida, ocasião impar para tomar alguns goles de cachaça safada, daquela que matou o guarda, baldeada pelo “seo” Joelzão[1]numa proporção gigantesca de água e outros químicos miseráveis, aumentando o desvario os bêbados e dos infelizes que se arriscavam a beber aquele purgante branco, puro álcool desdobrado.

Fato é quem cada um do adolescente ao velho, da mulher idosa à mocinha, ali todos se encontravam e se regalavam com uns golinhos da cachaça naquelas alturas se assemelhando a fino manjar rebatendo o calor e o aperto no peito pela subida íngreme de mais e 500 metros de pura ladeira cheia de pedregulhos.

Os pequenos grupos de mundanos não se misturavam com os penitentes de verdade que lá se iam a subir o monte da Santa Cruz, destacando-se os que criam, dos que em nada criam, senão pelo passeio e na crença inabalável nas sacanagens que a subida permitia aos mais safados e expertos.

Levavam ex-votos, fitinhas, palhas de licurizeiros amarradas nas cabeças e nos pulsos e, uma vez em cima, na frente do cruzeiro de tosca madeira, após acender velas variadas aos seus pés, amarravam de fitas e palhas de licuri em volta do madeirame, que simbolizava o sacrifício, para a cristandade e para aqueles pobres tabaréus de Itiúba.

De araque eram os visitantes. O que se pretendia mesmo, era só aproveitar os lapões e grotões de rara beleza que a sacanagem sem nexo e muito sexo, sem moral religiosa, preferia se acoitar nas oportunidades. Esgueirando-se por ente fendas fantásticas os mais jovens conseguiam descer para uma espécie de patamar, verdadeira furna alisada e fria pelo mijo dos mocós[2], pelas excrescências de morcegos, merda de calangos, coroços vomitados e cagados por raposas, guaxinins e sariguês.

O teto miraculosamente desafiador das leis da gravidade apresentava uma superfície quase completamente Isa que se ia estreitando paralela e perpendicular ao piso e teto, caprichosamente segura por cunhas feitas pela natureza num espetáculo de rara beleza, embora fugaz na sua extensão, caprichosamente deixada ali pela natureza inexplicável, possivelmente de um período terciário ou da circunvolução da terra, num processo de resfriamento ou de algum cataclismo eras idas.

Os mais velhos e antigos desde os tempos da Vila do São Gonçalo, não deixavam de se perder em elucubrações sobre homens que ali teriam vivido, de Índios Cariacás que a habitaram, nos famosos “causos” que a fantasia nossa não dispensa. Fato é que, para os contemporâneos, a Loca do Cruzeiro possuía além da sua beleza, aprazível, recanto para tomar umas caninhas com as meninas, suspender as saias e vestidos selvagemente, à melhor oportunidade, começar uma libidinagenzinha que não raro levava muitos afoitos aos casamentos precoces.

O sol causticante queimava a pele da sertanejada. Era verdade que a Joaninha estava acostumada a namoricos, não sendo raro um dos garotos que já não tivesse tido a oportunidade de abraçar e apertar Joaninha,pois era das moças da região a mais “falada”[3] e “bassoura” das redondezas, sendo muito desejada não apenas por garotos que He bolinava as têtas duras e intumescidas da Joaninha, conhecida de velhos oitões, das festas de casamento uma vez que a meninada sabia que após as festas de largo, era só esperar Joaninha indo pra casa, que a malandraria já sabia que passado o reflexo dos becos e das ruelas, acabadas as lâmpadas da rua e sua luminosidade, algum rapaz a seguiria até encontrar o primeiro lugar mais escuro e, uma vez alcançada, o convite fatal e a sua aceitação eram favas contadas.

Não foram poucas as vezes em que Joaninha se envolvera com a rapaziada, tendo vezes em que ela era ao mesmo tempo acariciada e abraçada de mi maneiras. Nessas ocasiões juntavam-se vários garotos e faziam tudo quanto era desgraça com a pobre da Joaninha que, estoicamente suportava aquela cambada de safados que lhes enfiavam dedos, apalpavam-lhe o monte de Vênus, introduzam dedos até os grandes lábios e até o ânus, local a preferência da cambada que afinal pertence à Nacionalidade Brasileira. Tirando essas libidinagenzinhas, de chupar e mordiscar os peitinhos da Joaninha, só tinha mesmo era “infinca-pé” da cambada nos oitões das casas onde se realizavam alguma festa, no escurinho especialmente se a festa ou festas realizavam-se em algum casebre da zona rural.

Os pais não deixavam as filhas andassem com a Joaninha porque a cambada que dela se servia espalhava maledicentemente nas redondezas, as misérias com a Joaninha feitas, mas o certo é que ninguém havia ainda bebido, de verdade, do poço de prazer da Joaninha. Naquele túnel que ficaria famoso por várias gerações de calças curtas não havia sentido nada, senão meras e inocentes dedadas que a corja tola da rapaziada inocente se aventurava, muitos capões [4] de “gala rala” que se assombrava e até corriam, mas sonhavam em ter uma mulher de verdade ou mesmo terem de enfrentarem o puteiro do Beco-do-quebra-faca nos concorridos finais de semana, afugentados por bêbados e valentões que faziam as histórias da região e fazia moleque covarde mijar nas calças e não mais importunavam as mulheres do puteiro.Na verdade, a meninada acabava mesmo era na masturbação nossa de cada dia.

Verdadeiro flagelo, que no dizer e no pensamento da rapaziada a “bronha” ou a “punheta[5]” representava o desafogo salvador, havendo punheteiros impenitentes decididamente acostumados à prática até a exaustão.Joaninha se tornara a virgem mais louca deste mundo, desde os seus treze aninhos, muito chegada as carícias e às delícias da moçada, sem, contudo, ter sido possuída por ninguém vez que não se permitia ir até as últimas consequencias.Tinha um limite.

Acostumada a roçar membros nas pernas e coxas, Joaninha cavalgava como poucas, porém nada de “nudo[6] com nudo”, muito menos penetração peniana, fazendo a exigência de ter de ser mito rápido, pois achava arriscado fazer filho e, sem tirar a calcinha, caso contrário teria de casar. Preventiva a moça. Reconhecia na sua promiscuidade que não tinha senão o desejo de sentir-se feliz e aliviada, assim praticando suas aventuras sexuais, igualmente porque estava convencida de que era “gostosa” e não podia deixar seus namorados sem se satisfazerem. O diabo era descobrir quais namorados, isto porque, Joaninha, Godiva dos trópicos necessitava de um batalhão inteiro para satisfazer os seus prazeres deixando os rapazes todos loucos, porém sem permitir que enfiassem nela, senão dedos e mais nada. Na hora da verdade ela afastava o cabra com um safanão, saía loucamente e desabrida carreira, ajeitando califon, calçola mal vestida e puxando o vestido para o lugar correto.

Desde os treze anos a gata desejada e perseguida por efebos e também por cidadãos circunspectos e velhos pais de família, acima de qualquer suspeita, porque queriam por que queriam, enrabar aquela bichinha, sentir a pobrezinha se estrebuchar dando adeus ao cabaço, tão tocado e de tantos bons serviços prestados na região.

Joaninha subira o Cruzeiro

Por trás das pedras alguns rapazes olhavam entre curiosos e voluptuosos, casais escapados da multidão, burlando parentes e responsáveis, buscavam aqueles plagos para os acasalamentos tão condenados pela igreja católica que, no entanto não conseguia refrear nem frear o ímpeto os sexos em brasa embalados pelas doses de cachaça tapa-de-capuco do “seo’ Joel Grande. Muitos acusavam a cachaça dele como se fosse a culpada daquilo tudo, eis que sob os efeitos da cachacinha que “matou o guarda” a cambada descia para o frenesi incontrolável dos corpos em ardências dos sentimentos, especialmente naquela época de tabus e dogmas proibidos, criados por cada família, sendo o ato sexual verdadeira peripécia, sendo seu autor, não raro, observado e ovacionado como se fosse um animal raro, ato heróico que era o sexual.

Joaninha Pelelê, encarnação da mulher que nascera para ser puta na extensão da palavra, por isso desde os seus primeiros anos de moiçola, quando já trouxera da Fazenda Grotão onde nascera e se criara, a marca que a acompanhara até os seus dias de borboleta dos bordeis miseráveis, de Queimadas a Itiúba; de Itiúba a Senhor do Bonfim; de Picos ao Quicé e de Camandaroba ao Cansanção.

Naquela sexta-fera santa um grupo de rapazes olhava o Chico Perninha, malandro, caboclo fogoso e conquistador apalpando por trás do vestido, derreados sobre aquelas pedras a bunda pequena e farta de Joaninha. Mordiscava os lábios carnudos, pintados em tom vermelho super forte, enquanto uma das mãos louca bailava ao redor dos seios intumescidos da mulher de pouco mais de dezenove anos de idade, com toda a voluptuosidade dos corpos em brasa rolando sobre as pedras lisas e frias daquela furna do Cruzeiro.

Olhos fitos, a molecada pregada naquele casal, assistia espetáculo de rara beleza em que os corpos se desnudavam lentamente, milímetro a milímetro, Joaninha se esforçando para não ceder ou pelo menos fazer de contas, embora querendo que tudo acontecesse. Chico malandro sem pressas, pressionando a fêmea, narinas dilatadas, ancas da Joaninha já à mostra, a bundinha virgem ou semi virgem começando a aparecer, as roliças e esguias pernas a deixar uma nesga da calçola (assim se chamava a roupa íntima da mulher), enquanto a polpa carnuda da bunda da Joaninha aparecia escondendo a borda da perna da calçola, afetada a elasticidade nas dobras da pele, Chico safado resfolegando numa linguagem de amante, instando a moça para a cópula, mil promessas de casamento, de comprar aquela casa bonita e botar ela como sua empregada.

Num gesto mais brusco, o homem consegue desafivelar o cinturão grosso de couro cru e os botões da calça (barriguilha) saltam, e o Chico com as narinas dilatadas, roçando contra Joaninha que já estava com o vestido chitado de bolinhas vermelhas e cavalinhos suspenso até a altura dos peitos, avidamente a anágua dura e engomada, de fustão branco com rendinhas cor de rosa estava sendo arrancado pelos pés de Joaninha que vendo e sentindo seu corpo colado ao do Chico, não mais escoiceava nem se debatia ante os arroubos do garanhão fogoso, sendo e estando absolutamente cúmplice, aquela altura, fogosa donzela, fêmea em desalinho para a posse do macho louco e urrante, apagaram-se as conveniências sociais que caíam por terra, dando lugar somente ao desejo ardente e a busca do prazer que era mais importante, embotando qualquer sentimento de rejeição, sem ao menos pensar no que viria depois, saciada da sede de sexo .

Latejante aquele caboclo aprumou o membro, procurou virar a mulher que se abria toda, forçou o busto e dirigiu por entre as pernas da morena Joaninha. Estática sem mais oferecer resistência, cedera. Olhos cerrados, pernas semi dobradas, braços languidamente jogados sobre as pedras que lhes serviam de leito, enquanto o macho cioso ajeitava com a mão o ereto membro dirigindo com o indicador a entrada do túnel de prazer da Joaninha, desvirginando-a.

Olhares de tristeza e decepção perpassaram pela molecada que aprendeu como tratar uma mulher. Naquele dia, frustrados e sem comentários a molecada desprezada pela Joaninha desceria do Alto do Cruzeiro. Joaninha decaíra das alegrias deles.

***

Itiúba, 1971

JOANINHA E A SEXTA-FEIRA SANTA.

Amanhecera o ia, o sol brilhava por trás do cabeço do monte, não obstante o Buraco da Vitória deixasse uns restinhos de fina neblina embrumando a vegetação, dando um toque bem distante de paisagem européia.

Acorriam os mais católicos para o sopé do Morro do Cruzeiro, daí rumando em penosa e estafante subida até alcançar o cimo, aonde plantadas se encontram duas cruzes, restos e sinas da religiosidade da população, visita obrigatória de crentes e incrédulos, mais pelo fato de representar sua subida, ocasião impar para tomar alguns goles de cachaça safada, daquela que matou o guarda, baldeada pelo “seo” Joelzão[7]numa proporção gigantesca de água e outros químicos miseráveis, aumentando o desvario os bêbados e dos infelizes que se arriscavam a beber aquele purgante branco, puro álcool desdobrado.

Fato é quem cada um do adolescente ao velho, da mulher idosa à mocinha, ali todos se encontravam e se regalavam com uns golinhos da cachaça naquelas alturas se assemelhando a fino manjar rebatendo o calor e o aperto no peito pela subida íngreme de mais e 500 metros de pura ladeira cheia de pedregulhos.

Os pequenos grupos de mundanos não se misturavam com os penitentes de verdade que lá se iam a subir o monte da Santa Cruz, destacando-se os que criam, dos que em nada criam, senão pelo passeio e na crença inabalável nas sacanagens que a subida permitia aos mais safados e expertos.

Levavam ex-votos, fitinhas, palhas de licurizeiros amarradas nas cabeças e nos pulsos e, uma vez em cima, na frente do cruzeiro de tosca madeira, após acender velas variadas aos seus pés, amarravam de fitas e palhas de licuri em volta do madeirame, que simbolizava o sacrifício, para a cristandade e para aqueles pobres tabaréus de Itiúba.

De araque eram os visitantes. O que se pretendia mesmo, era só aproveitar os lapões e grotões de rara beleza que a sacanagem sem nexo e muito sexo, sem moral religiosa, preferia se acoitar nas oportunidades. Esgueirando-se por ente fendas fantásticas os mais jovens conseguiam descer para uma espécie de patamar, verdadeira furna alisada e fria pelo mijo dos mocós[8], pelas excrescências de morcegos, merda de calangos, coroços vomitados e cagados por raposas, guaxinins e sariguês.

O teto miraculosamente desafiador das leis da gravidade apresentava uma superfície quase completamente Isa que se ia estreitando paralela e perpendicular ao piso e teto, caprichosamente segura por cunhas feitas pela natureza num espetáculo de rara beleza, embora fugaz na sua extensão, caprichosamente deixada ali pela natureza inexplicável, possivelmente de um período terciário ou da circunvolução da terra, num processo de resfriamento ou de algum cataclismo eras idas.

Os mais velhos e antigos desde os tempos da Vila do São Gonçalo, não deixavam de se perder em elucubrações sobre homens que ali teriam vivido, de Índios Cariacás que a habitaram, nos famosos “causos” que a fantasia nossa não dispensa. Fato é que, para os contemporâneos, a Loca do Cruzeiro possuía além da sua beleza, aprazível, recanto para tomar umas caninhas com as meninas, suspender as saias e vestidos selvagemente, à melhor oportunidade, começar uma libidinagenzinha que não raro levava muitos afoitos aos casamentos precoces.

O sol causticante queimava a pele da sertanejada. Era verdade que a Joaninha estava acostumada a namoricos, não sendo raro um dos garotos que já não tivesse tido a oportunidade de abraçar e apertar Joaninha,pois era das moças da região a mais “falada”[9] e “bassoura” das redondezas, sendo muito desejada não apenas por garotos que He bolinava as têtas duras e intumescidas da Joaninha, conhecida de velhos oitões, das festas de casamento uma vez que a meninada sabia que após as festas de largo, era só esperar Joaninha indo pra casa, que a malandraria já sabia que passado o reflexo dos becos e das ruelas, acabadas as lâmpadas da rua e sua luminosidade, algum rapaz a seguiria até encontrar o primeiro lugar mais escuro e, uma vez alcançada, o convite fatal e a sua aceitação eram favas contadas.

Não foram poucas as vezes em que Joaninha se envolvera com a rapaziada, tendo vezes em que ela era ao mesmo tempo acariciada e abraçada de mi maneiras. Nessas ocasiões juntavam-se vários garotos e faziam tudo quanto era desgraça com a pobre da Joaninha que, estoicamente suportava aquela cambada de safados que lhes enfiavam dedos, apalpavam-lhe o monte de Vênus, introduzam dedos até os grandes lábios e até o ânus, local a preferência da cambada que afinal pertence à Nacionalidade Brasileira. Tirando essas libidinagenzinhas, de chupar e mordiscar os peitinhos da Joaninha, só tinha mesmo era “infinca-pé” da cambada nos oitões das casas onde se realizavam alguma festa, no escurinho especialmente se a festa ou festas realizavam-se em algum casebre da zona rural.

Os pais não deixavam as filhas andassem com a Joaninha porque a cambada que dela se servia espalhava maledicentemente nas redondezas, as misérias com a Joaninha feitas, mas o certo é que ninguém havia ainda bebido, de verdade, do poço de prazer da Joaninha. Naquele túnel que ficaria famoso por várias gerações de calças curtas não havia sentido nada, senão meras e inocentes dedadas que a corja tola da rapaziada inocente se aventurava, muitos capões [10] de “gala rala” que se assombrava e até corriam, mas sonhavam em ter uma mulher de verdade ou mesmo terem de enfrentarem o puteiro do Beco-do-quebra-faca nos concorridos finais de semana, afugentados por bêbados e valentões que faziam as histórias da região e fazia moleque covarde mijar nas calças e não mais importunavam as mulheres do puteiro.Na verdade, a meninada acabava mesmo era na masturbação nossa de cada dia.

Verdadeiro flagelo, que no dizer e no pensamento da rapaziada a “bronha” ou a “punheta[11]” representava o desafogo salvador, havendo punheteiros impenitentes decididamente acostumados à prática até a exaustão.Joaninha se tornara a virgem mais louca deste mundo, desde os seus treze aninhos, muito chegada as carícias e às delícias da moçada, sem, contudo, ter sido possuída por ninguém vez que não se permitia ir até as últimas consequencias.Tinha um limite.

Acostumada a roçar membros nas pernas e coxas, Joaninha cavalgava como poucas, porém nada de “nudo[12] com nudo”, muito menos penetração peniana, fazendo a exigência de ter de ser mito rápido, pois achava arriscado fazer filho e, sem tirar a calcinha, caso contrário teria de casar. Preventiva a moça. Reconhecia na sua promiscuidade que não tinha senão o desejo de sentir-se feliz e aliviada, assim praticando suas aventuras sexuais, igualmente porque estava convencida de que era “gostosa” e não podia deixar seus namorados sem se satisfazerem. O diabo era descobrir quais namorados, isto porque, Joaninha, Godiva dos trópicos necessitava de um batalhão inteiro para satisfazer os seus prazeres deixando os rapazes todos loucos, porém sem permitir que enfiassem nela, senão dedos e mais nada. Na hora da verdade ela afastava o cabra com um safanão, saía loucamente e desabrida carreira, ajeitando califon, calçola mal vestida e puxando o vestido para o lugar correto.

Desde os treze anos a gata desejada e perseguida por efebos e também por cidadãos circunspectos e velhos pais de família, acima de qualquer suspeita, porque queriam por que queriam, enrabar aquela bichinha, sentir a pobrezinha se estrebuchar dando adeus ao cabaço, tão tocado e de tantos bons serviços prestados na região.

Joaninha subira o Cruzeiro

Por trás das pedras alguns rapazes olhavam entre curiosos e voluptuosos, casais escapados da multidão, burlando parentes e responsáveis, buscavam aqueles plagos para os acasalamentos tão condenados pela igreja católica que, no entanto não conseguia refrear nem frear o ímpeto os sexos em brasa embalados pelas doses de cachaça tapa-de-capuco do “seo’ Joel Grande. Muitos acusavam a cachaça dele como se fosse a culpada daquilo tudo, eis que sob os efeitos da cachacinha que “matou o guarda” a cambada descia para o frenesi incontrolável dos corpos em ardências dos sentimentos, especialmente naquela época de tabus e dogmas proibidos, criados por cada família, sendo o ato sexual verdadeira peripécia, sendo seu autor, não raro, observado e ovacionado como se fosse um animal raro, ato heróico que era o sexual.

Joaninha Pelelê, encarnação da mulher que nascera para ser puta na extensão da palavra, por isso desde os seus primeiros anos de moiçola, quando já trouxera da Fazenda Grotão onde nascera e se criara, a marca que a acompanhara até os seus dias de borboleta dos bordeis miseráveis, de Queimadas a Itiúba; de Itiúba a Senhor do Bonfim; de Picos ao Quicé e de Camandaroba ao Cansanção.

Naquela sexta-fera santa um grupo de rapazes olhava o Chico Perninha, malandro, caboclo fogoso e conquistador apalpando por trás do vestido, derreados sobre aquelas pedras a bunda pequena e farta de Joaninha. Mordiscava os lábios carnudos, pintados em tom vermelho super forte, enquanto uma das mãos louca bailava ao redor dos seios intumescidos da mulher de pouco mais de dezenove anos de idade, com toda a voluptuosidade dos corpos em brasa rolando sobre as pedras lisas e frias daquela furna do Cruzeiro.

Olhos fitos, a molecada pregada naquele casal, assistia espetáculo de rara beleza em que os corpos se desnudavam lentamente, milímetro a milímetro, Joaninha se esforçando para não ceder ou pelo menos fazer de contas, embora querendo que tudo acontecesse. Chico malandro sem pressas, pressionando a fêmea, narinas dilatadas, ancas da Joaninha já à mostra, a bundinha virgem ou semi virgem começando a aparecer, as roliças e esguias pernas a deixar uma nesga da calçola (assim se chamava a roupa íntima da mulher), enquanto a polpa carnuda da bunda da Joaninha aparecia escondendo a borda da perna da calçola, afetada a elasticidade nas dobras da pele, Chico safado resfolegando numa linguagem de amante, instando a moça para a cópula, mil promessas de casamento, de comprar aquela casa bonita e botar ela como sua empregada.

Num gesto mais brusco, o homem consegue desafivelar o cinturão grosso de couro cru e os botões da calça (barriguilha) saltam, e o Chico com as narinas dilatadas, roçando contra Joaninha que já estava com o vestido chitado de bolinhas vermelhas e cavalinhos suspenso até a altura dos peitos, avidamente a anágua dura e engomada, de fustão branco com rendinhas cor de rosa estava sendo arrancado pelos pés de Joaninha que vendo e sentindo seu corpo colado ao do Chico, não mais escoiceava nem se debatia ante os arroubos do garanhão fogoso, sendo e estando absolutamente cúmplice, aquela altura, fogosa donzela, fêmea em desalinho para a posse do macho louco e urrante, apagaram-se as conveniências sociais que caíam por terra, dando lugar somente ao desejo ardente e a busca do prazer que era mais importante, embotando qualquer sentimento de rejeição, sem ao menos pensar no que viria depois, saciada da sede de sexo .

Latejante aquele caboclo aprumou o membro, procurou virar a mulher que se abria toda, forçou o busto e dirigiu por entre as pernas da morena Joaninha. Estática sem mais oferecer resistência, cedera. Olhos cerrados, pernas semi dobradas, braços languidamente jogados sobre as pedras que lhes serviam de leito, enquanto o macho cioso ajeitava com a mão o ereto membro dirigindo com o indicador a entrada do túnel de prazer da Joaninha, desvirginando-a.

Olhares de tristeza e decepção perpassaram pela molecada que aprendeu como tratar uma mulher. Naquele dia, frustrados e sem comentários a molecada desprezada pela Joaninha desceria do Alto do Cruzeiro. Joaninha decaíra das alegrias deles.

***

Itiúba, 1971



[1] - Todos os nomes e referencias aqui feitas, são fictícios para evitar quaisquer constrangimentos com os personagens que são reais. Qualquer semelhança com pessoas ou lugares,acaso identificados, trata-se e é, mera coincidência. (N. do Autor).

[2] -“Mocó” é uma espécie de roedor muito abundante nos sertões e que fazem abrigos nas pedreiras, semelhante a um preá (porquinho da Índia. (N. do Autor).

[3] - Por “moça falada”, nos sertões indica mulher de pouca boa fama ou de nenhuma boa fama, açulada, afoita e sem normas sociais a obedecer. (N. do Autor).

[4] - Por” capões”, nos sertões, são conhecidos os rapazes que nunca tiveram relações sexuais. (N. do Autor).

[5] - Os termos indicam o ato da masturbação masculina. O termo “punheta” vem do uso dos punhos, daí o significado. (Nota do Autor)

[6] - a expressão nudo com nudo quer dizer, com nudez de ambos os parceiros. (N. do Autor)

[7] - Todos os nomes e referencias aqui feitas, são fictícios para evitar quaisquer constrangimentos com os personagens que são reais. Qualquer semelhança com pessoas ou lugares,acaso identificados, trata-se e é, mera coincidência. (N. do Autor).

[8] -“Mocó” é uma espécie de roedor muito abundante nos sertões e que fazem abrigos nas pedreiras, semelhante a um preá (porquinho da Índia. (N. do Autor).

[9] - Por “moça falada”, nos sertões indica mulher de pouca boa fama ou de nenhuma boa fama, açulada, afoita e sem normas sociais a obedecer. (N. do Autor).

[10] - Por” capões”, nos sertões, são conhecidos os rapazes que nunca tiveram relações sexuais. (N. do Autor).

[11] - Os termos indicam o ato da masturbação masculina. O termo “punheta” vem do uso dos punhos, daí o significado. (Nota do Autor)

[12] - a expressão nudo com nudo quer dizer, com nudez de ambos os parceiros. (N. do Autor)

segunda-feira, 20 de junho de 2011

CARMINHA VAI À ZONA

Os puteiros mau iluminados da Cacimba Funda, subindo pelo Alto do Calumbi e alcançando o Beco-do-quebra-faca viveriam naquela sábado de aleluia um dos momentos mais críticos e incríveis. Os bêbados parariam por momentos, a cachaça não desceria a glote, o engasgo seria fatídico e as putas não receberiam nenhum homem “pro durante menos de uma hora”. A notícia espalhara-se como se fogo de rastilho queimando pólvora e, um barril de maledicência rolaria de ponta a ponta, de casa em casa, de leito em leito, de família em família.

Os malandros agora já podiam disputar quem teria o privilégio de usufruir, como felizardo, de “traçar” dona Carminha. Estivera ela de passagem por sua vida de mulher casada, mas agora, pelo visto, resolvera soltar sua vocação reprimida, Semana passada fora vista em alguns bares bebendo cervejas e doses de conhaque de alcatrão de São João da Barra, coisa que causava espécie a qualquer mulher do seu tempo que entrasse em bares de qualquer cidadão e fizesse uso de bebidas.


No Alto do Calumbi, Maria Costeleta, famosa mulher de vida boêmia estranhara que naquele sábado de aleluia os patifes não apareciam na sua casa para a fornicação de todos os fins de semana, quando padeiros, vaqueiros, cachaceiros e viajantes, além de empregados do comércio que lá compareciam para usufruir, em filas bem comportadas sua vez de “enfiar bronca” na mulherada. Faziam-se filas para ver quem voltaria para casa após receber um pouco do “carisma” da meretriz. Algo estava errado, pois já passava das nove da noite e ninguém aparecia. Botando a cabeça fora da janela sua vizinha e companheira, lá estava sob a réstia do bibiano, de nome Donízia, braços cruzados apoiados na janela, olhar perdido e vago na imensidão da escuridão do pouco habitado Calumbi.


Maria Costeleta por sua vez saindo à janela foi interrogada por Dionízia sobre as razões de tanta ausência de “fregueses” naquela note.


Lelé estava no mesmo dia com sua casa vazia. Lamentava para Dionízia a situação, todas achando estranha tamanha situação, resolvendo mandar um seu filho menor de idade dar uma volta de bicicleta pela Cacimba Funda para que pudesse olhar de longe as casas. O menino corre de casa em casa, bordel em bordel e não avista movimento algum, retornando para dar a notícia para a mãe e a Dionízia.


A coisa era mais embaixo. Dazio não aparecera para beber cachaça nem descobrir alguma nova mulher que lhe aguntasse com a sua “estupidez humana”, comprazendo em desafiar aquelas infelizes ara fazer sexo e receber “tudo”.Homem extremamente bem dotado fisicamente, com um pênis que se dizia de fazer inveja às raças cavalares, era o terror e a inveja de muitos que acreditava que as mulheres só sentiam prazer com as dimensões descomunais dos seus membros. Poucos se importavam com o prazer, contanto que tivessem membros avantajados.


É verdade que as mulheres que serviam para as suas satisfações, eram, na sua exclusiva maioria, ninfomaníacas e anormais, mulheres chamadas de “vida fácil, as ditas meretrizes que haviam sofrido todos os tipos de sofrimentos, havendo até mesmo aquelas que se exercitavam e possuíam, também , a fama de serem as únicas que transavam com o Dazio. Bem verdade as que com ele transavam tinham sido vítimas de soldados e prisões onde, por motivos de prostituição em outras cidades, sofriam as mais sérias perversões, sendo nelas introduzidos porretes, cassetetes de borracha, mormente naquelas cidades aonde as meretrizes ficavam na zona central das cidades, transformadas em vítimas de chefes políticos que no afã de afastá-las mandavam e ordenavam que se fizessem toda sorte de barbaridades contra as infelizes.


Eram normais como qualquer mulher, mas poderiam suportar qualquer homem e terem prazer mais que, num sadomasoquismo infernal, recebendo a cada prisão cassetetes de borracha empurrados em suas vaginas que iam alargando membros e tendões. Terminando por criar verdadeiras aberrações de natureza sexual, havendo até mesmo aquelas que preferiam sair da cidade em cidade fazendo apostas, a desafiar homens avantajados para poderem ganhar polpudas quantias, senão teriam, a falta destes, de contentarem-se em comprar nas farmácias, muita pedra ume preparando banhos, forçando a que as paredes da vagina recolhessem, tornando-se espécies de semi virgens, mas falsas, para os apetites sexuais e os prazeres luxurientos da freguesia.


Era pois o Dazio um desses seres famosos e respeitados pelos seus dotes “cavalares” côo então se dizia, rapaz humilde, carregador de caminhões nas horas em que estava de folga, aqui entendido quando não estava bebendo nos puteiros da cidade.


Lelé não estava acreditando; Dionízia estava incrédula; o filho de Lelé não estava mentindo nem Maria Costeleta não estava doida, a coisa transcorria toda no Beco-do-quebra-faca tradicional zona de prostituição onde “seo” Pompílio alugava a maioria das casas para as putas fazerem as delícias da clientela.


Desnecessário dizer que naqueles dias não se tinha essas histórias de amor livre, noivo só tocava na “xeca” da noiva no dia do casamento e após, namorado quando cheirava a “bichinha” tinha que correr no outro dia para a casa dos pais da engraçada moça e dizer que queria casar com pressa, no fim do mês, porque queria r para São Paulo, de sorte que ninguém podia botar uma barriguinha com a filha do fulano, senão a coisa tomava rumos imprevisíveis, ou melhor previsível, do casamento ou da castração.


Tornaram-se pois os puteiros lugares naturais onde a rapaziada ia esquentar o “ferro”, transar com a mulherada transformando aqueles lugares movimentados e concorridos.Mas lá para as bandas do Beco –do- quebra- faca havia um imenso burburinho só, todas as putas em polvorosa enquanto os homens paravam em bochichos. Escurinho do Grotão, cabra valente e respeitado boêmio da zona com seu facão dezoito polegadas enfiado por dentro das calças folgadas de brim comprado na loja do “seo” augusto Moura, naquela noite filosofava enquanto descansava o largo cotovelo esquerdo sobre o balcão da casa de Joaninha Pelelê, dizendo para seus companheiros de farra, especialmente Dandu Cachacinha que “quem nasceu pra cavalo de carga, não podia ser esquipador”, entre sorvos de cachaça, álcool desdobrado com água do “seo” Joel Grande da rua dos Aristas, a famosa cachaça “mata guarda” ou “tampa de capuco”. Assim o burburinho ia escorregando, os chistes maldosos desciam até às pedras cabeça- de- nêgo, tomando rumo da Cacimba Funda, levantando quem já estava deitado, e, acordando quem já dormia, para acorrer ao Beco-do-quebra-faca para ver a novidade que os incrédulos não queriam acreditar ou simplesmente desejavam tão somente constatar quais Tomés da vida moderna.


O desvario social que costuma envolver as pessoas, não fala apenas e tão apenas, a mera solidariedade. O interesse mórbido das situações provoca a neurose latente nas pessoas em sociedade indo além da simples curiosidade. Antes, as massas ignaras buscam apenas a veracidade, constatando apenas para que seus olhos curiosos, possam comprazer com as misérias, tirando motivos desses fatos e vangloriando-se como vingança.


De repente, parada, estática e com uma garrafa de jurubeba Leão do Norte na mão, lá estava Maria-do-Ló na esquina a oferecer aos homens goles gratuitos, apregoando que assim estava procedendo porque naquela noite, toda especial, o Beco assistiria um espetáculo de rara oportunidade e que uma madame ia deixar a rua de casa e ouro para se tornar uma “puta”. A meretriz alegrava-se em sabe que dentro em breve, igualzinho a elas, uma senhora estaria vendendo o corpo e experimentando, no seu linguajar chulo, os sofrimentos que as mulheres de vida livre e fácil experimentam no seu dia a dia.


Todos já sabiam que a rua seria um silencio só e que os olhares estariam todos pregados sobre um casal ou uma pessoa só, embora a aura de mistério perpassasse em todos, entre estupefatos e incrédulos, entre crédulos e ciosos da verdade.


Ouviu-e um grito quase em uníssono. Chegaria ali uma mulher que a vulgaridade do ambiente proclamava uma linda mulher milionária que tinha deixado de ser casada e respeitada ara ser uma mulher dama,de vida fácil. A voz geral chamava e convocava aquelas almas do desespero, para que assistissem o espetáculo que não seria esquecido por longos anos.


Instante a instante alguém botava a cara na porta como se conferisse se já estava chegando. De repente, Macambira dá o alarma cheio de alegria e contentamento. Na penumbra do beco escuro e mau iluminado, uma sombra desenhou no que restava de visão indo bater diretamente na casa de comércio da esquina, de Pedro do Cansanção. Ao longe não dava para identificar nem de quem se tratava. Ao seu lado, cadenciado, caminhava um garoto de pouco mais de dezoito anos. O casal adentrou ao Beco-do-quebra-faca, andando sempre pelo meio do calçamento, a mulher de cabeça baixa conversava alto sobre os motivos e o rapazinho foi se chegando para o boteco da Isaura, antes passando pelo boteco da mãe do Mudo, e entraram.


Alguns sentados no ambiente sem iluminação ficaram estáticos e outros, perplexos. Ali estavam homens e mulheres que aguardavam pressurosos os acontecimentos.


_Isaura, me dá dois conhaques de alcatrão de são João pingado e com limão. Disse Carminha.


A velha meretriz apanhou o candeeiro e aproximou junto do casal parado ao pé do balcão, voltou as costas para o casal retornando com dois pequenos copos de vidro ensebados, sujos e fedendo a cachaça. Ao levantar as vistas amiudadas para o casal seus olhos pareciam não querer acreditar. Muda parada, cheia de vergonhas, pouco a vontade naquele ambiente a mulher não ousava olhar para os circunstantes e comprimia-se na sua prova de fogo. A luz da candeia soprada pelo vento que entrava pela porta do puteiro bateu na tez alva e bem cuidada da mulher.


Amiudou os olhos novamente a velha Isaura. No refletido dos olhos negros da mulher, a luz baça e rubra do candeeiro fifó, revelou para todos, uns olhos tímidos e ainda bonitos de D. Carminha.


Carminha já estava na zona.


****



Max B. Cirne Fevereiro, Itiúba, 1970.



1- Por “bibiano” entende-se uma espécie de lamparina muito usada nos sertões, alimentada a querosene, de luz avermelhada, em substituição a energia hidráulica, ainda não chegada na cidade. (N. do Autor).



2 - O autor faz referencia a diversos sinônimos como ainda hoje são denominadas as cachaças ordinárias que se vendem nos sertões, e eram engarrafadas na cidade. (N. do Autor).

UM MAESTRO DA PESADA



Clarindinho subindo a ladeira da pequena rua estava visivelmente embriagado. Na proporção do seu caminhar bamboleante, dava dois passos para a frente, e dois para trás, como se a desafiar a lei da gravidade na comicidade que termina por transformar as criaturas alcoolizadas. Chorava e falava sozinho, pouco importando as pessoas, essas já acostumadas àquela situação do Clarindinho.
Pai de família, não fosse a cachaça que entornava a qualquer dia da semana, poder-se-ia dizer, exempla. Homem pobre, não bastante a cachaçada sua família era tratada com muito carinho e seriedade e, pelo fato de ser um “bom copo”, no dizer da galera um bebedor inveterado, não deixava de prover as necessidades. Dava-se o caso que já com o sangue acumulado com álcool, não bebia tanto em quantidade quanto em qualidade, mas apenas tomava “duas doses de nada”e o pobre já estava pra lá de marrraqueche, reacendia naquele bom homem o fogo dos seus idos anos quando conquistou uma bela mulher, formando um feliz casamento, embora a pobreza lhe fosse a madrasta da vida.
Formara com a mulher uma linda prole de rapazes e moças bonitos, colocara todos na escola para os estudos, mas não chegaram nem mesmo a terminar o primário, alguns casando, outros arranjando filhos espúrios, e tornando-o um avô precoce.
Não foi, pois, a cachaça, dir-se-ia um pai exemplar, não que a bebedice não possa impedir de ser um pai carinhoso, tal o caso do nosso personagem, mas porque dava sua bebedeira, exemplo não muito apreciado para os filhos. Embora discutível Clarindinho não deixava a família passar fome acorrendo às outras necessidades, arrancando do seu trabalho humilde o pão e o sustento familiar.
Bem verdade que neste mundo todos bebem suas “cruacas” pouco importando a condição social e moral. Via sempre os ricos bebendo uísque importado, com pedrinhas de gelo, e via que muitos engoliam litros e mais litros, e ele aí na sua cachaça de álcool desdobrado. Outros já menos afortunados, tal o caso do Clarindinho, bebiam garrafas e mais garrafas de cervejas e, por que então, logo ele não haveria de sentir a garganta coçando e ardendo à passagem da cachacinha malvada de todo dia?Se bebia era porque gostava e, ademais, não era ele maior, casado, eleitor, brasileiro e vacinado? Pois, pois.
Como a bebedeira fazia-o caminhar em ziguezague, também possuía uma característica que era a de chorar como uma criança tomada sua guloseima, tornando-se um sufoco no outro dia quando passava em direção ao trabalho. Cabeça baixa, olhar pregado no chão, não suspendia a vista nem a cabeça virava para ninguém, não dava um bom dia, nem desgrudava as vistas do caminho. Talvez se mostrasse arrependido e envergonhado do papelão do dia anterior. Envergonhado o dia seguinte, cara limpa, não ousava encarar as pessoas. Mas, logo ao meio-dia ou à tardinha, tudo se repetia com o Clarindinho subindo o caminho que dava para a sua casa, três passos pra frente, dois passos para trás, dois para os lados e outros para acertar o caminho. Três pra frente e dois para os lados no seu caminhar cômico e muito tropecento, sem ranços de valentes de cachaça, ou em ranços incômodos. Não soltava nem dava palavrões nem desrespeitava famílias. Quando muito, um comentário dos seus vizinhos que reconheçam nele um homem extremamente sério, não tendo notícia de ter comprado fiado e não ter honrado com o pagamento. Sua cachacinha bem comportada, sem brigas e sem palavrões, se dava mesmo era no pé dos balcões, acostumado a abrir os dentes em risadas desconexas pelos efeitos etílicos.
Na pracinha da cidade armavam-se barraquinhas de quermesse, feitas de folhas de cariris, enquanto a moçada organizada recolha fundos, numa tentativa da igreja angariar fundos que serviriam para custear obras do templo ou até mesmo para a manutenção do pároco. Oito de dezembro marcava a data da padroeira da cidade. Lá no meio da pracinha um coreto bem ornamentado e, em cima dele, na a imponência das suas fardas, a Filarmônica da Polícia Militar de Juazeiro que vinha todos os anos tocar retretas e dobrados, tornava a festa mais bela, animada e concorrida.
A pracinha toda engalanada como só antigamente se viam essas coisas, recebia o capricho da carolada que se desvanecia em preparos e arranjos na festa do largo, ocasião em que, vez ou outra ocorria o baile, também na sociedade 2 de Julho, clube recreativo do escol da cidadezinha apagada e triste.
Naquele dia algo novo marcaria para sempre todos os habitantes da cidade. O tenente-maestro da banda tinha ido almoçar na casa de “seo” Batista, amigo muito chegado e compadre de Clarindinho, que afinal não era ele um desarvorado de amigos deste mundo. Batista, cujo convite soara com muita alegria, lá estava o tenente maestro na sua vistosa e impecável farda a entabular conversa. Logo mais, às vinte horas, a banda teria de começar a tocar músicas do repertório variado embelezando, alegrando e animando aquela gente. Após o almoço o maestro teve um leito oferecido pelo anfitrião sendo de pronto aceito pelo bom maestro que caiu pesadamente sobre, adormecendo o sono dos justos, sem pesadelos ou sustos.
Clarindinho que gozava da intimidade da casa de Batista, seu compadre, chegara mais ou menos às dezoito horas para uma visita ligeira, aproveitando a ocasião tomaria sua cachacinha sagrada. A família de Batista encontrava-se pela vizinhança, uns experimentando roupas, outros fazendo maquiagens enquanto Batista saira uns minutos para voltar logo, procurando aviar algumas encomendas para a banda do Evilásio que tocaria na noite alguns dobrados e marchas da sua autoria, também maestro que era da localidade, daí a necessidade de sair até a casa do maestro para dar orientações sobre algumas coisas.
Clarindo vendo a porta semi cerrada entra, mas não viu a ninguém na casa. Dirigiu-se à velha cristaleira, apanhou um litro e experimenta uma cachacinha do velho são Francisco, entornando uma e mais uma, pensando aonde andariam seus amigos quando de repente seus olhos estancam no espaldar de uma cadeira de vime e, lá está a vistosa farda do tenente maestro da polícia.
Sem atinar para o que fazia, inconsciente pela cachaça, começa maquinalmente a vestir a farda, arruma-se sabe lá Deus como, abotoa-se do gogó até a pança e lá se vai o “tenente maestro” garboso, dois passos para a gente, dois para os lados até alcançar o velho viaduto da cidade alcançando a praça, aonde estava o palanque armado.
Com muita dificuldade consegue “escalar” o palanque. Era quase hora do primeiro dobrado. Clarindo aproxima-se do palanque, segura a batuta do maestro que estava sobre a partitura, dá dois toques e grita, fala enrolada, porém audível: Nino Nacional. Foi um passar de folhas e partituras dos pecados. A soldadesca pensando se tratasse de um outro tenente maestro vindo da capital, sem atinar para aquele bêbado quase às quedas, não perguntou nada.
Clarindo regeu a banda magistralmente. Um tenente músico que estava tocando bombardino, sugeriu: “Tenente vamos atacar de Hino a Bandeira. E assim se realizou a função. O povo dava risadas e comentava até que cansado Clarindo resolveu descer do palanque. O pessoal da banda só começaria mesmo a desconfiar de verdade quando Clarindo soltou uma gostosa gargalhada e viu Batista subir no palanque gritando pelo compadre.
- Clarindinho, você está louco?
Tarde demais. Clarindinho havia na sua façanha realizado o que só o álcool conseguira. Enquanto isto se passava bem na praça principal o tenente maestro esbaforido, vestindo uma roupa do seu anfitrião Batista, estava a cuspir fogo pela boca.
Maior decepção foi quando constatou que os seus comandados obedeceram, sem titubear, a um comando inexistente.
A noite marcaria na cidadezinha apagada e triste, como a noite do Clarindinho.
***
Itiúba, 1971.

VELHO NÉ E O LOBISOMEM - PARTE II

Esaú deflorara a filha sem dó nem piedade, sem resquícios de civilidade, projetando dentro de si a sua monstruosidade onde a ausência fatal de moralidade atestava seu hediondo crime. Alimentado o seu ego animalesco e bestial, a criatura jogara a própria filha na maldição, condenara à desdita e amancebara-se com a bela e farta Isaltina.
Assim mantida as relações incestuosa, encontrando na miséria solo fértil para desenvolver-se, foi crescendo mal disfarçado, gerando na cabeça de todos, aquilo que as loucuras morais podem fazer.
Entre os afazeres de cuidar da casa ajudando a mãe, Isaltina e os pendores de uma mulher bonita, as relações pecaminosas de Isaltina foram aumentando entre os rapazes, enquanto, e, vez em quando, Esaú mantinha suas relações incestuosas com a filha. Os homens não queriam nem um dedo de prosa, a sociedade moral o reprovava, embora apenso na surdina se comentassem os acontecimentos, desbragrando-se Isaltina descaradamente para os lados do padre que fizer sua, satisfazendo seus embatinados pecados, cometendo toda sorte de licenciosidades consentidas pela Cúria Romana.
A rapariga era para usar vestis os mais vistosos, namorar com vários homens, ao mesmo tempo, mas, até os seus dezessete anos, ainda era incubada, ou seja, nem todos sabiam da sua infelicidade. Ela, encontrando nos seus genes e gametos a marca a devassidão não possuía e nem demonstrava qualquer pudicícia, nem rasgo de arrependimento, fazendo a cabeça dos rapazes e homens maduros de todas as idades.
Lançada à sarjeta pelo pai fora aconselhada a procura um homem, já que o infeliz não suportava insistentes olhares da sociedade. A infeliz “viciada” negara-se, fizera-se toda beicinho, jogara-se sobre os braços do pai, chorava e esperneava porque não gostava da ideia de viver e se dar a outro.
Chispito era um rapaz moderado educado e fino cheio de cabelos lisos penteados para trás. Bem verdade não tinha estudos, era semi- analfabeto, porém possuía uma profissão de marceneiro construindo somente sob encomendas para uma clientela crescente e da mais alta categoria. Tornaram-se famosas as finas cristaleiras que construiria com desenhos e arabescos, além de guarda-roupas de jacarandá e sucupira, camas e mesas além de cadeiras, dali tirando o sustento bem com da sua bondosa mãe, mulher prendada, sendo ainda possuidor de um comportamento irrepreensível e modelar, vivendo da sua casa para o trabalho, exemplo de rapaz muito bem apessoado e delicado, acima de tudo, amigo de todos.
O casamento foi maçado para o fim o ano. A noiva cínica, grinalda e flor de laranjeiras à cabeça, bebera e enchera a cara, terminando por vomitar na sala onde estavam os vizinhos e amigos do casal sujando o alvo vestido e dizendo impropérios que fazia e escandaliza os convivas. Já aí, Isaltina demonstrava a ausência de moralidade quando descrevia os homens com quem tivera relações numa ausência de pudor que maçaria de vergonha a face de Chispito. Entretanto como e ainda uma semi menina, as mais velhas mandavam que ela, Isaltina, tomasse vergonha e parasse com aquelas conversas escandalosas e em púbico, servindo apenas para aumentar em Isaltina aquele desejo incontido e desavergonhado de fazer com que os outros se sentissem inibidos. Lua de mel humilde, na casinha que se tornara mais tarde famosa, vivendo o casal só Deus sabe como, até que nasceu o último filho a que apelidaram de Quitinho. Na verdade estamos adiantando. Tiveram três filhos. Uma menina e dois meninos.
Continuou o bom homem a desenvolver suas atividades e, por algum tempo, se peava que a infeliz havia pegado juízo. Pois se tornara irrepreensível seu procedimento social, embora mais tare se descobrisse que um dos filhos, exatamente o Quitinho, teria sido produto das suas relações incestuosas com o velho Esaú.
Ao cabo de oito anos, três filhos e alguns abortos, Isaltina resolvera separa-se do marido sob a acusação de que o homem não tinha um membro grande e descomunal como aqueles a que estava acostumada e assim partia francamente para uma vida muito mais devassa, agora como uma mulher casada civilmente, aboletando-se no Cabaré de Letinha onde fazia sexo em qualquer lugar desde que seu parceiro pedisse-a ou a solicitasse. O retrato de Isaltina era a de uma deusa do sexo, cuja ocupação marcaria tantas vidas que ao seu redor gravitavam.
Mais tarde resolve amaziar-se, embora já um tanto gasta pelo tempo com o “seo” Pedro , tendo havido comes e bebes, já aí, na casa do pai e velho Esaú. Na noite do casamento a ninfomaníaca é flagrada aos beijos e agarramentos além de chupões com certo cidadão, bem ali na frente e diante dos cornos “seo” Pedro, que alma caridosa resolveu não contar na hora, tendo obrigado o homem levá-la de volta para a casa do pai,sendo entregue aquele dizendo que na podia continuar com uma puta, ao que o velho Esaú cinicamente orientou que a matasse, com impropérios em que a chamava de cadela, ao mesmo tempo em que lhe dava uma espingarda socadeira. Seo Pedro, homem velho e alquebrado, de profissão muito humilde, apaixonara-se pela Isaltina que estava uma mulher ainda na plenitude da maturidade sexual, embora perdida alguma coisa, a beleza que possuíra. O tempo, velho implacável sem perdão não poupara também aquela mulher com tanta sede de viver, embora sem medir consequencias, nem atinar para a sociedade. Que se danasse. Alimentava-se a “mula-de-padre ” das sobras que destino lhe deixava, cedendo ao infeliz pai, todas as vezes quando solicitada.
Menos de vinte e quatro horas durou o casamento com o seo Pedro.
O espojeiro dos jumentos no pasto de Dona Zifinha recebia, por toda a semana, uma arisca mula-de-padre que lá ia se espojar, saindo em seguida, arrombando cercas e arames a procura de jumentos e burros num eterno cio, num interminável cruza,mento de bicho, na satisfação bestial dos apetite que a carne amaldiçoada e transformada em “mulinha” pedia, como praga, já agora por ser não apenas amante do pai de quem nunca se desgrudara do incesto, nem do padre Eutiquíco que a refinara na pecaminosa relação, ensinando-lhe todas as maneiras de alcançar a satisfação física, pois dizia-se que Padre Eutiquíco era um incorrigível amante escondido sob a batina preta.
Zé Perninha atestou num sábado que vindo na sexta-feira da paixão para a feira da cidade, seu jerico foi importunado por uma mulinha desde o Grotão até o portão da Fazenda do Estado “suspendendo e rebaixando o rabo, zurrando e mijando”, como se quisesse, a todo custo, aproximar-se o seu jumento em que estava montado, tudo descrevendo o bom homem que mais parecia uma mulher se oferecendo, ao tempo em que olhava a mulinha para ele e seu animal como se tivesse alma. Zé Perninha esgotara seus ofícios, suas Ave-Marias e seus Padres-nossos”. Atestava com conhecimento e convicção que havia se separado com a Mula-de-padre, não lhe restando nenhuma dúvida, sendo confirmado pelas informações, pelo Paôco que na noite anterior estivera no Bonfim onde ouvira histórias de pessoas da cidade atestando da rapidez da mulinha e do impulso que dava, num trote seguro e firme, e que, ao chegar no Cariacá três vaqueiros tentaram aprisioná-la sem sucesso, vistoso animal sem que, contudo seus cavalos conseguissem alcança-a, muito embora cavalos campeiros famosos e vaqueiros os mais experimentados correndo a notícia o misterioso animal em muitas cercanias que outra coisa não poderia ser senão artes do demônio, porque não era possível uma criatura de Deus estar em tantas partes em tão pouco tempo.
Pedro-da-Onça velho e experimentado caçador, havia estado naquele mesmo dia no Pé-de-Serra, lá pras bandas de Camandaroba e notara que as armadilhas para as onças estavam todas desarmadas, coisa incrível, que só poderia ser mesmo coisa do “Tinhoso”. A mula-de-padre estava naqueles sítios cumprindo a sua triste sina, todos conheciam e sabiam quem poderia Sr, mas ninguém tinha coragem de quebrar os seus encantos, necessitando, ao demais, um padre de vida regrada e contrito a Deus, pois o animal só podia perder seu encanto através do desencantamento, muito reza e muito terço e, logo no dizer do Caboclo- do- Grotão, só mesmo um padre de outra freguesia e que chamasse pelas sangrentas chagas de Jesus Cristo, contanto que na fosse o “descarado do padre Eutiquíco que tanto colaborara para a danação da coitada da Isaltina.
Por esse tempo velho Esaú ficara viúvo, e, achando que já era tempo e arrumar uma mulher com quem s casaria, uma vez que o padre, unindo confissão teológica à confissão das carnalidade dos bacanais, senhor de Isaltina, dominador egoísta, impusera que a danada da Isaltina abandonasse ao seu pai, assim os dois iriam virar bicho nas “semanas santas”, estando já sua vidas irremediavelmente condenadas à eternidade de sofrimento e danação nas profundas dos infernos, possuídos pelo demo. O que o padre não sabia era que Esaú já era um “bicho” que nas semanas santas se transformava, também, em mulo, dirigindo-se para os espojeiros dos animais, nas malhadas, tendo sido reconhecido quando dando urros medonhos, aquele enorme jumento cobria a fêmea. As almas sofriam desde muito tempo deixando a vizinhança entre paredes, todos receosos de serem alcançados pelos monstros da semana santa.
Esaú arranjara uma mulher e casa-se na igreja perto de cidade de Senhor do Bonfim, uma vez que lá ninguém conhecia a sua vida, sendo fato que, na sua cidade, dificilmente o padre o deixaria sequer entrar na igreja.Do consórcio geraria dois filhos horríveis, sendo uma menina e um menino, brancos como cera de vela, próprio dos seres não bafejados pelos sol, cuja pigmentação ia do amarelo ao branco sem via. A mulher logo se acostumara às revelações de Esaú que por sua vez não encontrava satisfações nesta a quem fala das dificuldades de relacionamentos sexuais com a esposa, por isso mesmo precisava estar com Isaltina. .
Será necessário para completar o relato dizer que Esaú era um homem de pênis avantajado, famoso e conhecido na região como se um jumento, tanto em cumprimento quanto em espessura, não tendo sido poucas às vezes em que as “mulheres damas” experimentaram o senegalês e ficaram literalmente “frouxas” e sangrando, dado `s proporções e dimensões descomunais daquele membro em ereção. Gebara tivera uma experiência sendo necessário seu internamento em casa de saúde até restabelecer-se, desaparecendo do “puteiro” local porque homem nenhum encontrava mais nada, pois dizia-se até ter retirado o útero provocado por estocadas de um animal irracional. Esaú preferia, é certo, fazer amor se assim se pode falar, com as lamparinas apagadas, sempre envolto em uma capa colonial espessa, não tirando a roupa na vista das mulheres, enquanto todas juravam que as costas do homem era cabeluda e com fios de mais de quinze centímetros, conforme aquilatavam pelas apalpadelas sendo que ele as possuía invariavelmente de costas, na posição animal, de quatro, jamais as “damas” repetindo em qualquer circunstâncias, a triste experiência.
Os segredos de um homem que esconde em si as maldições dos seus pecados, não poderiam ficar impunes por tanto tempo, sendo Isaltina a única que possuía calibre, porque fogo atrai fogo, animal, atrai animal. Transcorrendo a fatalidade, nada mais restava aos “bichos” senão a danação eterna. Ninguém segurava as mãos de Esaú. Ninguém lhe dava um bom dia ou boa tarde, ninguém comprava coisa com coisa em suas mãos, evitando tanto quanto possível o contato, pois o casal havia entrado num estágio de completo abandono e cegueira, onde a moral e os bons costumes eram coisas de atrasados, não mais tomavam mais cuidados de si, nem de serem vistos nas posições mais comprometedoras ou nos caminhos do roçado da Serra o Cruzeiro ou na pequena roça da Serra do Encantado tendo o velho Ademir, certa feita, proibido até o infeliz de ir na sua fazenda, ainda que fosse para quebra e apanhar lenha, quanto mais penetrar e plantar os pés em seus domínios.
Era comum o “Couro” arrebentar no lajedão do encantado, estrugindo o barulho danado, alguns afirmando tratar-se, em verdade, dos monstros em colóquio amoroso, rolando por sobre as pedras, urrando e se arranhando, no torpor da carne adormecida agora desperta, mas adormecida de sãos sentimentos, porque caso perdido era, não havendo mais salvação, senão a da morte física, porque espiritual já havia ocorrido o desenlace, órfãos do bondoso Deus que já os havia abandonado e condenado.
Os pais procuravam evitar que os filhos fossem à casa de Esaú, sobrando-lhe fama, mas reconheciam que animal que descarava com a própria filha, certamente não era digno da menor confiança, estando passível de violência sexual em quem quer que seus apetites de besta humana, besta fera, entendessem. A mulher de Esaú, a que lhe dera duas horríveis criaturas como filhos, acostumara com a situação. Porém, abertamente chamava a Esaú e a Isaltina de descarados, sem vergonhas e outros impropérios, não fazendo a menor cerimônia, muito menos segredos das relações com seu marido, amalgamada ao ambiente de luxuria e pecado, ela mesma tornando-se ninfomaníaca dos apetites de Esaú.
Queixinho – famoso malandro das quebradas, brigara no sábado, às três horas da madrugada com dois outros, de nome Escurinho e Saco-Furado, na disputa pelos amores de Isaltina. Deu-se que, estando numa casinha na roa de Sinval, num Cabaré onde todos dançavam nus, Isaltina caira para os lados de queixinho, malandro bem arrumado e com dinheiro no bolso, mágico amador de grandes possibilidades, convidara Isaltina para fazer par com ele durante toa a noite. A ordem era que ninguém poderia ter elações sexuais no meio o salão, tendo os casais que o desejassem e afastar-se da pista de anca que era chão batido, ocupando um quarto miserável ao lado da sala, sendo a renda destinada à compra de cachaça distribuída entre os mesmos convivas. O facão comeu solto. Escurinho, caboclo zangado, bom de facão e Saco-Furado, exímio na faca peixeira, zangaram-se entre si, correram as mãos nas armas e a desta espalhou. Queixinho malandro vivo e sabido não brigava senão empalmando um soco inglês, ao tempo em que se valia das suas pernas, pois era exímio capoeira.
Ninguém sairia ferido, porém Escurinho levou um soco no queixo e saco-Furado teve de correr para não cair no pau. Isaltina de cima de um pequeno morro junto a uma cacimba sertaneja dava urras e vivas, instigando os contendores a que continuasse prometendo que o vencedor iria dormir com ela, égua retada. Acúrsio garantira, mais tarde, que na escuridão da madrugada os olhos de Isaltina refletiam como se duas pequenas e minúsculas bolas de fogo, enquanto seus pés transformados, eram duas autênticas patas de burro.
***

UM TRAIDOR DE CANUDOS

Amanhecia e a Vila preparava-se para mais um dia de lutas. No corre corre diário os chefes dirigiam-se para a pequena igreja. Armados, tomavam acento na pequena nave, ouviam a prédica matinal do Conselheiro, recebiam hóstias e voltavam a reunir-se a uma voz de comando no meio da pracinha.
Vila Nova não apareceu. Cerca de cinquenta oitenta homens do seu comando, aguardavam-no. Zé Perninha impaciente arrastava a sua manca perna, de um lado ao outro enquanto mascava um pedaço de jabá, das melhores que era vendida para os lados da Vila Nova da Rainha. A casa de Vila Nova estava fechada. A pequena choça coberta de ariri estava sob um terrível silencio e embaraçoso. Uma janela semi aberta deixava ver o seu interior minúsculo. A mulher, calada estava sentada sobre uma banqueta de três pernas chorava silenciosamente. Vila Nova havia fugido deixando a família, rumando para Pernambuco de onde possivelmente viera desde os tempos em que o Conselheiro por lá passara fazendo suas pregações e o trouxera consigo. Pois bem, Vila Nova selara um burro e juntara uns “trens” em lombos de dois jumentos e partiu dentro da madrugada.
A pracinha do casario disforme era agora ocupada pelos remanescentes, justamente aqueles que recebiam as ordens diretamente e Vila Nov. Não há como negar a destreza daquele homem, sua fibra que o transmutara de pacato rezador para um dos mais ombreados lutadores, constituindo em parte, no mais fino escol guerreiro que já pisara aqueles sertões. A sua coagem no corpo-a-corpo, costumavam relembrar seus companheiros, até mesmo o dia em que Vilanova sozinho com sua inseparável parnaíba havia sangrado uma patrulha militar composta de cinco soldados. Outros, porém, diante da notícia de deserção do chefe se punham a falar que Vila Nova era um traidor e não era tão corajoso.
O burburinho grande exigia que o cabeça fosse logo substituído, pois o arraial vivia o prenúncio do fim.. Os homens foram rudemente atingidos muito mais pela constatação o que pelos canhões do Salomão. Nem o assédio da “força fraca do governo” poderia causar tamanhos estragos mais que o fato de saberem que um dos seus havia debandado e perdido a fé a coragem. Havia estado tanto tempo, e lutado tantos anos que a notícia parecia mais uma piada de mau gosto, não imaginando jamais que entre eles houvesse um traidor. Foram ao Conselheiro. Este soturnamente orientou para que os homens perseguissem Vila Nova e o trouxesse à sua presença para conversar sobre os murmúrios. Sobretudo desejava saber com conseguira, sozinho, sair da Vila já que se encontrava em completo isolamento. Planejou dois homens que sairiam a noitinha, tentariam atravessar a linha inimiga na direção do Uauá, o que lograriam fazer sem dificuldades já que estavam a pés e não conduziam alimárias que certamente iriam denunciá-los pelo tropel. Da estrada do Cumbe à estrada do Monte Santo; de queimadas à Itiúba; do Cambaio ao caminho da Mombaça passando pela Faveleira, tudo fora vasculhado. Debalde.
De repente, uma surpresa. De cima do cabeçote de um morro dois cabras divisaram o Vila Nova. Chapelão de abas na cabeça a medida que o animal desafiava e vencia a estrada num picado irrepreensível, aquele chapéu oscilava e nem se dava contas de que ia seguido pelos outrora companheiros que tinham a missão difícil de trazê-lo de volta ao Arraial de Canudos. Eis que, sem ninguém esperar, surge uma coluna de soldados desgarrados, provavelmente dos que pertenciam ao Savaget, o tenente mais ousado daquela expedição. Era mais uma patrulha avançada ou mesmo perdida, que estava varrendo aqueles bravios sertões num raio de dez léguas, parando e inquirindo todos os seres viventes que por aqueles plagos ousasse.
A tropa bem alimentada se acercou de Vila Nova que estava alquebrado pelo cansaço da caminhada no sol a pino, além das lutas que já travara na vida. O tenente ordena-lhe descer rapidamente da montaria. Interroga-o. Um alferes o reconhece como um dos chefes. Começam a indagar sobre a situação atual do Arraial, víveres, combatentes, munição, etc. O alferes truculento dá-lhe um botinada nas costas secas, os soldados de pré como que extasiados começam a rir um riso macabro dos que sabem terem a presa nas mãos e não há como escapar-lhe. Vila Nova humilde permanece calado, enquanto cabisbaixo, embora na implorasse, como que a desafiar a morte, não pede piedade, mas o seu jeito de ser e portar-se na frente dos combatentes que tantas vezes participara e os derrotou, não podia, agora, pedir para aqueles que eram e tinham sido o carrascos dos seu amigos que tombara.. Não podia como a vida não lhe permitiu desfibrar-se, mesmo antevendo o sofrimento do arraial, de tantas crianças, mulheres e velhos morrendo mais de fome do que mesmo de balas da “força fraca do governo” pois que, de há muito a linha negra havia impedido de conseguirem comida farta. A lembrança dos canhões troando dia e noite, dos combates, do ritual diário de morrer pela crença e fé, recordações que fibravavam e faziam recompor o gigante num retrospecto da sua vida, possivelmente coração distante da cena ora vivido, agora envergonhado e arrependido, levanta a tez branca, encara o tenente e diz-lhe:
-Força fraca do governo, desce desse cavalo e me entrega a minha faca.
Os soldados fizeram seu festim.
De longe, do pequeno morro, os dois sertanejo por trás de moitas de icós, permaneceram.
Vila Nova, sangrando a carótida decepada deixava o sangue escorrer rubro pela terra como a desafiar a lei da gravidade, procurando, quiçá, os caboclos que o espírito já deveria ter avistado sobre o monte. Como se pretendesse mandar dizer aos seus, do seu pedido de perdão e de remissão da honra.
Nos lábios empapados de sangue, as últimas e derradeiras palavras, palavras que o redimiriam de toda culpa saída num grito rouco entrecortado, nas últimas, bradava:
-Viva o Bom Conselheiro.
Não obstante lograr sair da Vila o exército não lhe faria exceção, e, provavelmente no inferno, Moreira César gargalharia de satisfação, se é que lá existe. Sentença fatídica de não deixar pedra sobre pedra naquele arraial, começava a concretizar-ser com a derradeira expedição a se tornar realidade.
Porém, a glória fugaz do exército contra um homem só e desarmado, não poderia conter em página nenhuma de relatório de Campanha, bem como não poderia ecoar nas esquinas da Rua do Ouvidor porque revelaria os germens criminógenos de uma mancha contra um homem só, que nem o tempo apagaria. Morreu Vila Nova. Desafiante, ferino, combatente. Do outro lado uma cruel realidade tomava corpo e certeza, a de que, na primeira clarinada do dia seguinte, seis mil baionetas calariam, para sempre, o Arraial de Canudos.
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