O que você quer saber sobre História?



Este blog tem como objetivo discutir História, postar artigos, discutir assuntos da atualidade, falar do que ninguém quer ouvir. Então sintam-se a vontade para perguntar, comentar, questionar alguma informação. Este é um espaço livre para quem gosta de fazer História.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

UM TRAIDOR DE CANUDOS

Amanhecia e a Vila preparava-se para mais um dia de lutas. No corre corre diário os chefes dirigiam-se para a pequena igreja. Armados, tomavam acento na pequena nave, ouviam a prédica matinal do Conselheiro, recebiam hóstias e voltavam a reunir-se a uma voz de comando no meio da pracinha.
Vila Nova não apareceu. Cerca de cinquenta oitenta homens do seu comando, aguardavam-no. Zé Perninha impaciente arrastava a sua manca perna, de um lado ao outro enquanto mascava um pedaço de jabá, das melhores que era vendida para os lados da Vila Nova da Rainha. A casa de Vila Nova estava fechada. A pequena choça coberta de ariri estava sob um terrível silencio e embaraçoso. Uma janela semi aberta deixava ver o seu interior minúsculo. A mulher, calada estava sentada sobre uma banqueta de três pernas chorava silenciosamente. Vila Nova havia fugido deixando a família, rumando para Pernambuco de onde possivelmente viera desde os tempos em que o Conselheiro por lá passara fazendo suas pregações e o trouxera consigo. Pois bem, Vila Nova selara um burro e juntara uns “trens” em lombos de dois jumentos e partiu dentro da madrugada.
A pracinha do casario disforme era agora ocupada pelos remanescentes, justamente aqueles que recebiam as ordens diretamente e Vila Nov. Não há como negar a destreza daquele homem, sua fibra que o transmutara de pacato rezador para um dos mais ombreados lutadores, constituindo em parte, no mais fino escol guerreiro que já pisara aqueles sertões. A sua coagem no corpo-a-corpo, costumavam relembrar seus companheiros, até mesmo o dia em que Vilanova sozinho com sua inseparável parnaíba havia sangrado uma patrulha militar composta de cinco soldados. Outros, porém, diante da notícia de deserção do chefe se punham a falar que Vila Nova era um traidor e não era tão corajoso.
O burburinho grande exigia que o cabeça fosse logo substituído, pois o arraial vivia o prenúncio do fim.. Os homens foram rudemente atingidos muito mais pela constatação o que pelos canhões do Salomão. Nem o assédio da “força fraca do governo” poderia causar tamanhos estragos mais que o fato de saberem que um dos seus havia debandado e perdido a fé a coragem. Havia estado tanto tempo, e lutado tantos anos que a notícia parecia mais uma piada de mau gosto, não imaginando jamais que entre eles houvesse um traidor. Foram ao Conselheiro. Este soturnamente orientou para que os homens perseguissem Vila Nova e o trouxesse à sua presença para conversar sobre os murmúrios. Sobretudo desejava saber com conseguira, sozinho, sair da Vila já que se encontrava em completo isolamento. Planejou dois homens que sairiam a noitinha, tentariam atravessar a linha inimiga na direção do Uauá, o que lograriam fazer sem dificuldades já que estavam a pés e não conduziam alimárias que certamente iriam denunciá-los pelo tropel. Da estrada do Cumbe à estrada do Monte Santo; de queimadas à Itiúba; do Cambaio ao caminho da Mombaça passando pela Faveleira, tudo fora vasculhado. Debalde.
De repente, uma surpresa. De cima do cabeçote de um morro dois cabras divisaram o Vila Nova. Chapelão de abas na cabeça a medida que o animal desafiava e vencia a estrada num picado irrepreensível, aquele chapéu oscilava e nem se dava contas de que ia seguido pelos outrora companheiros que tinham a missão difícil de trazê-lo de volta ao Arraial de Canudos. Eis que, sem ninguém esperar, surge uma coluna de soldados desgarrados, provavelmente dos que pertenciam ao Savaget, o tenente mais ousado daquela expedição. Era mais uma patrulha avançada ou mesmo perdida, que estava varrendo aqueles bravios sertões num raio de dez léguas, parando e inquirindo todos os seres viventes que por aqueles plagos ousasse.
A tropa bem alimentada se acercou de Vila Nova que estava alquebrado pelo cansaço da caminhada no sol a pino, além das lutas que já travara na vida. O tenente ordena-lhe descer rapidamente da montaria. Interroga-o. Um alferes o reconhece como um dos chefes. Começam a indagar sobre a situação atual do Arraial, víveres, combatentes, munição, etc. O alferes truculento dá-lhe um botinada nas costas secas, os soldados de pré como que extasiados começam a rir um riso macabro dos que sabem terem a presa nas mãos e não há como escapar-lhe. Vila Nova humilde permanece calado, enquanto cabisbaixo, embora na implorasse, como que a desafiar a morte, não pede piedade, mas o seu jeito de ser e portar-se na frente dos combatentes que tantas vezes participara e os derrotou, não podia, agora, pedir para aqueles que eram e tinham sido o carrascos dos seu amigos que tombara.. Não podia como a vida não lhe permitiu desfibrar-se, mesmo antevendo o sofrimento do arraial, de tantas crianças, mulheres e velhos morrendo mais de fome do que mesmo de balas da “força fraca do governo” pois que, de há muito a linha negra havia impedido de conseguirem comida farta. A lembrança dos canhões troando dia e noite, dos combates, do ritual diário de morrer pela crença e fé, recordações que fibravavam e faziam recompor o gigante num retrospecto da sua vida, possivelmente coração distante da cena ora vivido, agora envergonhado e arrependido, levanta a tez branca, encara o tenente e diz-lhe:
-Força fraca do governo, desce desse cavalo e me entrega a minha faca.
Os soldados fizeram seu festim.
De longe, do pequeno morro, os dois sertanejo por trás de moitas de icós, permaneceram.
Vila Nova, sangrando a carótida decepada deixava o sangue escorrer rubro pela terra como a desafiar a lei da gravidade, procurando, quiçá, os caboclos que o espírito já deveria ter avistado sobre o monte. Como se pretendesse mandar dizer aos seus, do seu pedido de perdão e de remissão da honra.
Nos lábios empapados de sangue, as últimas e derradeiras palavras, palavras que o redimiriam de toda culpa saída num grito rouco entrecortado, nas últimas, bradava:
-Viva o Bom Conselheiro.
Não obstante lograr sair da Vila o exército não lhe faria exceção, e, provavelmente no inferno, Moreira César gargalharia de satisfação, se é que lá existe. Sentença fatídica de não deixar pedra sobre pedra naquele arraial, começava a concretizar-ser com a derradeira expedição a se tornar realidade.
Porém, a glória fugaz do exército contra um homem só e desarmado, não poderia conter em página nenhuma de relatório de Campanha, bem como não poderia ecoar nas esquinas da Rua do Ouvidor porque revelaria os germens criminógenos de uma mancha contra um homem só, que nem o tempo apagaria. Morreu Vila Nova. Desafiante, ferino, combatente. Do outro lado uma cruel realidade tomava corpo e certeza, a de que, na primeira clarinada do dia seguinte, seis mil baionetas calariam, para sempre, o Arraial de Canudos.
***

MORTE EM SÃO PAULO

Carlito, passados aqueles dias negros e aziagos em que o espírito amargara no limbo dos esquecidos da sorte, resolvera, como que a fugir da sua própria sorte, viajar para fora do Estado tomando rumos ignorados. Visava ele esconder-se de si mesmo e dos amigos que o conheceram na vida de opulência, perdido no fausto e viajando na sociedade que tão bem o acolhera. Pouco ou nada adiantaram os conselhos que seus amigos davam, ao mesmo tempo, para que permanecesse na cidade e refizesse a vida tão destroçada, missão de amigos conselheiros que pouco surtiria efeito naquele moço bom, educado, trabalhador e decente cumpridor dos seus deveres e obrigações, resolvendo-se que seria capaz de cometer uma loucura, se por acaso ali permanecesse, à vista e lançado ao opróbrio pela mulher, não se conformando de espécie e modo algum, em ver que seu lar havia sido destruído por uma mulher irresponsável a quem devotara toda uma vida.
Importava que o mundo o esquecesse que, para apagar dores e mágoas, só mesmo uma viagem longa e um lugar onde fixasse residência buscando refazer sua vida. Fixa-se na capital paulistana, tendo o povo esquecido de falar e comentar sobre sua vida e desdita. Entretanto, ao cabo de uns poucos anos, estourou a notícia na cidadezinha trazida por alguns conterrâneos que tinham, também, ido tentar a vida em são Paulo. Primeiras notícias de longe davam conta de que o rapaz vivia uma vida de opulência, tendo construído um patrimônio e refeito a vida naquela capital, de sorte que a sua riqueza anterior não se igualava, sendo proprietário de extensa frota e caminhões de carga e transportes, de causar inveja ao mais rico da cidade. A sua nova vida era pintada com cores mil, onde a fortuna era tida como coisa certa. Outras notícias davam conta de que não podia dizer o seu endereço porque senão a mulher tentaria procurá-lo e querer tomar toda a fortuna numa mais que provável ação de alimentos.
É assim que os anos impiedosos fazem a cidadezinha de ruazinhas tristes, esquecer nosso triste personagem, caindo num ostracismo terrível e num desconhecimento total sobre o seu paradeiro, sendo que a boataria e as especulações deram lugar a outras especulações meramente exercitando as capacidades das pessoas usarem a maledicências só encontradiça nos contos fantasiados de fadas e das mil e uma noites.
Aos mais íntimos e chagados, é bem verdade, Carlito fizera e endereçara uma ou duas caras e nelas procurava alimentar as fantasias que se de si faziam, sem, contudo, dar ou fornecer sequer seu endereço para respostas. Outros diziam que as cartas chegavam com manchas semelhantes a pingos de água, que o vulgo se encarregava de espalhar tratar-se de lágrimas. Naquelas cartas, ele perguntava por amigos íntimos, aqueles que viveram em seu lar e no seu círculo, ficando, porém, sem respostas, pois, não fornecia o endereço nem pistas deixava de onde eram postadas as cartas, algumas vindas de agências dos correios e telégrafos de cidades do interior, como se desejoso de despistar as pessoas que porventura fossem procurá-lo. Um véu de mistério haveria de encobrir aquele rapaz envergonhado pela desdita da sua esposa. Queria desaparecer e tão bem conseguira.
De repente, um dia, como todos temos uma encruzilhada, acontecem as coordenadas da sua existência. Carlito é encontrado numa obra civil, num dos espigões, então em construção, por um rapaz que havia deixado o Sítio dos Moços para ganhar a vida em São Paulo. Cruzados o caminhos, costumavam conversar diariamente e demoradamente nos poucos intervalos de descanso, onde confessam um ao outro serem da Bahia, tentando a vida em São Paulo. Assusta-se quando ouve o companheiro do Sítio dos Moços afirmar para ele que era filho da Itiúba, na Bahia. Mas Carlito não se surpreende. Abaixa a cabeça e nada responde. Como o rapaz tivera muito pouco tempo em Itiúba, pois morador a zona rural, não consegue ligar nada com nada quando Carlito identifica-se, dizendo quem era sendo absolutamente desconhecido para o companheiro coisa que não atinava de modo alguma a razão de Carlito andar cabisbaixo.
O mestre-de-obras convocara para o sábado todos os operários, garantindo o pagamento de horas extras e todos ficaram satisfeitos, sendo desejo da construtora terminar a construção do prédio em breves dias. Após o trabalho do sábado, todos cansados e suados, resolveram recebido o pagamento, tomar umas bebidas no boteco da esquina. Carlito já estava mais grogue que mendigo em festa de aniversário alheio desatando a língua e contando sua vida para todos os colegas. O rapaz lembra-se do caso, pede que lhe seja mostrada a carteira de identidade. Carlito num átimo de arrependimento desdiz-se, afirmando que era brincadeira e que conhecia o rapaz que fora traído, mas que conhecera todos, porque na época morava na cidade, mas nunca tal com ele se passara.
Coló ficou olhando do ponto de ônibus onde estava Carlito embarcar naquele que o levara ao seu destino ou à sua morada, cambaleante, ébrio de cachaça, alma lavada, trôpego e faminto.
Carlito agora evitava na obra qualquer conversa com o conterrâneo, ficara macambúzio, trabalhava denodadamente e não faltava um dia sequer ao trabalho. A saudade dos filhos corroa-lhe a alma por certo, sua saúde periclitava e seu físico debilitava pelo esforço de trabalhos pesados da construção civil e sua luta era o retrato e pressão viva de que tentava recuperar algo perdido em um ponto do passado, quiçá a volta à sua terra, mais respeitado e casado com outra para restabelecer-se cheio de moralidade e dizer àquela ingrata mulher que ele não havia sido destruído. Mas o álcool, a bebida em demasia, a fome e a miséria enfraqueceram seu ânimo.
Começa uma discussão no primeiro andar em construção. Carlito reclamava e um ouro operário que havia He surrupiado a pequena garrafa de cachaça crua da sacola, na hora do almoço. Engalfinham-se em luta corporal, levando nítida desvantagem para seu contendor. O colega operário esmurra Carlito, este não tem como desvencilhar-se, os colegas acorrem, separam os contendores. A luta acaba. Recomeçam o trabalho.
Apanhando massa e pedaços de bloco de cerâmica para atender a outro operário, de cócoras, lá está Carlito. Pé ante pé, um homem aproxima-se por trás sem ser visto, martelo de construção civil à mão, prepara-se para o golpe fatal. Afunda o crânio. Um filete de sangue jorra tênue, o corpo do operário estremece e se estrebucha, um gemido surdo sai da garganta, homens acorrem prendendo o criminoso. Polícia, levantamento cadavérico e investigação. Na sacola encontrada pendurada na parede da obra estavam uma pequena marmita contendo feijão e arroz além de um pouco de farinha d’água, um ovo frito e duas rodelinhas de tomate. No bolso direito d calça de nycron, dentro da sacola, foram encontrados uma carteira de trabalho, dentro desta uma cédula de identidade civil, um retrato amarelecido pelo tempo com uma dedicatória que dizia: “Ao meu querido Carlito, uma lembrança pálida da sua querida noiva.” Abaixo a assinatura pós dedicatória indicava ainda: Carminha.
Na identidade e na carteira profissional, á estava escrito o nome do seu portador. Carlito Pereira dos santos.
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quinta-feira, 16 de junho de 2011

A BELA DO LARGO.



O destino implacável, os dogmas tabus e preconceitos de uma comunidade se abateram sobre a gentil mulher, fluindo e canalizando no seu pensamento todas as decepções acumuladas de uma só vez.
O mundo parece ter se acabado para aquela senhora. Passou a ser vista apenas pelas empregadas domésticas que se encarregavam de espalhar pela cidade que a bela mulher estava se definhando, e que, além do mais ficara tísica e não ia demorar , não se alimentava e não frequentava mais a missa como fazia religiosamente, não mais se reunia com suas amigas em animados bate-papos, não trocava ideias de como costurava e bordava. Seus olhos foram apagando com a cor mortiça dos desalentados, sua ampla casa no largo da cidade não mais abria janelas, persianas ficavam trancadas e as portas não permitiam mais ninguém atravessá-las, o padre Eutímio não mais teria uma das mais fieis na igreja de todas as missas das manhãs enregelantes dos sertões.
Perdera o alento e a esperança enquanto o Mario já começava a sentir tratar-se de caso perdido, iniciando, já agora, ele mesmo a contratar advogados para saber como procede com vistas a abandonar a cidade definitivamente com a mulher e os netos.
Carminha resolvera que os filhos ficariam com os avós para serem criados e receberem educação, porém o pai a proibira de visitá-los, renegando aquela de que houvera recebido alegrias e felicidades, comprometida então com nova missão de salvar aquelas pobres crianças.
Desde a fuga para a capital, já resolvera o casal que as viagens teriam necessariamente de serem mais amiudadas antevendo um clima de tristezas, na cidadezinha dos sertões, além de serem sempre objeto de perguntas indiscretas e de explicações que a família, afinal, não teria mesmo como dá-las, eles mesmos pegos de surpresa, em meio ao redemoinho dos acontecimentos.
Vez ou outra retornavam para a capital, de carro ou de trem, mas como fuga do que mesmo a passeio, enquanto a mulher ia definhando e perdendo a crença em tudo e em todos, na sua revolta compreensível, mas que não se podia atribuir culpa a quem quer que fosse das estripulias e catimbas da senhora Carminha.
As ameaças de irem embora não se concretizaram. A bela e educada dama não arredou pé da cidadezinha, mas os que a avistavam por cima do muro, esticando o pescoço, ou da lateral da casa, duvidavam que aquela fosse mesmo a mãe de Carminha, tão magra, esquálida e destratada, e, dava mesmo para ver que o desespero tomou conta daquela educada senhora premiando-a com a penitência sem fim.
Cabelos desgrenhados, mãos sem nenhum trato, vestidos repetidos e desleixados, seios balançando dentro das vestes, olhos fundos e sandálias de uso comum, sem nenhum atrativo, era o retrato vivo e desesperador de uma mulher de beleza natural e trabalhada de outrora, capaz de arrancar suspiros a todos os demais homens da cidade, ainda que não se confessassem entre si em respeito, mesmo porque ela jamais dera uma palhinha ou, como se dizia, ousadia a qualquer pessoa. Era irretocável e de ilibada reputação e vivência social e moral.
Quem avistasse aquela mulher de surpresa, (porque de outro modo era impossível),haveria de olhar duas vezes para a constatação do que os olhos testemunhavam. A pele branca e louçã, os lindos olhos aureolados, as lindas e formosas sobrancelhas era o retrato em preto e branco do que antes houvera sido. A fina e linda tez deu lugar, já agora, a manchas pardacentas de pano-preto, a pele perdeu-se da sua elasticidade e vivacidade e já não atraía os olhares de desejo dos homens deixando de causar inveja às mulheres de quem a grande dama recebia os principais elogios por sua beleza.
Outrora brincalhona com as amigas perdera a afeição por tudo e todos. Agora, era uma mulher que mandava dizer pelas empregadas que não estava em casa e que, caso desejassem, deixassem algum recado. Os amigos foram se afastando pouco a pouco,a casa bem cuidada deixou de ser pintada duas vezes anualmente e as plantas ornamentais foram perdendo as folhas e o vigor, como se estivessem a traduzir para os que as viam, as tristezas e decepções daquela casal.
O padre ainda tentou uma aproximação quando um circo acampou na cidade, aconselhando-a a assistir alguns espetáculos. Chegou, dento do máximo a que se permitira a pedir ao filho de Enocuos soldado, que lhe comprasse uma cocada puxa na porta do circo, enquanto na penumbra do quarto, sobre a cama, sentada por trás de uma pilastra, parecia aguardar o menino num sopro de alegria juvenil de comer a guloseima. As pessoas que passavam em direção ao circo não regateavam e agradeciam a Deus por aquela bondosa alma estar se recuperando e alegravam-se porque a imensa casa parecia ter se transformado em sepultura viva de uma mulher que não merecia, porque contas não tinha a acertar, tamanha a infelicidade agora alcançada.
Quando o circo ou algum parque de diversões chegava à cidade fazia a alegria de loucos, doidos e sãos, isto ainda sem contar a criançada a correr atrás do palhaço, a disputar, moleques travessos, cruzes marcando a testa que lhes garantia uma entrada gratuita à noite, para, no dizer do palhaço, assistir a função. Os moleques reuniam-se todos, o palhaço de pernas-de-pau assinalava de tinta, as testas, da criançada e determinava que saíssemos pelas ruas e becos até a tardezinha, aquela pequena chusma respondendo os ditos do desengonçado e alegre palhaço.
-” Hei raio sol, suspende a lua” – dizia o palhaço, “Olha o palhaço no meio da rua”- respondia a criançada alegre e inocente.
Na trajetória era caminho obrigatório passar bem em frente a casa da inditosa dama, pois o palhaço, com seu álacre cotejo de meninos, desejava era chamar a atenção de cada habitante, e, despertar neles, esses sentimentos incontidos, porém reprimidos socialmente dentro de cada criança que repousa dento de cada um de nós ainda que uma gama de dores e sofrimentos acumulados, no jornadear penoso do existencialismo, queira renegar a primeira e lúdica experiência de vida da humanidade.
Vem daí que um dia a louca Valentina aparece exatamente na hora em que a criançada estava recebendo o sinal de tinta nas testas, e ela, Valentina com a inocência dos loucos dispôs-se a acompanhar o cortejo, senão jogaria pedras em todos , rasgaria a lona do circo com muito espalhafato, além de ir buscar “seo” Pompílio Delegado para que prendesse o palhaço e aqueles meninos malvados.
Valentina era uma mulher d povo, desses loucos ditos “mansos”, cujos chistes e tiradas deixavam a todos fora do sério e com suas tiradas espirituosas deixava como que as pessoas com as barrigas doendo de tanto rirem, pouco importando se homem ou mulher, se imoralidade, conforme se dizia no tempo. Tanto que fez Valentina, o palhaço forasteiro resolveu pregar uma cruz de tinta na testa da Valentina, pois o sabia muito bem que a louca não podia fazer nem bem nem mal. Lá vai Valentina entre pequenos moleques a defender seu ingresso, logo mais, na função da noite, quando seria apresentada a peça “O Ébrio”, pastelão de circo mambembe e carro chefe dos dramalhões de tantos quantos circos apareciam na cidade. Ao passarmos em frente da casa da bela dama, destacando sua voz, do côro que deveria ser respondido, sem nenhuma malícia, seguindo a disritmia do seu cérebro, tasca Valentina o seguinte verso.:
-O bicho que mata homem
Mora debaixo da saia,
Tem a testa cabeluda
E língua de papagaio.
O palhaço não teve outra alternativa senão parar. A gurizada, curiosa, caiu na risada enquanto Valentina, qual criança crescida, levantava e abaixava a saia comprida. A pobre louca sentindo que seus versos eram respondidos com ovação da criançada, antes que o palhaço tivesse dado por si e acordado de que o seu espetáculo estava sendo roubado, entre trejeitos e momices, lança no ar, mais versos e diz:
“Escorreguei na bananeira
Agarrei no carrapicho
Corri a mão por baixo
Agarrei nos bagos do bicho”.
O palhaço sabendo que ali estava próximo à casa de família tradicional apressa o passo e, em largas passadas de quase oito metros de cumprimento, com suas longas pernas-de-pau, tenta chamar a cambada a ordem com um dos versos do seu repertório, aliás ,de todos os palhaços da infância da gente.
“Hoje tem espetáculo?” E a meninada respondia: “Tem sim senhor.” E continuava o palhaço: “Oito horas da noite”? E a meninada: “Tem sim senhor” e o palhaço alegre continuava: “Arrocha negrada” . E nós: “Arrocha”.
Lá distante o palhaço olhando para trás via Valentina atrasada, dançando e pulando no meio da praça e, de uma pilastra, numa grande casa, percebia-se, perfeitamente, uma senhora que mostrava s alvos dentes num sorriso amarelo e sem graça. Era a mãe de Carminha. A morta-viva já não tinha forças nem para rir.
Ao longo rumando em direção ao alto do Mingau, um enorme palhaço alegre e bizarro,com pernas descomunais, gritava:
-“Hoje tem marmelada?”
E a criançada alheia, alegre e feliz, irresponsável mas sem consciência dos dramas e tragédias da vida, felizes e álacres, respondia:
“Tem sim senhor”.
Mas assistir ao espetáculo da noite, reviver seu próprio corpo nas belas e desenhadas pernas e cinturas das rumbeiras do circo,ela mesma sentir-se uma rumbeira nas fantasias da casa, na cama com seu marido que a procurava com mais volúpia, sentir-se a mulher desejada, não a despertava mais. As rumbeiras serviriam, agora, apenas para humilhá-la, porque então, suas belas formas tinham sido apagadas, o sorriso e a felicidade desapareceram desencantadamente.
O marido já não a procurava mais. Senhor privilegiado de ter uma mulher escultural, agora, era verdade, ele descendo a escala social, não mais a procurava indo ao encontro da Luxuduí, meretriz da mais ínfima escala social, frequentadora do mais baixo bordel da cidade.
Tudo acabou.


Itiúba, 1973 Max B. Cirne
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sábado, 11 de junho de 2011

O DOIDO DUDÉ.

O DOIDO Dudé jurava e batia pé firme, afirmando com muita convicção que o “lubi” havia passado correndo por ele no local em que ficava a ponte de madeira, que afinal não era ponte coisa nenhuma, simples pinguela reforçada com pesado toro lavrado por onde aquela gente da Rua do Alto do Mingau passava em direção à cidade.
Fato é que ninguém duvidava da existência do lobisomem, havendo aqueles mais sérios e refinados que desciam a detalhes incrivelmente testemunhados por várias pessoas. Dudé afirmava que vira o lobisomem no dia de quinta-feira quando retornava para sua casa, ali por volta da 11 horas da noite. Tinha o Dudé o belo habito de subir a ladeira de pedras cantarolando velhas canções, tornando-se conhecido, assim iniciava a sua subida, religiosamente à 11 horas.
Alto, esguio, cabelos encarapinhados, negro, forte e espadaúdo, poucos conheciam naquele rapaz a capacidade de suportar peso, embora nos seus poucos mais de dezoito anos. Nascido na cidade, filho de Antonio da Dedela, as pessoas não costumavam dar crédito às suas histórias, sendo absolutamente civilizado, embora portador de anomalia ou distúrbio psíquico. Desde menino suas doidices como se costumavam dizer na vizinhança, o fazia respeitado por outros meninos que na costumavam azucrinar o rapaz, mesmo porque, bem verdade, se diga Dudé não primava bulir ou aporrinhar a vida de quem quer que fosse limitando quando muito, a traquinadas próprias sem maiores irresponsabilidades, embora como já dito, fosse louco.
Louco manso e civilizado se assim se pode dizer sendo sua preferência arreliar o Vavá-Bom-no-pó, velho tísico que costumava fazer brincadeiras com a criançada jogando confeitos e caramelos de café com leite para a criançada nas noites enluaradas com tentativa de apagar a triste Idea que tos dele faziam de ser um bruxo enclausurado, sem registro de onde viera, o que fazia ou qualquer coisa. Gozado pois, ninguém leva o Dudé a sério, especialmente quando ele se punha na maior cara e pau a descrever com trejeitos, de momice e gaiatice como era o andar do lobisomem que passara por ele justo em cima da velha ponte com a cachorreira latindo e grunhindo, no que era perseguido pelo escândalo de toda a cachorrada da vizinhança a grunhir e a latir.
Na quinta-feira, sobre o leito seco do riacho que desce do Coité, nas invernada, o lobisomem não podendo mais suportar o assédio dos cachorros, despira sua cabeluda pele e, dele saía, finalmente o homem, criatura amaldiçoada que não conseguia resistir os encantos de uma lua cheia.
É verdade que não existia apenas um lobisomem naquelas paragens, sendo, igualmente conhecidos de todos, o velho Augusto da Serra da Itiúba que fornicava com as filhas, transformando-se, nas sextas-feiras santas e nas quintas, no temível e terrível flagelo da humanidade, daí saindo à cata de criancinhas pagãs para devorá-las onde as encontrasse,razão das maiores preocupações de todos os pais que tratavam, antes da chegada dos dias fatídicos,de levá-las à Igreja Matriz onde eram recebidos, a toque de caixa, tal o poder que o amaldiçoado exercia sobre eles.
Dudé vira, então, o monstro despir a pele. Primeiro começou a espojar-se na areia fina e alva do riacho seco com grunhidos os mais terríveis, ora gemendo, ora chorando, enquanto as mãos iam aparecendo, os braços, as pernas de humano, a cabeça tomando formato de humano, os dentes se justapondo, surgindo da sua inteireza um homem branco com duas pequenas entradas na cabeça, sinal de calvície precoce, para, logo imediatamente, brandir no ar um porrete com o qual se defendia dos cães em azáfama, com milhares de latidos ensurdecedores, ora grunhindo sob as bordoadas do ex lobisomem tudo às visas aterrorizadas do Dudé. Muito mentiroso ninguém poderia duvidar do Dudé, pelo menos aqueles que ouviam seus terríveis gritos, sendo Júlia Preta testemunha da gritaria e da desabalada carreira que nosso personagem deu, com medo e pavor do bicho da semana santa. Os latidos foram parando enquanto o homem, agora na sua natureza normal, caminhava sorrateiramente e apressado por dentro do pasto dos Damascenos, pulando uma segunda cerca de arame farpado e embrenhando-se no pasto do Padre, desaparecendo finalmente na penumbra nas cercanias do pasto do finado Augusto Moura.
Levando embrulhado um enorme objeto,afirmou-se, mais tarde, que era uma pequena criança pagã que seria devorada tão somente chegasse o monstro fora das vistas das pessoas, antes mesmo do dia amanhecer, pobre criancinha que não veria o dia com os seus pais e irmãos.
O Dudé tinha na verdade, de vez em quando, verdadeiros surtos criativos de mistérios, lembrando os que ouviam da vez em que ele vira nas imediações da ponte uma alma penada a querer lhe enforcar, subindo a estrada que dava em sua casa em desabalada correria, a pedir socorro, pois no dizer dele a alma penada do outro mundo vinha ao seu encontro. Diante dos seus gritos terríveis, e não conseguindo atingir a casa dos pais, caiu trânzido de medo no passeio da casa do tio Antonio da Maricota, sendo socorrido pelos primos e pelos tios lhe oferecendo água até quando o cidadão restabelecido voz e fôlego passou a narrar o acontecido.
Provoca a que uma verdadeira patrulha de valentes resolve descer a rua até a ponte. O Dudé não teve forças nem coragem, denotando seus gestos uma pessoa apavorada e atemorizada pela dantesca visa da branca alma penada que do outro mundo viera para assustar os viajantes daquelas paragens. Facas, varapaus, porretes e enxadas, pequeno cortejo descia a ladeira, cada componente fazendo-se muito corajoso, e, por e turno, cada um preocupado em proclamar para o grupo suas virtudes de que iria ao encontro da alma safada e daria um supetão na pobre. Outros chamavam a alma descarada e que não devia estar fazendo medo às pessoas. Os mais penitentes e religiosos atribuíam a alma ser de fulano, sicrano ou beltrano,e que estava penando no mundo para descontar seus pecados e que ela viera para pedir que se fizessem penitencias. Uns ainda diziam nomes dos falecidos, outros, faziam atribuições ao coronel fulano que morrera de matar escravos, outros diziam ser a alma do Padre Severo facínora famoso e desalmado que estava a assustar as pessoas. De ânimo belicoso e mata almas o pequeno grupo formado por rapazes na flor da idade, queria por que queria, provar ao Dudé que alma não fazia medo a ninguém. Pelo menos aquele grupo de louquinhos sertanejos.
No local indicado, à beira da estrada, o grupo começa a preparar e empunhar suas armas, pois, de longe lá estava a terrível alma. Pé ante pé, o grupo aproximou-se. Cauteloso, cuidadoso e... depara o grupo com uma soberba lã-de-sêda esgarçada e revolta, suas folhas grandes deixando aparecer a parte branca das folhas, terror de muito valente nas estadas que a sua visão, pensava tratar-se de almas penadas, do outro mundo.
Alguns muito corajosos caíram em cima da pobre “alma” com seus varapaus e porretes em poucos minutos deixando apenas a galhada desnuda de folhas, estas juncando ao redor do que houvera sido uma frondosa lã-de-sêda atapetando o solo áspero, agora coberto do leite branco e ácido da pequena plana nativa.
O peito dos “heróis” arfantes pela façanha, agora propagandeava na madrugada, em alarido incontido de adolescentes imaturos as virtudes de cada um e a covardia do pobre Dudé que trânzido de medo não ousou acreditar tivessem “morto” a pobre alma e, por isso mesmo seus tios tiveram de providenciar uma esteira de licurí para que o Dudé dormisse até a manhã seguinte .
Façanha digna de nota, entretanto ocorrera antes com o mesmo Dudé. Sabendo a criançada do terrível medo daquele rapaz, um filho do “Seo Joaquim Brandão, de apelido Nenê-Bosta-Docê partiu uma cumbuca de melancia e depois de retirar todo o suculento do seu interior, fez aberturas em formato de cabeça, olhos, nariz e boca acendendo no seu interior uma vela e colocando na estrada de chão batido por onde adredemente sabia ser passagem obrigatória do Dudé, vindo da casa do seo Manoelinho da Dona Rosinha. Era carreira desabalada que o Dudé dava, não ficando os que assim procediam a espera dos seus irmãos, pois sabiam que a reprimenda vinha de mediato já que eles o protegiam das maldades daquela cambada de desocupados que arreliavam o rapaz.
O mais surpreendente é que, quando o Dudé estava a jogar sinuca no Bar Central do Carlos Pires, ficava com um olho na bola, outro na caçapa, e outro nos vizinhos, pois não tinha alma viva deste mundo que fizesse o Dudé subir a ladeira sozinho, fosse a que hora fosse da noite. Com frequencia o pessoal ficava escondido, procurando sair sorrateiramente, escondendo-se mais adiante onde pregariam baita susto no Dudé.
Pois bem, o seu medo era proverbial chegando a tamanho que se perdesse a “carona” dos seus vizinhos de rua o Dudé só chegava a casa se alguma pessoa caridosa fosse levá-lo.
Dudé vira naquela quinta-feira o lobisomem nu, perdendo seus pelos devagarzinho, porém nesse dia, mistério dos mistérios, o Dudé por ma dessas coisas inexplicáveis não arredou pé de cima da pinguela, enquanto embaixo e, a menos de cinco metros de distância um pobre lobisomem, porrete na mão, dizia impropérios para os infames cachorros que o perseguia. Parado, amedrontado não restava dúvida ao Dudé que assistia e abriu bem os olhos, e viu o lobisomem. Tivera, é verdade, muita sorte uma vez que o bicho não o vira, caso em que estaria irremediavelmente perdido. Na luta para livrar-se dos cães valentes, o lobisomem se esqueceu de olhar a seu redor, nem poderia fazê-lo, antes de livrar-se da matilha enfurecida, empreendeu apressadamente sua fuga adentrando a escuridão, recolhendo antes sua pele sob o braço, o que parecera à testemunha, uma criança enrolada na pele ou em algum tapo de pano tirado da mãe da criancinha. Na semana passada, notícias chegadas da Tapera davam conta de que durante a semana o lobisomem não deixou ninguém dormir, todos apavorados com o trotar do imenso “cachorro” à cata de criancinhas pagãs. Era então verdade que sendo a cidade mais povoada, possivelmente ali estaria para devorar mais criancinhas.
A luz do fifó da casa mais próxima, não deixava, pela sua pobreza, alcançar reflexos de luz. Mas Dudé, testemunha se credibilidade, conseguiu ver claramente quem era o lobisomem de Itiúba. Contando aos pais, estes gritaram conta o filho, perguntando se “ele era doido” de espalhar uma conversa daquelas na cidade. Estariam perdidos.
Verdade que um se tio de nome Mateuzinho testemunhara um dia um certo lobisomem, sendo portanto muito respeitado, porque tivera a coragem de enfrentar com um porrete. Acontecera que a mulher do cidadão tendo viajado para a capital e, sendo o mesmo um chefe político local pretendia dar uma escapulidinha. Justo na noitada de farra sexual, o amasio da Isaltina chega sem aviso obrigando o “lobisomem” a desabalar da casa de Isaltina e do leito de pecados, afundando na estrada, causando alarido na cachorrada que se enfiara atrás do libertino lobisomem que não contava Mateuzinho subindo a ladeira naquela madrugada. Mulato desarnado, pau de toda obra, resolve que aquela será a oportunidade de dar um fim e quebrar a pauta do bicho medonho. Enfrenta o danado do bicho, sacode com força o porrete nos peitos do “lubi” que estanca, adquire voz ... e fala.
Na segunda bordoada do malvado Mateuzinho, pois este só queria mesmo era penalizar o bicho que murmurava e gritava ao mesmo tempo:
-Mateuzinho! Sou eu.
-Eu quem fio de égua?
Passara-se um inferno naquele instante para o infeliz o lobisomem, enquanto Mateuzinho farto de coragem distribuía bordoadas à mão cheia. Acossado de um lado pelos cães açulados, pela sua frente uma barreira intransponível representada por Mateuzinho e seu porrete desastrado, bordoadas batiam fofas nas costas do lobisomem, sem dó nem qualquer piedade.
-Mateuzinho diabo doido. Sou eu, desgraçado.
-Eu quem, fio da puta. Já viu lubi falá?
-Sou eu, Mateuzinho!
- Eu quem, disgraçado?
Mateuzinho quase desmaia de medo e pavor! À sua frente um simpático e desalinhado, mão no peito arfante, voz acabrunhada, medo estampado na face, o chefe político sem palavras para as explicações. Estava descoberto o segredo daquele homem exemplo de virtude e de seriedade, marido de uma das mais belas senhoras da cidade, homem de palavra, mas que cedera às paixões e caprichos da carne, em frêmito e na calorosa paixão. Apaixonara-se por Isaltina, a filha de Esaú, a mula-de-padre que atanazava os sertões.
O segredo de Mateuzinho, agora era partilhado por seu sobrinho Dudé que por ser doido ninguém levava em consideração o que dizia e afirmava. Só aos mais chegados, aos mais amigos, aos mais íntimos, mesmo assim ao pé do ouvido Mateuzinho contava sua história, ao tempo em que repreendia Dudé para que nada falasse a ninguém senão ele iria parar na prisão e jamais sairia de lá.
Setembro de 1987.
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sexta-feira, 27 de maio de 2011

VELHO NÉ E O LOBISOMEM.


Velho Né barbeiro estava voltando da missa onde repicara o sino e, nem bem atravessara a Praça da Matriz, lá estava o diabo do velho Esaú olhando com aqueles olhos merencórios, mortiços e apagados sem o brilho dos seres desse mundo. Supersticioso e católico praticante desde seus tempos de Umbuzeiro, velho Né assustou-se com a aparição súbita do velho Esaú, perguntando, o que ele estava fazendo ali.

Era mais ou menos sete horas da manhã, logo terminada a primeira missa do dia, nem bem as beatas e carolas haviam desaparecido pelo viaduto ou na esquina do Beco do Açougue.

Velho Né era um desses profissionais de ofício barbeiro, levando uma vidinha mansinha de fazer tinir o badalo da matriz, recebendo uns trocados do dono do morto, mas na maior das vezes era compelido por um sentimento de piedade cristã a perdoar o pagamento, pois no seu raciocínio, o dono do morto perdia o parente e, ainda tinha de arcar com pagamento pelo dobrado dos sinos. Era assim uma alma boa e generosa ocupando-se basicamente em cortar cabelos mal nascidos da sua freguesia composta simultaneamente de jovens e velhos da sua faixa de idade. Pai de prole numerosa, velho Né fazia das tripas coração para cuidar da mulher e filhos, com a incumbência de hospedar parentes e antigos vizinhos, preferentemente às sextas e sábados, religiosamente, visitantes da feira semanal. Durante as festas e quermesses, no Natal e, muito especialmente na festa de 8 de dezembro, dia dedicado a Nossa Senhora da Conceição, padroeira da cidade, lá estava o velho Né a resmungar sempre alguma coisa, a cofiar bigodes e cabelos, e a balbuciar coisas aos pés dos cangotes da negrada que ia fazer barba e cabelo, falando para si mesmo, sem vivente alma desse mundo entender sua aflição, em sons guturais e ininteligíveis para quem só aprendeu o simples hábito comum de falar.

Por mais que os fregueses tentassem adivinhar, ou melhor, ouvir suas palavras, nada ouviam. Falava como se um ventríloquo engolira seu próprio boneco, embora o bafo com cheiro de fumo de corda encontrasse ressonância exatamente no pescoço do freguês que nem ligava mesmo para os perdigotos. Quando resolvia sair dos seus mistérios e falar, velho Né disparava como uma metralhadora sem encontrar oponente para os seus argumentos destituídos de lógica, no linguajar das brenhas da Fazenda Umbuzeiro de onde havia saído em busca de dias melhores para sua família e a si próprio.

Por aí já se vê que velho Né jamais trabalhara na cidade em outras ocasiões, preferindo escolher a profissão como se barbeiro bissexto ou fruto temporão, alcançando o que considerava a maior profissão da vida e que havia ganhado algum dinheiro.

Na roça em que lavara toda a sua existência, dizia que ficava sempre na dependência e na esperança de que o Velho do côrno do São Pedro mandasse uma mijada lá de cima na cabeça dos filhos de Deus.

Acostumado e assimilado pelos garotos, tornara-se um dos melhores mestres de barbearia, sendo de causar espanto como um roceiro conseguira o manejo de uma tesoura e uma navalha, sendo o mais requisitado para desbastar as cabeleireiras da rapaziada à Príncipe Danilo, além de ser servo fiel e dedicado que conversava de antemão com os pais dos rapazes, de modo que o corte de cabelo era decidido não pelo freguês eventualmente sentado, mas com antecedência entre os pais e ele. Como era fiado só para depois os pais ressarcirem os prejuízos, sem juros nem correção que aqueles tempos ainda não existiam, ou se existiam, eram brandos, seguramente correção não existia, pois, invenção de general ladrão e vendilhão do país. Velho Né assumia os riscos da sua empreitada e as zangas dos descontentes que não tinham como sair do indefectível corte à “Príncipe Danilo”, aquele cortinho curtinho, execrável e miserável da adolescência de todos nós, dando a impressão na rua, de que o “Seo Né” possuía uma cabaça serrada ao meio e, sob medida enfiava na cabeça dos fregueses para, em seguida, meter a tesoura sem dó nem piedade!

Exigente e compenetrado da sua sagrada missão velho Né não admitia gracejos nem piadinhas, mandando o indivíduo que a tanto ousasse, para casa, na hora, pouco importando se com metade da cabeça raspada ou meio bigode por fazer, ou se, sem o pé-do-cabelo por acertar. Era o terror da rapaziada.

Não obstante fosse homem sério e já amadurecido, velho Né se permitia de vez em quando, contar uma das suas histórias picantes, sem admitir opiniões divergentes ou aprovação de quem quer que seu ouvinte fosse. Todos tinham de escutá-lo sem rir, o que caso ocorresse seria interpretado como falta de respeito aos mais velhos, coisas que o prestativo Né não admitia.

Até lhe crescer uma barriga enorme, provavelmente vítima de milhões de verminoses representados pelos helmintos e platelmintos, velho Né trabalhava diariamente, não parando nem aos domingos, assim terminasse a missa onde, como já o dissemos, fazia às vezes de coroinha, a falta de melhores penitentes e crentes, ele mesmo vestindo aqueles paramentos de coroinha, com sua pança proeminente a lhe encurtar as vestes que teriam sido, certamente e com absoluta certeza, confeccionados para serem enfiados em algum moleque e não num homem feito como o velho Né.

A tristeza não lhe deixava de bater à porta, porque a molecada sem-vergnha já não mais queria mostrar-lhe respeito, chamava-o abertamente, à sua passagem, de “velho Né-barriga-d’água”. Alguns mais literatos ariscavam um palpite dizendo que a doença do velho era uma terrível e incurável hidropisia, palavra estranha e difícil, valendo para o Malaquias, no seu claudicante linguajar, a informação de que Né estava com “iopsia”.

Mantinha, no entanto, o respeito entre os mais velhos, mesmo porque ninguém iria rir da miséria e doença do próximo, não perdendo sua freguesia, antes, aumentando-a, mesmo quando souberam que o velho Né estava acamado, indo em romaria, como a esperar, em sentinelas seguidas, o velho Né bater a “caçoleta”.

O dia nem bem nascera e Né encontrava velho Esaú dando-lhe a impressão de tê-lo visto surgir do nada, jurando que enquanto batia o sino, lá de cima da torre, olhava constantemente para a rua, espiando as pessoas que chegavam para a missa e, lá não estava o velho Esaú. Via bem quando dona Dejanira atravessara a praça levando no seu passo cadenciado, terço à mão e lábios balbuciantes, chalé negro e trabalhado de rendilhado do Ceará à cabeça, sem olhar para um lado ou outro. Vira a irmã dos carvalhais, carola assumidas, uma delas de sorriso divinal e misterioso, cuja beleza simples e singela faria corar de vergonha a Monalisa, moça velha que gastara vida e mocidade a costurar, arrumar altar de igreja para a missa, a engolir hóstias das mãos de padre Eutímio e, depois José, num desperdício incompreensível, pois moça de prendas, de excelente e fina família de quem nada de desabonador jamais se ouvira deles, salvo a maledicência de que “enviuvara sem casar, morto seu namorado de infância e perdendo os pendores para os homens”. Vira, também, Piroca Dentão deixar sua pequena tenda de sapateiro, dirigir-se ao templo, bem como, D. Francisquinha com seu andar apressadinho e nervoso, pisando macio e rapidinho, mulher casada com o “seo” Antonio Berro Grosso.

Como todos sabem a acentuada decadência religiosa da Igreja Católica, não tem permitido mais de meia-dúzia de carolas e beatas ou ainda “papa-hóstias” nos templos nas manhãs de frio. Agora ali, à saída do templo católico, lá estava Esaú, olhar estufado como se quisessem saltar das órbitas, ou a espera de algum lenitivo que acabasse com o seu remorso de filho do diabo. Jurava o homem que Esaú aparecera do nada.

-Veio Né, “vosmecê” me corta o cabelo e me cuida de fazê os cabelo da barba...

- Disgraça veia... tu ainda faz cabelo e barba? Tá pareceno um lubí... senta aí vou ti amansá.

A ironia que a vida costuma pregar as pessoas levou a que pelo pouco conhecimento, velho Né dirigisse, sem maiores maldades, aqueles gracejos, ao freguês, sem, contudo, ter a ideia de ferir Esaú ou descobrir-lhe os segredos que afinal de contas velho Né não tinha conhecimento algum até aquele dia.

Cabelo ensebado, roupas em desalinho com fiapos esvoaçantes, Esaú sentou-se na cadeira humilde do barbeiro, tendo mestre Né ajeitado o recosto da cabeça para dar início ao serviço. Pincel e potinho de espuma, pedaço de sabão de massa na mão, velho Né tentava arrancar para o fundo do potinho um pouco de espuma com a qual besuntaria a cara gorda e vermelhona, como se de alemão, do velho Esaú, destarte, arrancar os grossos e espessos cabelos.

Esaú silencioso não puxava conversa e velho Né começava a falar embolado para dentro conforme seu velho e conhecido hábito. Passa e besunta espuma espalhando-a caprichosamente sobre os pelos de Esaú enquanto este, impassível, olhava pelo espelho rapidamente, fechando os olhos. Tomando posição, velho Né sobraça a cabeçorra de Esaú, descreve um ângulo com o seu cotovelo ficando por cima do cocuruto de Esaú, e, assim, enfia a navalha com vontade. Não se sabe por que, Né sentiu que a navalha afundara na cara do Esaú, pediu desculpas e procurou queimar o provável corte com “aqua velva” trazida pelo seu cunhado de São Paulo, sobraçando um pedaço de pano velho e encardido que servia para limpar restos de espuma das caras dos fregueses. Surpresa maior iria pegar de roldão o velho Mestre, pois nem ao menos arranhara a cara do velho Esaú e já estava a” justiça divina apontando os caminhos sacrossantos”.

Sangue não aparecia. Embaixo do grosso queixo duplo de Esaú, lá estava aberto um lanho de quase cinco centímetros, para espanto de Né, não saia nem uma só gotinha de sangue, assim como Esaú sequer se mexera ou se queixara do corte, o que seria natural. Apenas a pele branca e esgarçada denotava o corte. Desconfiado o velho Mestre perguntou a Esaú se não estava doendo. Mudo estava Esaú, assim ficou. Mandou que Esaú abrisse os olhos.

-Esaú abri os oio. A navaia cortô vamicê e eu tenho de queimá com aqua velva.

-!!!

- Esaú, tá durmino, homi?

Sem abrir os olhos Esaú respondeu:

- Fui pro mato tirá meu timbó, tudo qui vê calado é mio.

- Tá doido, homi!!!

De um salto Esaú derrubou o espelho à sua frente, obra de arte feita por seu compadre Crispim cujo vidro mandara buscar no Bonfim e, agora ali, estava tudo quebrado, seu puro cristal duvidoso. Esaú se comprometeu que pagaria na hora. Feita a barba e o cabelo velho Né resolveu ir para sua casa correndo, pois se sentira muito incomodado.

Da cabeça de Esaú surgiram morotós gigantes, transformando-se em multicoloridas libélulas que se dirigiam às portas do estabelecimento. Velho Né constatou que saíam da cabeça de Esaú, como se fossem os miolos, em pedacinhos miudinhos. Do nariz escorria uma gosma branca e pegajosa como semelhante ao catarro de tuberculoso galopante em fase final. Era prenúncio das quaresmais. Esaú começava a putrefazer-se para a transformação de alma penada do outro mundo.

Naquela noite nos espojeiros dos animas, Esaú estaria com a filha dele, duas bestas-feras, pois que viviam amasiados.

Max Brandão Cirne

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segunda-feira, 23 de maio de 2011

Crônicas de Itiúba.

Em breve estaremos postando aqui algumas crônicas sobre pessoas e coisas de Itiúba, Sertão da Bahia, escritas desde a minha meninice, até a década de 70.


Espero que seja de proveito para quem lê-las.

domingo, 22 de maio de 2011

Retomando o blog

Passei algum tempo sem postar nada neste blog. Algumas coisas aconteceram. Primeiro estava muito ocupado escrevendo minha monografia do curso de Licenciatura em História pela PUC - Rio de Janeiro, depois perdi a senha e só consegui recuperar hoje , graças a minha filha Dianayara Cirne, Especialista em História Regional pela UNEB - Campus - V.
Agora tentarei fazer postagens diárias sobre variados temas históricos.
Se você quiser saber algo sobre qualquer tema histórico faça um comentário, pergunte, discuta.
Quanto mais estudamos, mais descobrimos que nada sabemos.